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'O sonho virou pesadelo', diz leitora que tinha viagem marcada; veja relatos

Fechamento de fronteiras e medo de contaminação por coronavírus forçam mudanças de planos

São Paulo

A pandemia do novo coronavírus pegou vários viajantes de surpresa. O que no início parecia ser um problema da China, em poucas semanas ganhou escala global e forçou milhões de pessoas a mudarem seus planos e correrem atrás de remarcações e cancelamentos —o que nem sempre é fácil.

Viagens para comemorar a lua de mel, tirar férias, visitar parentes ou até mudar de país, tudo foi interrompido por fronteiras fechadas e o risco de ser contaminado.

Veja abaixo o que os leitores da Folha decidiram fazer com as viagens que haviam programado para este ano.

"Sempre quis visitar Nova York e minha irmã me presenteou com a passagem e estadia. Bastava reunir alguns dólares, tirar o visto americano e poderia conhecer o local consagrado por Frank Sinatra como a cidade que nunca dorme, já estava até cantando e sonhando!

Entretanto, as más notícias começavam a ruir meus planos: a instabilidade da economia brasileira, a desvalorização da moeda frente ao dólar e aí o golpe fatal, a pandemia de Covid-19. A viagem ainda não foi cancelada, está marcada para o início de julho, mas Nova York é hoje o epicentro da epidemia nos EUA. Diante de tantas incertezas, conclui que o mais importante é ter saúde. O sonho pode ser adiado, a vida, não." (Glayton Hipolito, Osasco/SP)

"A viagem dos meus sonhos seria para Portugal, em 16 de março. Foi uma viagem planejada há três anos, quando me aposentei. Tinha a intenção de morar em terra lusitana, solicitei ao Consulado Português um visto de residência. Enquanto providenciava os documentos, também me planejava financeira e psicologicamente. O visto foi deferido em dezembro de 2019, e eu teria até 120 dias para me mudar.

O tempo foi passando, e a epidemia, que era só em Wuhan, na China, transformou-se em pandemia. Tudo mudou a partir daí. Tive que pedir o cancelamento da viagem, devido ao fechamento de fronteiras, mas minhas malas não foram desfeitas." (Katia Aguiar, Salvador/BA)

"Eu e minha esposa estamos separados por meio mundo e ainda sem perspectiva de ficarmos juntos novamente. No final do ano passado, saiu a minha promoção e mudança para Cingapura. Éramos noivos e decidimos nos casar em janeiro, para que ela pudesse vir comigo.

O plano era eu ir em fevereiro, ela me visitar em março e depois se mudar em maio, mas a Covid-19 atrapalhou tudo. A visita de março não aconteceu, e não há voos para Cingapura no momento, que está em lockdown até 1º de junho.

Somos gratos pela nossa história não envolver a nossa saúde nem a das pessoas que amamos, mas sofremos por não termos previsão de quando estaremos juntos. Até ligar um para o outro é difícil por causa das 11 horas de diferença no fuso horário. Tudo isso, somado ao fato de eu estar isolado há mais de 35 dias, em um trabalho novo e lidando com culturas diferentes, tem adicionado muita ansiedade na balança." (Fábio de Oliveira, Cingapura)

"Minha viagem tinha um motivo especial. Além de fazer um passeio por Emirados Árabes, Alemanha e República Tcheca, o objetivo seria visitar meu sobrinho Gaspar, que deve nascer no final de junho em Bordeaux, na França, onde mora minha irmã.

A viagem estava marcada para 6 de julho e eu ainda tinha esperança de que as passagens fossem mantidas, mas nesta semana recebi um e-mail da companhia aérea informando o cancelamento por causa da pandemia. Por sorte, não tinha comprado mais nada relacionado à viagem. Considerando que as regras da empresa me permitem deixar a passagem em aberto por 24 meses, o que me resta é esperar o tempo passar para depois remarcar, tendo a certeza que poderei carregar o Gaspar no colo, sem preocupações." (Lucas Alves e Silva, Belo Horizonte/MG)

"Eu iria me casar em 19 de abril e viajar para Curaçao no dia 20. Graças a Deus todos os fornecedores foram compreensivos e remarquei meu casamento sem dificuldades. Agora, a lua de mel... estou há quase um mês aguardando a agência me retornar sobre o hotel. Nossa intenção é remarcar para outubro, junto com a nova data do casamento.

