Descrição de chapéu Financial Times

Países decidem isolar visitantes, mas não há acordo sobre como fazer isso

Diferença entre o tipo de isolamento adotado em cada nação começa a preocupar empresas do turismo

Financial Times

Quando Hope Ailsa chegou ao luxuoso hotel InterContinental Sydney para 14 dias de quarentena por causa do coronavírus, ela logo descobriu que não podia definir o que estava acontecendo como férias.

“Não éramos autorizados a deixar nossos quartos”, diz Ailsa, capitã de um grande iate, que voltou das Filipinas ao seu país em abril, depois de a Austrália adotar algumas das primeiras e mais severas regras de quarentena da pandemia.

“A janela não abria e não havia ar fresco. Dois seguranças foram posicionados em cada andar e, se você abria a porta do quarto, eles ficavam encarando e ordenavam que a fechasse”.

“Chorei muito”, diz, explicando que fuma e passou por sintomas severos por conta da abstinência forçada, até que o hotel forneceu adesivos de nicotina. Para suportar sua estadia, ela começou a correr dentro do quarto, cobrindo cerca de um quilômetro por dia. Também jogava boliche com rolos de papel higiênico.

A experiência de Ailsa a convenceu de que duas semanas de cativeiro, mesmo em um hotel de cinco estrelas com vista para a Opera House, podem afetar a saúde mental. Mas ela continua a acreditar que confinar pessoas, mesmo que aparentemente estejam saudáveis, é necessário. Ficar livre para viajar e espalhar o contágio seria injusto, afirma.

O apoio de Ailsa a uma prática que data pelo menos da Idade Média conta com ampla adesão. Mais de 140 países e territórios adotaram medidas de quarentena, de janeiro para cá, de acordo com dados compilados pelo grupo de serviços médicos e de segurança International SOS, um número que os especialistas dizem não ter precedentes.

Espaço grande e aberto com quatro fileiras de camas; um homem está levantando uma das camas
Funcionário arruma cama em complexo de eventos de Agartala, na Índia, usado para quarentena durante 'lockdown' no país - Papri Bhattacharjee/AFP

Sem muito debate evidente e sem consultas, ou mesmo acordo entre os cientistas quanto ao momento em que a quarentena deve ser aplicada, governos de todo o mundo decidiram que isolar as pessoas chegadas de outros países é uma resposta essencial ao coronavírus —e, em alguns casos, as medidas devem continuar em vigor por período considerável.

“Estamos testemunhando um momento histórico”, diz Eugenia Tognotti, professora de história da medicina na Universidade de Sassari, Itália. “Jamais houve outro momento em que tamanha porcentagem da população mundial tenha enfrentado quarentena”.

Para alguns especialistas em saúde pública, a velocidade com que os países adotaram medidas de restrição ao movimento de pessoas, a fim de conter o vírus, foi causa de alívio.

“Fiquei agradavelmente surpreso”, disse o médico Rodrigo Rodriguez Fernandez, diretor de medicina da International SOS. Ele afirmou que é difícil colocar em vigor políticas nacionais de saúde, de modo que a rápida difusão das medidas de quarentena “foi realmente revigorante”.

Mas esse novo mundo de confinamento também causou problemas. Organizações de defesa dos direitos humanos afirmam que alguns governos usaram a quarentena como pretexto para realizar detenções arbitrárias ou intensificar ações militares.

Em outros lugares, as regras foram adotadas de forma tão desordenada que surgiu uma mistura confusa de normas de viagem, o que começa a alarmar as empresas de transporte e de turismo.

As autoridades estão em geral aplicando um período de 14 dias de quarentena para viajantes, um prazo que os pesquisadores consideram seguro no caso de um vírus cujo período médio de incubação é de cinco dias. Mas as regras não são uniformes.

Em Mianmar, a quarentena significa confinamento por até 21 dias para os recém-chegados. A Samoa requer 14 dias de isolamento antes do embarque para o país e mais 14 ao chegar. Alguns países colocam as pessoas em hotéis. Outros permitem que vão para casa. Alguns requerem um exame de Covid-19 antes do embarque; outros, assim que a pessoa chegar.

Problemas de coordenação

Para o setor de viagens e turismo, que segundo estimativas responde por 10% dos postos de trabalho no planeta, esse emaranhado de medidas é um lembrete preocupante do que aconteceu depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, quando países adotaram conjuntos distintos de medidas de segurança nos aeroportos, muitas das quais perduraram até este ano.

