Descrição de chapéu Coronavírus

Empresas de ônibus reduzem poltronas e reforçam limpeza

Cerca de 70% das linhas já estão em operação, mas procura ainda é baixa em comparação com período pré-pandemia

São Paulo

Quem precisa viajar de ônibus durante a pandemia encontra hoje um transporte rodoviário diferente.

Assim como a aviação, o setor se adaptou para passar mais segurança aos passageiros, que aos poucos voltam a embarcar —mesmo com a recomendação de autoridades de saúde para não se deslocar.

Segundo Letícia Pineschi, conselheira da Abrati (Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros), cerca de 70% das linhas de ônibus estão em operação, após meses de reduções impostas por leis municipais e estaduais, além da falta de demanda.

Isso não significa, porém, que as rodoviárias estão cheias. Segundo a Socicam, concessionária que administra os três terminais de São Paulo —Tietê, Barra Funda e Jabaquara—, a movimentação de passageiros na cidade está em 18% do que era antes da pandemia. As rodoviárias administradas pela empresa passam, desde maio, por duas desinfecções diárias.

Homem com macacão amarelo e máscara limpa balcão em rodoviária
Fuzileiro naval faz desinfecção do Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo, na última terça (7) - Bruno Rocha/Fotoarena/Agência O Globo

O Grupo JCA, que engloba as companhias Cometa, Catarinense e 1001, entre outras, realiza hoje 15% das viagens que costumava fazer antes, e a taxa de ocupação não passa da metade.

Para transmitir a sensação de segurança, as empresas investiram na digitalização das passagens, para evitar contato e aglomeração nos guichês, limpeza reforçada das cabines dos ônibus e troca mais frequente dos filtros do ar-condicionado. O uso de máscara é obrigatório durante a viagem.

A Buser, plataforma de fretamento colaborativo de ônibus, voltou a operar em 26 de junho depois de quase três meses parada e afirma que só está levando passageiros sentados nas poltronas da janela.

"A ocupação foi reduzida pela metade em alguns ônibus e em 30% em outros, o que é muito ruim financeiramente para nós, mas estamos preparados para suportar esse impacto", diz Marcelo Abritta, presidente da empresa.

Fabricantes também estão investindo em mais segurança sanitária nos veículos.

A Marcopolo desenvolveu uma cabine com dois corredores, em vez de um só, e poltronas mais separadas. "As pessoas ficam a mais de um metro de distância umas das outras", afirma Rodrigo Pikussa, diretor do segmento de ônibus da empresa no Brasil.

Segundo ele, o modelo promove distanciamento e é economicamente mais viável às operadoras, porque permite até 32 poltronas, enquanto um ônibus regular, com 50% de ocupação, leva só 23 pessoas. Novos veículos já devem sair de fábrica com as alterações, que também podem ser feitas nos que estão em uso.

Outros itens criados pela empresa foram recipientes para álcool em gel que podem ser fixados na entrada ou no banheiro do ônibus, um equipamento de desinfecção interna do veículo, cortinas para isolar passageiros e capas de poltronas —ambas feitas com tecido antibacteriano.

As novidades foram lançadas em 16 de junho e, nesse mês, 250 veículos foram adaptados, afirma Pikussa.

Ele acredita que as companhias que adotarem esse tipo de equipamento vão sair na frente depois da pandemia.

"A maior oportunidade de diferenciação para um operador de ônibus está no conforto e na biossegurança", diz.

O setor de viagens rodoviárias também está de olho em um cliente que há alguns anos trocou a rodoviária pelo aeroporto e que, aposta Pikussa, pode voltar ao ônibus.

"As companhias aéreas terão que recuperar perdas, e as tarifas vão aumentar, o que cria um cenário favorável para o transporte rodoviário."

Com a falência da Avianca, restam três companhias aéreas de grande porte no país, e a quantidade de cidades que são atendidas por voos não deve aumentar. Quem supre a demanda nos locais onde o avião não vai são os ônibus.

Pode haver uma migração de parte dos passageiros de ônibus para o transporte particular, com carros próprios ou alugados, para evitar aglomerações. Mas, para Piteschi, da Abrati, a parcela de pessoas que, em meio a uma crise, vai trocar o ônibus pelo carro não é significativa. "A maior parte da população está economicamente vulnerável", diz.

As empresas de ônibus também atendem agências de turismo, que fazem excursões, e organizadores de eventos. Esse setor ficou quase cem dias parado, mas agora começa a se recuperar, segundo Gustavo Rodrigues, diretor-presidente do Grupo JCA. "Organizadores de grupos estão começando a agendar viagens para setembro e outubro", diz.

Helena Araújo Costa, coordenadora do Laboratório de Estudos em Turismo e Sustentabilidade da UnB (Universidade de Brasília) alerta que para pensar em uma retomada segura das viagens de ônibus também é preciso levar em conta o tempo que o passageiro passa fora do veículo.

"Tem que pensar na infraestrutura dos terminais, que são lotados nos grandes centros. Como vamos ter distanciamento?", afirma. "E há ainda a questão da limpeza dos banheiros nas rodoviárias e nas paradas. É preciso olhar para toda a jornada do cliente."

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