Já me falaram que as passagens serão trocadas, mas o hotel está complicado. Outubro é mês de baixa temporada na ilha e mesmo assim querem nos cobrar o dobro do que pagamos pela estadia em abril. Estamos aguardando para ver." (Camila Passos, Sumaré/SP)

"Temos uma viagem marcada para o Peru, em 5 de maio, mas ela não vai acontecer. Já desmarcamos a estadia. A pedido da companhia aérea, estamos esperando para desmarcar a passagem mais em cima da hora, para ver se ainda vamos neste ano ou se fica para 2021.

A coisa não caminha bem no Peru, então fica difícil decidir, porque implica em alinhar a ausência do trabalho com a situação no destino, e será que teremos dinheiro? Já seria uma viagem com restrições orçamentárias, só conseguimos comprar porque a passagem estava barata. O que era para ser a realização do sonho de conhecer Machu Picchu está se tornando um problema, porque agora teremos que viajar, mesmo se não tivermos condições." (Rafael Teixeira, Vitória/ES)

"Eu e meu marido tínhamos uma viagem marcada para Foz do Iguaçu no final de abril. Reservamos no final de janeiro, não tínhamos ideia do que estava por vir. Na primeira semana de confinamento, decidimos cancelar a viagem, porque notei que especialistas estimavam o pico da epidemia entre abril e maio.

Desmarcar o hotel foi tranquilo, mas a passagem aérea foi uma dor de cabeça. Tentei cancelar pelo site e dava erro. Tentei ligar, mas ninguém atendia. Conseguimos postergar para o final de setembro, pelo site, com custo adicional. Achei o serviço da companhia aérea péssimo por não possibilitar o cancelamento e nem a remarcação sem custo. Meu plano B é postergar ainda mais e pagar outra taxa, caso a situação esteja descontrolada em setembro, mas acredito que tudo estará normalizado em agosto." (Camila Gomes, Osasco/SP)

"Adiar um sonho é apenas uma das atitudes de resiliência que estamos exercitando agora. Eu tinha uma viagem marcada para Milão entre 7 e 19 de maio, para fazer um curso na cidade de Reggio Emilia, que é um sonho antigo. Finalmente consegui organizar minha rotina e fazer o aporte financeiro para esse momento tão esperado. Para tudo! Segura seu sonho!

Desde o início da pandemia vim acompanhando os desdobramentos e torcendo para que fosse algo passageiro. Sabemos que não foi assim que a história se registrou. O curso foi adiado para outubro. Agora é hora de segurar a ansiedade, ficar em casa e garantir que esse sonho possa se realizar em outubro. Voltarei ao Brasil no dia dos professores e, espero, com a mala cheia de souvenires e a alma repleta de novas experiências." (Karen Sacchetto, São Paulo/SP)

"Na terça (21), eu e minha esposa estaríamos voltando de Buenos Aires. Planejamos a viagem para lá, sem os filhos —depois de 16 anos—, para comemorar as nossas bodas de opala, que são 24 anos de casamento. Apesar da oferta da companhia aérea para remarcar a viagem, preferimos o cancelamento. Julgamos ser mais seguro, porque não temos a menor ideia do que nos espera no futuro próximo, depois da Covid-19." (Paulo da Silva, Campinas/SP)

"Em dezembro de 2019, após muito postergar por receio de ataques terroristas e pela má fama de que os turistas não são bem recepcionados, comprei minha passagem para março e abril de 2020. Decidi que era hora de enfrentar o medo de voar e conhecer a cidade que tanto sonhei, Paris.