A falta de alinhamento depois do 11 de setembro é um dos motivos para que o setor tenha demorado cinco anos a se recuperar, diz Gloria Guevara, presidente-executiva do Conselho Mundial de Viagens & Turismo. “Temos de aprender com o passado”, disse em uma conferência do Financial Times no mês passado, acrescentando que o setor só precisou de 18 meses para retomar o prumo depois da crise financeira de 2008, quando a coordenação entre os países foi melhor.

No entanto, mais de quatro meses depois da adoção das primeiras medidas de quarentena referentes ao coronavírus na China, o país de origem do surto, a coordenação vem sendo lenta, internacionalmente e mesmo dentro dos países. Nos Estados Unidos, o governo do Texas começou a relaxar suas regras de quarentena com duração de 14 dias para os visitantes de fora do estado já em abril, mas restrições semelhantes continuavam em vigor na semana passada em lugares como o Alasca.

A disparidade é especialmente aguda na Europa, na qual países como Itália, Espanha e Grécia estão planejando abrandar suas regras de quarentena, com a aproximação do verão —no exato momento em que o Reino Unido, uma das maiores economias da região, está introduzindo medidas desse tipo.

O Reino Unido contrariou as tendências internacionais ao longo do período da pandemia, por não impor regras de quarentena, exames nos aeroportos ou controles de fronteira mais duros, como fizeram outras nações. Para fúria das companhias de aviação e hotéis britânicos, o governo agora decidiu que a partir de 8 de junho as pessoas chegadas do exterior terão de se autoconfinar por 14 dias, sob pena de uma multa de mil libras.

Haverá isenções para motoristas de caminhões, médicos e outras categorias. Mas a medida “é a última coisa que o setor de viagens precisa”, de acordo com uma carta ao governo assinada por mais de 200 empresas de viagens e hospitalidade. A medida “impraticável” dissuadiria visitantes estrangeiros de ir ao país e provavelmente resultaria em requisitos recíprocos de quarentena para os viajantes britânicos, as empresas afirmam.

O primeiro-ministro Boris Johnson afirmou que o governo não adotou medidas de quarentena mais cedo porque “a orientação dos cientistas deixou claro que não fariam diferença” para a chegada da epidemia. As medidas foram adotadas agora que o nível de contágio está caindo porque as autoridades não queriam ver uma nova onda de infecções originada do exterior, ele disse.

Um cientista que participou do grupo de consultoria de emergência do governo britânico (Sage, na sigla em inglês) disse ao Financial Times em abril que a quarentena teria sido economicamente desastrosa para um país ilhéu que é abastecido por milhares de caminhões vindos do continente europeu a cada dia.

Não é a primeira vez que o Reino Unido age de forma diferente quanto a esse tipo de questão.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) foi criada em 1948, depois de uma série de “conferências internacionais sobre saúde” realizadas no século 19. O tema dessas discussões era chegar a um acordo sobre procedimentos de quarentena a fim de deter a difusão de doenças como a cólera, sem perturbar indevidamente o comércio internacional.

Na primeira dessas conferências, organizada pela França em 1851, “as nações marítimas, especialmente o Reino Unido, queriam minimizar quaisquer regulamentações de saúde que pudessem interferir com o livre fluxo do comércio”, diz um estudo realizado por Charles Clift, pesquisador sênior da Chatham House, um instituto de pesquisa que estudou a história das organizações de saúde internacionais.

O editor de uma publicação médica alemã apontou mais tarde para a “surpreendente concordância entre os interesses comerciais da Inglaterra e suas convicções científicas”, o estudo de Clift acrescenta.

Custo econômico

A luta para preservar a saúde financeira e a saúde pública ao mesmo tempo continua desde então, especialmente no que tange à atual pandemia.

A OMS há muito encara com cautela a ideia de restringir o movimento de pessoas e bens em caso de uma emergência de saúde pública, em parte por afirmar que essas restrições muitas vezes não são efetivas e podem ter efeitos econômicos negativos.

