Restaurantes em Pipa têm pratos estrangeiros e preços salgados

Sotaque argentino predomina na vila de Tibau do Sul, no Rio Grande do Norte

Tibau do Sul (RN)

As praias de Pipa completam a cartela no bingo das praias embasbacantes. Os clichês todos estão lá: falésias deslumbrantes, piscinas naturais, encontro de rio com oceano, dunas para zanzar de buggy, golfinhos nadando lado a lado com banhistas e uma água que parece ter saído do micro-ondas.

Mas esse distrito de Tibau do Sul, um dos destinos mais populares da costa nordestina, tem um diferencial para temperar seu cardápio praieiro típico. Na ruazinha principal, é possível se sentir num arremedo de Guia Michelin, com uma gastronomia internacional que vai além do festival de peixes locais que se costuma encontrar nesses picos. 

Praia em baía com falésia avermelhada no primeiro plano e dunas com vegetação
Baía dos Golfinhos, em Pipa, no distrito de Tibau do Sul, a 85 km de Natal  - Welinton Barbosa/Secom

Pipa se empina toda para falar de sua fama cosmopolita. O Cicchetti (o menu ensina a pronúncia certa: chi-ket-tee), por exemplo, se vende com uma versão veneziana das tapas espanholas. E com preços que só saem em conta para os turistas que vêm com dólares e euros —e não são poucos deles.

Do gnocco frito (massa de pizza fria com presunto de parma) ao ravióli de pecorino trufado, as porções parecem ter um preço ok a princípio, com poucas superando R$ 30. Mas logo se dá conta de que é preciso uns três ou quatro pedidos por pessoa para forrar o estômago, e nem estamos falando em sair de lá como um balão estufado.

“É difícil ter nativo aqui”, diz o barman, paulistano. De fato, nesse quinhão de Pipa é complicado mesmo achar locais entre os trabalhadores. 

O sotaque argentino predomina entre garçons e garçonetes que ficam na rua tentando ganhar na lábia os visitantes à procura de um lugar para comer e encher a cara, não necessariamente nessa ordem.  

O sotaque é ouvido no bar Nativos. Com luz avermelhada, recadinho na lousa sobre o wifi (“não temos, conversem entre vocês”) e uma caixa de som com Ella Fitzgerald cantando clássicos de Cole Porter, o local fica na beira de uma vilinha de comércio que parece saída de filme mediterrâneo.

Aqui a onda são os drinques,  e o conselho da bartender, um Lady Mojito, não decepciona.
Um dos maiores representantes da finesse gastronômica é o Oca Toca, restaurante aberto ao público dentro da pousada Toca da Coruja.

Encravado no meio de um jardim, com funcionários que decoram o nome do cliente para fazê-lo se sentir na tal da experiência personalizada, sua faixa de preço vai de R$ 60 a R$ 100. Um dos carros-chefes é o robalo grelhado na folha de bananeira (R$ 78).

Essa é a parte gentrificada do centro, onde lojas de grife vendem vestidos pelo preço de um aluguel e não se toma sorvete, se toma gelato (o de seriguela é ótimo), com uma bola custando em torno de dois dígitos de reais. 

Bem menos frequentado por viajantes, outro trecho oferece pratos mais gente como a gente, como PFs (pratos feitos) a R$ 20.

Ir para um destino como Pipa, de certa forma, é contentar-se em pagar caro pela experiência, ainda que o prato não valha tudo isso.

Exemplo: praia de Madeiro. Com cara de praia de resort, chega-se nela descendo um escadão (e subindo de volta, prepare o fôlego). Seu paredão de falésias é a moldura que qualquer blogueirinha 
pediu a Deus.

Os preços do almoço são mais salgados que o mar Morto. Uma das barracas que serve o cliente em uma das espreguiçadeiras, sem banheiro (atendentes apontam para o mar), fazia um peixe com involuntárias notas de carne vermelha (pareciam feitos na mesma chapa), batata frita e salada de alface e tomate. Bem servido, verdade, mas nada que justificasse a porção inteira sair por cerca de R$ 150.

É o pedágio para estar num pedaço disputado de um dos points mais paradisíacos da costa brasileira. Mas relaxe.

Inclusive, um ótimo conselho para tanto é acionar o serviço de massagens da pousada Spa da Alma, feito em casinhas no meio de um bosque. Shiatsu numa piscininha (“o corpo flutuando em movimentos harmônicos”) e ThetaHealing (“técnica quântica poderosa de cura energética e autoconhecimento”) são algumas das opções.

Só tente não se estressar com o valor (R$ 200 a R$ 400).
 

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