Após pandemia, viagens terão novos protocolos de limpeza e menos contato

Batalha contra germes vai exigir novas práticas em aeroportos, cruzeiros e hotéis

The New York Times

A pandemia de Covid-19 já transformou a forma como pensamos o turismo, e tudo indica que as mudanças vieram para ficar.

“A pandemia vai desaparecer, com efeitos colaterais, muitos dos quais serão psicológicos”, disse Frank Farley, professor de psicologia da Universidade Temple.

Mas o desejo de viajar não desaparecerá. Em uma pesquisa recente da Skift Research, divisão de pesquisa de mercado da publicação setorial Skift, um terço dos americanos expressou a esperança de viajar nos três meses posteriores ao fim da quarentena.

Para tentar descobrir qual será o futuro das viagens, foram ouvidos dezenas de especialistas, de acadêmicos a organizadores de excursões. Veja abaixo o que eles pensam.

Como vai ficar o embarque nos aeroportos?

O Aeroporto Internacional Luis Muñoz Marin, em Porto Rico, pode servir de exemplo para entender como será a fiscalização e o check-in do passageiro.

Câmeras térmicas estudam os viajantes na chegada e acionam um alarme quando temperaturas de 38 graus ou mais são registradas. Os passageiros febris são retidos para avaliação.

O tamanho dos empreendimentos também deve mudar. Nos últimos anos, aeroportos têm se expandido para satisfazer turistas que precisam passar longas horas no local. Essa tendência continua.

“O espaço lhes oferece a capacidade de lidar com a pandemia de uma nova maneira. Você não fica apertado dentro da instalação”, diz Ty Osbaugh, arquiteto do escritório de projeto Gensler, que projetou terminais no Aeroporto Internacional Kennedy, em Nova York.

O espaço será vital para garantir que os passageiros não formem filas compactas para a passagem pela segurança. Dados de localização no celular podem acionar um aviso sobre a chegada de um passageiro ao aeroporto. Isso pode permitir que ele seja verificado já ao desembarcar do veículo e, em seguida, encaminhado a um túnel no qual os passageiros continuarão se movimentando, enquanto são examinados pelas autoridades de saúde e segurança.

Robôs podem ser encarregados de carregar a bagagem de mão, o que eliminará a disputa pelo espaço no bagageiro acima do assento.

Os passageiros voltarão ao mar?

Poucos segmentos do setor sofreram um abalo maior do que o dos navios de cruzeiro, que agora estão praticamente todos parados em função de ordens de restrição de navegação.

Os analistas acreditam que grandes empresas como a Carnival e a Royal Caribbean Cruises tenham a resistência financeira necessária a esperar pela recuperação em 2021. Mas tarifas com descontos e regras flexíveis de cancelamento só reconfortarão os futuros passageiros até certo ponto.

“O verdadeiro desafio será reduzir a percepção de risco, e isso exigirá mudanças nas práticas operacionais”, afirmou Robert Kwortnik, professor associado na escola de hotelaria da Universidade Cornell.

Entre as novas práticas que devem surgir, ele mencionou exames de saúde e planos de contingência para quando infecções ocorrerem. A Genting Cruise Lines, uma companhia de Hong Kong que controla a Crystal Cruises e diversas outras linhas de cruzeiro, já adotou novos padrões, entre os quais a proibição a bufês de alimentação self-service e a verificação de temperatura no embarque e no desembarque de passageiros.

Para Ross Klein, sociólogo da Universidade Memorial da Terra Nova, no Canadá, e especialista no setor de cruzeiros, os navios podem começar a ser usados de outra forma: estacionados, em vez de viajarem de porto a porto. “Se houver doenças a bordo, a pessoa poderá desembarcar e voltar de avião para casa”, ele disse, sobre esse modelo, que transformaria os navios em hotéis.

Qual será o primeiro lugar a que os passageiros retornarão?

“As pessoas estão a fim de viajar, mas de uma forma que esteja sob seu controle”, disse Tori Barnes, vice-presidente executiva de assuntos públicos e políticas públicas na Associação de Viagens dos Estados Unidos.