Perguntado na semana passada se esse continuava a ser o caso, um porta-voz apontou para orientações escritas da OMS, segundo as quais medidas referentes a viagens que interfiram seriamente com o tráfego internacional por mais de 24 horas “podem ser justificáveis do ponto de vista da saúde pública, no começo da fase de contenção de um surto”, porque elas dão aos países tempo para se prepararem.

“No entanto, essas restrições precisam ser curtas, proporcionais aos riscos de saúde pública, e têm de passar por reconsideração periódica à medida que a situação evolui”.

Assim, por que tantos países ignoraram essa orientação? Uma possível resposta: o pânico. A Covid-19 se espalhou em velocidade muito maior do que a maioria dos países esperava. Ver hospitais superlotados em países desenvolvidos como a Itália pode ter abalado os governos e os levado a agir.

Em muitos países, o público recebeu as medidas positivamente. A quarentena foi parte de um pacote de restrições de viagem vistas como responsáveis por manter baixo o número de mortes em países como a Nova Zelândia e a Austrália, que até o momento da redação deste texto tinham registrado, somadas, um total de menos de 130 mortes causadas pela Covid-19.

Em dado momento, mais de dois terços dos casos confirmados de Covid-19 na Austrália envolviam pessoas que estavam voltando de viagens, de acordo com Brendan Murphy, o diretor dos serviços médicos nacionais. Mais de 33,8 mil pessoas passaram por quarentena no país desde que as fronteiras nacionais e estaduais começaram a ser fechadas, em março, a maioria das quais hospedadas em hotéis e com contas pagas pelo governo.

As coisas nem sempre funcionaram bem. Em Perth, um homem foi preso depois de escapar repetidas vezes do quarto de hotel no qual estava em quarentena. Na mesma cidade, um homem de 70 anos terminou na unidade de terapia intensiva depois de adoecer quando estava de quarentena em um hotel; os pedidos de ajuda médica de sua mulher foram inicialmente ignorados.

Na Nova Zelândia, parentes angustiados recorreram à Justiça para derrubar regras de quarentena que os impediam de se despedir de membros de sua família que estavam perto de morrer de Covid-19.

Mas o sucesso dos países em conter o vírus demonstra que medidas como a quarentena funcionam, diz o médico Bharat Pankhania, professor sênior de medicina clínica na escola de medicina e saúde pública da Universidade de Exeter, no Reino Unido.

A grande população e o número mais alto de chegadas ao Reino Unido tornam a quarentena mais difícil, mas não impossível, disse Pankhania. “Porque isso era visto como uma tarefa difícil, e as pessoas diziam que não havia como fazê-la. Mas tudo é possível se você quer que seja”.

Uma era de bolhas de viagem?

Alguns países começaram a relaxar suas medidas de quarentena, mas, para as companhias de aviação, que enfrentam séria crise financeira, as normas foram alvo de objeção desde o início da pandemia.

“Estamos preocupados sobre o desenvolvimento de medidas de quarentena como essas, porque representam sério desestímulo às viagens aéreas”, diz Alexandre de Juniac, diretor geral da Iata (Associação Internacional de Transporte Aéreo).

Em lugar de quarentenas, as companhias de aviação pressionam por padrões internacionais compartilhados sobre como administrar viagens, entre os quais verificações de temperatura nos aeroportos, uso de máscaras em trânsito, distanciamento social onde possível nos aeroportos, e limpeza mais frequente de equipamentos.

O setor de viagens também está defendendo a ideia de “pontes áreas”, “bolhas” ou “corredores” livres de quarentena, entre países cujos índices de contágio sejam baixos. A Austrália e a Nova Zelândia concordaram em estabelecer uma “bolha de viagem trans-Tasmânia”, enquanto países como Israel, Grécia e Chipre discutiram a criação de uma zona de turismo seguro no leste do Mediterrâneo.

John Holland-Kaye, presidente-executivo do aeroporto de Heathrow, em Londres, onde o número médio de passageiros caiu de 250 mil ao dia para apenas 6.000, diz que existem outros fatores a considerar.

“Não existe uma forma perfeita, no momento, de dizer que uma pessoa tem a doença e outra não, mas é possível dizer que um determinado país apresenta baixo risco, e portanto deveríamos aceitar passageiros vindos de lá. E, reciprocamente, esse país aceitará passageiros vindos daqui se formos vistos como um país de baixo risco”, disse.

