Festas religiosas têm história, fé, música e comida boa no Recôncavo Baiano

Uma das comemorações mais populares é a da Boa Morte, celebrada em agosto na cidade de Cachoeira

Iara Biderman
Recôncavo Baiano

No calendário do Recôncavo, uma das festas que atrai mais gente é a da Boa Morte, celebrada em agosto em Cachoeira. Declarada patrimônio imaterial pelo Ipac-BA (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia), é uma celebração de mulheres negras e um documento vivo da história do país.

Homem aparece com os dois braços para o alto, flexionados
Pai Nino no seu terreiro em Cachoeira (BA)  - Raul Spinassé/Folhapress

A irmandade da Boa Morte foi criada na primeira metade do século 18. As irmãs da confraria religiosa, vindas da África, dedicaram-se por anos a conseguir alforria de conterrâneos ainda escravizados. 

Na casa conhecida como estrela, no centro de Cachoeira, foi instalada a sede da entidade e iniciado o trabalho social das irmãs que, além de comprar a liberdade, queriam dar condições dignas de vida e trabalho aos recém-libertos. 

Na época dos festejos, iniciados no dia 13 de agosto, dezenas de mulheres cruzam as ruas de Cachoeira em procissão. Isso ocorre há mais de 200 anos. As comemorações duram uma semana. Além de cortejos e missas, a festa tem muita música e comilança. 

Na primeira procissão, as mulheres saem de branco, carregando a imagem da Senhora da Boa Morte em um andor até a Igreja Matriz. No dia seguinte, caminham à noite, carregando velas e cantando. No terceiro dia, 15 de agosto, são acompanhadas das filarmônicas locais enquanto levam flores e o andor de Nossa Senhora da Glória à Matriz.

 

A partir do segundo dia de comemorações, o samba de roda, outra tradição do Recôncavo, espalha-se pelas praças e largos de Cachoeira. Há uma sequência de almoços e ceias.

Nos banquetes compartilhados com a comunidade são servidos cozido (verduras e carnes acompanhadas de pirão) e caruru, um refogado de quiabo no dendê que é comida de santo: é o prato da festa de São Cosme e Damião e de seus correspondentes na religião de matriz africana, os erês (orixás crianças).

Outra festa popular na cidade é a de Nossa Senhora D’Ajuda, realizada em novembro. Também dura uma semana, com procissões, lavagem da capela da Ajuda, a primeira construída na cidade, desfile de fantasias, charangas, bloquinhos e samba de roda. 

A uns 30 km de Cachoeira, na cidade de Santo Amaro, a festa Bembê do Mercado é África na veia. Realizada desde 1889, no dia 13 de maio, celebra a abolição da escravatura. 

Reúne mais de 40 terreiros, em cerimônias para Iemanjá, Oxum e Exu. Brincantes de maculelê, grupos de capoeira, música e teatro se apresentam na semana da festa.

Na mesma cidade, conhecida por ser a terra de Caetano Veloso, a festa da purificação é outro ponto alto. Acontece na última semana de janeiro e dura dez dias. O evento mais importante é a lavagem da Igreja da Purificação com água de cheiro, levada por um cortejo de baianas em trajes típicos e centenas de participantes vestidos de branco.

E não dá para esquecer as festas juninas, quando todo o interior baiano pega fogo. Entre as mais animadas estão as de São João em Cachoeira, com comemorações nas praças e festival gastronômico, e em São Félix, com seu forró tradicional.

GLOSSÁRIO

Axé  termo iorubá que significa energia, poder, força e que sustenta os terreiros de candomblé

Babalorixá, babaloxá ou babá é o pai de santo, pai de terreiro, sacerdote

Bori oferenda para harmonizar e fortalecer a cabeça de uma pessoa iniciada ou não no candomblé

Candomblé religião introduzida no Brasil a partir da escravidão e do período colonial com os africanos principalmente das regiões atuais da Nigéria e do Benim

Eguguns espíritos dos ancestrais mais importantes de uma comunidade

Iabás orixás femininas

Ialaxé  mulher responsável pela casa de candomblé, que cuida da limpeza, da oferenda de comidas aos orixás, das plantas

Ialorixá, iyá ou ialaorixá é a mãe de santo, mãe do terreiro, sacerdotisa

Ilê ou ilê axé local sagrado, casa onde acontecem as festas públicas e abriga os convidados

Iorubá língua viva, de tradição falada, composta por milhares de dialetos africanos que atravessou o Atlântico nos porões nos navios negreiros e sobrevive até hoje

Nações do candomblé termo usado por portugueses para agregar diferentes grupos étnicos que foram escravizados no Brasil. Segundo o historiador Nicolau Parés, essa divisão era de ordem política, por meio da língua, dos cantos, das danças e dos instrumentos. Com o passar do tempo, o parentesco biológico foi sendo substituído pelo parentesco do santo, de caráter teológico

Obarás orixás masculinos 

Iaô filho de santo 

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