Chega fevereiro, o mundo está diferente. Os casos da epidemia de Covid-19 se espalham, a Europa começa a se tornar um novo epicentro da doença. Começo a me tocar e a desmontar todo o ânimo para a viagem.

Pensei, lá no fundo, que o medo de voar, do terrorismo, de caminhar sozinho em terras desconhecidas, me alertava que não era a hora. Me encontrei vendo tudo que investi nos últimos meses, a sensação de perda de tempo foi terrível, o que me consolava era que isso não era nada perante o sofrimento que acometia o mundo. O sonho de conhecer Paris vai ficar em stand-by pelos próximos anos."
(Luiz Rocha, Mesquita/RJ)

"Comecei a programar minhas férias, que aconteceriam em abril, ainda no ano passado. Planejei alguns dias para conhecer São Paulo e, de lá, seguiria para Santiago e para o deserto do Atacama. Logo que surgiram os primeiros casos de coronavírus no Brasil, a angústia começou. Cogitei não ir para São Paulo, porque o maior número de infectados no Brasil estava lá, mas dias depois o Chile fechou as fronteiras.

O sonho virou pesadelo. Consegui cancelar as hospedagens sem taxas, mas ainda tinha cinco voos comprados. Tive a opção de remarcar quatro passagens. O bilhete para São Paulo não foi cancelado e não havia opção de remarcação sem taxa, mesmo com a pandemia. Eu deveria estar viajando, mas estou em casa, entediada e angustiada." (Fabiana Mendes, Cuiabá/MT)

"Sou portador de esclerose múltipla há 18 anos. Enfrento a patologia com o uso de imunomodulador, ansiolíticos, antidepressivos e remédios para controle espasmos e tremores. Também sou diabético há 12 anos, dependo de insulina e sou hipertenso.

Há 40 dias, eu tinha uma avaliação médica em Aracaju (SE). Há esse mesmo tempo, estou em quarentena. Tinha reserva de hotel e consultas agendadas entre os dias 2 e 6 de abril, não era uma viagem de turismo, era uma decisão de vida. E agora? Terei tempo? Quanto tempo?" (João Carlos de Freitas, Tucano/BA)

"Há um ano, comecei a planejar uma viagem com a minha esposa para Cancún (México). Compramos passagens promocionais para maio. No começo de março, reservamos o hotel. Toda essa onda de coronavírus ainda era prematura, mas não demorou muito para começar o transtorno por causa da pandemia. Vi que a companhia aérea havia cancelado os voos para o México.

A cada dia se tornava mais evidente que seria impossível viajar, resolvemos cancelar a passagem e solicitar o reembolso, porque não sei quando serão as minhas férias em 2021. Então, fui surpreendido pela empresa que, dada a tarifa escolhida, não oferecia reembolso. Teríamos um prejuízo de R$ 3.500.

Convertemos a reserva do hotel em créditos e compramos um pacote promocional para a Grécia. A viagem ficará para o ano que vem, e prevejo uma briga para receber o valor da passagem. Não posso conceber que a empresa aérea, dada esta situação, se aposse dos valores pagos pelos clientes." (Herman Pedroso, Passos/MG)

"Minha namorada e eu planejávamos uma viagem para Nova York há anos, salvando restaurantes, experiências, parques, cenas de filmes. Compramos as passagens no início de janeiro, para embarcar em abril. Ficamos os meses seguintes mergulhados em coisas a fazer e visitar. Decidimos também conhecer o Canadá e compramos passagens para Toronto e Montréal. Escolhemos peças da Broadway e reservamos os hotéis.

Na primeira semana de março, por causa das notícias da Covid-19 se espalhando pelo mundo, começamos a considerar a chance da viagem não acontecer. Esperamos por um milagre até o final de março, quando começamos a cancelar as reservas. Ficamos muito chateados pelo cancelamento, mas somos gratos por termos conseguido reembolso para a maioria das compras. Teremos outras oportunidades de viajar. Estamos acompanhando as notícias, sonhando com o dia de poder marcar a viagem novamente." (Gabriel Luz, Florianópolis/SC)

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