“Parece a abordagem certa, de preferência a uma quarentena padrão de 14 dias para qualquer passageiro que chegue, porque isso levará as pessoas a desistir de voar e prejudicará a economia”, afirmou.

Heathrow está trabalhando com outros 10 aeroportos de alto movimento em todo o mundo, incluindo os de Hong Kong, Sydney e San Francisco, para tentar estabelecer internacionalmente um conjunto padrão de medidas de saúde, como maneira de acelerar a adoção da ideia de “pontes aéreas”. No entanto, essa é uma decisão que em última análise cabe aos governos.

Enquanto isso, qualquer pessoa que espere ver um fim rápido da quarentena não pode ignorar o país em que o surto do coronavírus começou: a China.

Já faz mais de quatro meses desde que Wuhan, a cidade em que o vírus foi detectado inicialmente, foi colocada em isolamento. A quarentena em massa posteriormente se estendeu a toda a província de Hubei, que abriga 60 milhões de pessoas. Medidas foram adotadas posteriormente para proteger Pequim de exposição ao vírus, o que manteve o total de infecções na capital chinesa em cerca de 500.

Embora a chegada de estrangeiros à China tenha se reduzido fortemente, os viajantes internos se viram submetidos a medidas de quarentena severas mas díspares.

Quando Wuhan reabriu as portas aos viajantes, em 8 de abril, os que planejavam viajar a Pequim encontraram mais dificuldades do que imaginavam, na jornada. Ao chegar, eram recebidos por funcionários do governo da capital usando trajes de proteção completos, e conduzidos de ônibus da estação de trem para suas casas ou para uma instalação governamental.

Alguns distritos permitiram que as pessoas fizessem quarentena em casa, com relativamente poucas restrições; em alguns casos, bastava um bilhete com a promessa de que a pessoa não sairia. Em outros, as autoridades selaram as portas das casas das pessoas e instalaram sensores nas portas que alertariam as autoridades caso elas fossem abertas.

Algumas áreas de Pequim recusaram a entrada de viajantes de retorno de Wuhan, os proibiram de ir para suas casas e os forçaram a proceder imediatamente para uma instalação pública de confinamento para seus 14 dias de quarentena.

Os regulamentos em Pequim foram relaxados nas últimas semanas. No entanto, no norte da China, onde um recente pico de novos casos foi detectado, cidades grandes como Harbin, na província de Heilongjiang, estão em lockdown, com medidas de quarentena em vigor.

Mesmo no país que primeiro experimentou a Covid-19 e tomou algumas das medidas mais radicais para derrotar a doença, a vida ainda não voltou totalmente ao normal.

Dada a falta de perspectivas claras sobre uma vacina ou cura comprovada, esse pode continuar a ser o caso em todo o mundo, ainda por um bom tempo.

Como as regras de quarentena variam ao redor do planeta

Reino Unido A partir de 8 de junho, moradores e visitantes terão de passar 14 dias autoconfinados, ou serão multados em mil libras. As pessoas também terão de fornecer informações de contato, e serão multadas em 100 libras caso se recusem

Hong Kong Na chegada, passageiros sem sintomas passam por exame de Covid-19 e aguardam os resultados. As pessoas cujos exames tenham sido negativos podem sair do aeroporto mas precisam passar 14 dias de quarentena compulsória em casa, verificando sua temperatura duas vezes por dia e registrando sua condição de saúde

Áustria Os não cidadãos que cheguem ao país por terra, de países vizinhos, precisam apresentar um atestado médico, emitido no máximo quatro dias antes, que confirme que foram testados em busca do vírus e não são portadores. Os cidadãos de retorno precisam passar por 14 dias de quarentena em casa e, caso apresentem resultado negativo em um exame de coronavírus realizado no período, podem solicitar um fim antecipado do confinamento

Indonésia As pessoas recém-chegadas precisam apresentar um atestado médico que comprove que não são portadoras do coronavírus, emitido no máximo sete dias antes do desembarque. Quem chegar sem atestado terá de passar por exames e quarentena, bancando as próprias despesas até que os resultados cheguem, o que pode demorar sete dias

Irlanda Pessoas vindas do exterior, o que inclui cidadãos irlandeses de retorno, devem ficar confinados em espaços fechados e evitar contato com outras pessoas por sete dias

Tradução de Paulo Migliacci

Pilita Clark , Tanya Powley , Jamie Smyth e Don Weinland

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.