Por isso, o esperado é que aconteça um boom de viagens rodoviárias —e de agências e companhias de viagens que tentarão se beneficiar disso.

O Visit California, o serviço turístico do estado americano, está planejando uma campanha encorajando os cidadãos a pegarem seus carros e apoiarem os destinos turísticos locais. “As viagens rodoviárias podem ajudar a economia do estado a pegar no tranco”, disse Caroline Beteta, presidente da Visit California. Já as viagens internacionais demorarão muito mais a se recuperar.

Os países vão reabrir em momentos diferentes, e esse calendário alternado de reaberturas pode confundir os viajantes. Obter permissão para visitar um país provavelmente será um processo mais trabalhoso, exigirá mais documentação e forçará as pessoas a se submeterem a exames de saúde.

O distanciamento social vai acabar com a locação temporária de imóveis?

O futuro do segmento de locação de imóveis para férias depende, entre outros fatores, dos protocolos de limpeza das acomodações e das regras de cancelamento.

Enquanto hotéis adotaram regras de cancelamento generosas na pandemia, as plataformas de locação temporária de acomodações adotaram abordagens variadas. Antes, elas permitiam que os anfitriões determinassem as regras. O Airbnb passou por cima desse critério, oferecendo reembolso pleno aos viajantes que tinham sido penalizados. O VRBO, seu principal concorrente, ficou do lado dos anfitriões, ainda que tivesse encorajado reembolsos ou futuros créditos.

O Airbnb em breve passarão também recomendou novas práticas de limpeza, entre as quais um período mínimo de espera de 24 horas entre reservas. Uma nova categoria de ofertas indicará que nenhum hóspede ocupou o imóvel nas 72 horas anteriores à chegada do novo ocupante.

Além da higiene, as empresas de locação temporária estão defendendo a privacidade. “As viagens serão menos urbanas”, disse Brian Chesky, presidente-executivo do Airbnb, apontando que o segmento de mais rápido crescimento em seu serviço envolve hóspedes que viajam a locais a menos de 80 quilômetros de suas casas.

Enquanto isso, as ofertas de imóveis estão crescendo, porque as pessoas estão em busca de renda adicional. “Nos próximos seis meses, antecipamos que a oferta cresça, e a procura não vai acompanha-la”, disse Scott Shatford, presidente-executivo da AirDNA, empresa de mensuração das atividades mundiais de locação para férias. “Veremos preços mais baixos e descontos maiores em locações mensais.”

Limpeza será vista como um novo critério de conforto?

Quando as restrições a viagens forem suspensas e os hotéis reabrirem, os viajantes podem estar certos de que o trabalho de limpeza e conservação terá posição central nos hotéis.

Os especialistas preveem que o check-in será realizado sem necessidade de contato físico e que precauções de higiene que vão além da cobertura em papel para o assento do vaso sanitário serão dotadas.

“Transparência e indicações tangíveis confortarão mais os consumidores”, disse Donna Quadri-Felitti, diretora da escola de administração de hotelaria da Universidade Estadual da Pensilvânia, acrescentando que os registros sobre limpeza de acomodações podem se tornar públicos. “A limpeza robotizada ainda é novidade, mas já estamos ouvindo muita discussão sobre automação”.

Enquanto no passado os saguões de hotel buscavam criar uma sensação de aconchego, agora devemos esperar uma cena reluzente mas fria, com faxineiros circulando frequentemente pela área, armados de desinfetantes. Canetas e outros pequenos objetos que podem ser tocados por outros hóspedes serão substituídos por lenços de papel. A maioria das empresas de hotelaria já está testando sistemas eletrostáticos de desinfecção de interiores e luzes ultravioleta para sanitizar as chaves dos quartos.

A hospitalidade não terá face humana e encorajará o distanciamento social. A rede Marriott planeja oferecer serviço de quarto sem contato físico, por meio de seu app para celulares. Os quartos da cadeia Hilton terão um lacre na porta, para indicar que ninguém entrou neles desde a última limpeza.

O que vai acontecer com os programas de milhas?

