Agências vendem pacotes com megadescontos para 2021; saiba se vale a pena

É preciso estar atento às condições de cancelamento e à reputação das empresas

São Paulo

Uma agência oferece pacote de cinco dias em Porto Seguro, com hotel, passeios e passagem aérea, por R$ 589. Outra tem roteiro de oito dias na Grécia, com hospedagem e voo, por R$ 1.999.

Enquanto a maior parte do mercado de viagens está parado por causa do coronavírus, ofertas como essas estão surgindo na internet, com datas de embarque para o segundo semestre ou 2021.

Uma pesquisa feita pelo laboratório de inteligência de mercado Trvl Lab com 300 viajantes constatou que 36,3% deles continuam em busca de promoções para viajar, enquanto 27,7% avaliam como inadequado receber esse tipo de anúncio atualmente.

Uma das agências de grande porte que está vendendo esses pacotes é a Hurb, antiga Hotel Urbano.

"As outras marcas estão deixando espaço na mesa, e vamos ocupar o lugar delas", diz Allan Baptista, gerente de marketing da companhia.

Um dos roteiros oferecidos pela companhia dava direito a sete dias em Orlando (EUA) por R$ 1.499, com passagem e hotel. As promoções viraram piada entre agentes de viagem, que fizeram memes com pacotes da empresa para a Lua por R$ 1.999.

Vista aérea de parque temático vazio, com castelo
O castelo da Cinderela e área vazia do parque Magic Kingdon, da Disney em Orlando, em março, após o fechamento da atração por causa do coronavírus - Gregg Newton/Reuters

A Abav (Associação Brasileira de Agências de Viagem) do Paraná publicou um comunicado alertando para o risco de ofertas malucas, de empresas que estariam praticando preços "que não condizem com a realidade" e que "despertam os sonhos do consumidor, mas que podem se tornar um pesadelo".

Essa reação do setor foi encarada com surpresa pela Hurb, segundo Baptista. "É o modelo de negócio que fazemos há nove anos", afirma.

O modelo da Hurb é diferente do das agências tradicionais. Nele, o consumidor não define exatamente a data em que vai viajar. Em vez disso, sugere três datas, e a empresa escolhe uma delas. O hotel e o voo também são definidos posteriormente pela empresa, e o consumidor escolhe se os aceita ou não.

Dessa forma, diz Baptista, é possível reunir o embarque de vários passageiros para um mesmo destino em um mesmo dia, o que ajuda a conseguir preços mais baixos.

A empresa também não pretende lucrar com todos os pacotes. Segundo Baptista, os preços baixos são uma estratégia para criar relacionamento com o consumidor e ganhar mercado, o que pode gerar mais receita adiante.

A supervisora do curso de Turismo do Centro Europeu, Raquel Pazini, questiona o fato de a empresa vender pacotes para o fim de 2021. "Não existem valores definidos para depois de abril de 2021, porque as tarifas das companhias aéreas nunca estão disponíveis para mais de 12 meses."

De acordo com Baptista, os pacotes com datas para além de 12 meses não têm a reserva oficial do voo, mas há acordos com as companhias para que a passagem seja concedida no futuro. Caso o preço seja maior que o esperado, a Hurb diz que arca com o custo extra.

Para Carolina Sass de Haro, sócia da consultoria de turismo Mapie, as promoções são atrativas, mas é preciso estar atento à reputação das agências, porque nem todas sobreviverão à crise.

Já Pazini teme que o sucesso desse tipo de promoção atraia negócios que não tenham condições de bancar descontos tão agressivos.

Por já ter viajado antes com a Hurb, a engenheira Thaís Grzegozeski, 29, não se preocupou ao comprar um pacote promocional para Johannesburgo, na África do Sul, para 2021. "Como tive uma experiência boa antes, nem me questionei muito", afirma.

O consumidor que já quiser garantir uma viagem para os próximos meses deve apostar em roteiros com remarcação e cancelamento gratuitos. Vale lembrar que a medida provisória 948 permite que as empresas levem até 12 meses após o fim da pandemia para fazer o estorno do valor.

"Por mais sedutoras que sejam as promoções, o momento é de incerteza, e o consumidor deveria ser cauteloso", diz Haro. Para ela, enquanto não houver remédio ou vacina para o coronavírus, podem haver restrições ao turismo.

De acordo com Pazini, também é preciso pensar no preço total da viagem, e não só da passagem aérea e do hotel, ao decidir comprar um pacote hoje. O dólar turismo está cotado a R$ 5,36, e o viajante ainda terá que arcar com alimentação, atividades e transporte.

"Não adianta chegar no destino e não ter dinheiro para passear."

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