As companhias de viagens estão trabalhando duro para manter satisfeitos os membros de seus programas de fidelidade.

“Estão prorrogando os benefícios de passageiros frequentes e suspendendo o prazo de vencimento da milhagem acumulada”, disse Gary Leff, fundador do View from the Wing, um blog sobre os programas de lealdade das companhias de aviação. “Nenhuma companhia quer se indispor com os clientes agora.”

Nas últimas semanas, muitas empresas, entre as quais Marriott, United Airlines, American Airlines e Hilton, facilitaram a qualificação de clientes para seus programas de elite.

Para Leff, devem aumentar o número de ofertas dirigidas aos passageiros frequentes, que incluirão passagens por menos milhas e facilidade nos upgrades.

Os bons negócios não durarão para sempre, no entanto. À medida que as promoções que encorajam viagens começarem a se acumular, os hotéis e resorts começarão a lotar.

Para os viajantes que tenham pontos de sobra em seus programas de fidelidade, é melhor usá-los assim que possível, segundo os especialistas.

“Se você tem milhas, usá-las para viajar permitirá que economize dinheiro”, disse Brian Kelly, fundador do The Points Guy, um site dedicado a programas de fidelidade.

A onda ecológica acabou?

Será que a saúde do planeta continuará a ser tão urgente para passageiros concentrados em preservar sua saúde pessoal? Em um mundo avesso a germes, será que os plásticos descartáveis retornarão?

“O trabalho para redução do uso de plástico perderá prioridade diante de uma busca maior pela proteção da saúde”, disse Megan Epler Wood, diretora executiva do Programa de Gestão de Ativos de Turismo Sustentáveis da Universidade Cornell. “Mas existem muitos motivos para esperança.”

Wood aponta para esforços de organizações e destinos e turísticos para planejar um retorno das viagens de uma forma que resolva o problema do turismo em massa.

O distanciamento social pode servir para reduzir naturalmente o número de visitantes, e as medidas de isolamento adotadas em todo o mundo devem reduzir as emissões mundiais de carbono em 8% no ano de 2020.

Mas, embora a redução no tráfego possa fazer bem a muitos lugares, em outros os turistas fazem muita falta. Em partes da África, por exemplo, a receita dos safáris e dos ingressos para os parques nacionais banca os esforços de conservação. Sem essas fontes de renda, a caça clandestina está em alta na África do Sul e em Botsuana.

“Esses lugares têm uma economia baseada no turismo de experiência, que ajuda a bancar a proteção à natureza”, disse Gregory Miller, diretor executivo do Centro pelas Viagens Responsáveis. “Precisamos restaurar as economias cuja base é o turismo de experiência, e não o extrativismo. De outra forma, teremos caça clandestina, desflorestamento e exploração indevida de recursos.”

Um possível aspecto positivo da pandemia é a conscientização sobre como os gastos locais ajudam as comunidades.

“Estamos todos nos acostumando à ideia de ajudar as pequenas empresas a sobreviver à Covid-19”, disse Jonathon Day, professor associado da Universidade Purdue cujas pesquisas têm por foco o turismo sustentável. “Se levarmos isso conosco ao futuro, será algo que teremos aprendido dessa experiência”.

Os viajantes vão querer participar de excursões?

A facilidade logística das viagens em grupo vem com um lado negativo: viajar em companhia de desconhecidos.

Uma solução seria a organização de grupos menores, segundo Jennifer Tombaugh, presidente da Tauck, uma companhia que organiza excursões e cruzeiros de luxo. Depois de passarem meses trancafiados, os participantes de excursões devem gravitar para experiências de bem-estar.

“Se 2020 for mesmo um ano no qual passamos muito tempo dentro de casa, 2021 será um ano de viver ao ar livre e ser ativo, com excursões centradas em torno de atividades como o ciclismo, trilhas e meditação”, disse James Thornton, presidente-executivo da Intrepid Travel, que opera excursões em todos os continentes.

Exatamente quando e para onde as excursões serão retomadas dependerá de diversos fatores, entre os quais as orientações de viagem das autoridades e a confiança dos consumidores.

Tradução de Paulo Migliacci

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