Descrição de chapéu The New York Times

Barbados, Bermudas e Estônia oferecem visto para trabalhadores remotos

Países tentam recuperar turismo local com incentivo para que visitantes se mudem de forma temporária

Charu Suri
The New York Times

Quando Lamin Ngobeh, professor de segundo grau na Freire Charter School, em Wilmington, Delaware (EUA), viu uma mensagem na mídia social sobre trabalhar de Barbados, no mês passado, ficou interessado.

“Minha escola provavelmente não vai voltar a ter aulas presenciais até fevereiro de 2021, e quero ficar em um país seguro —em termos de saúde— e desfrutar da qualidade de vida”, ele disse, sobre os motivos para decidisse considerar a possibilidade de uma mudança temporária de endereço. “Eu contatei os dirigentes da minha escola, e eles apoiaram muito minha decisão”.

Ao anunciar o programa Welcome Stamp [selo de boas-vindas], na metade de julho, Barbados se tornou o primeiro de diversos países, em regiões que variam do Caribe à Europa Oriental, a criar programas para atrair trabalhadores remotos. Os programas recorrem a vistos especiais ou expandem os vistos existentes a fim de atrair trabalhadores interessados em mudar de ares temporariamente. Outros países que estão oferecendo vistas semelhantes no momento incluem Estônia, Geórgia e as Ilhas Bermudas.

A queda substancial do número de turistas recebidos por esses países é o principal motivo para os novos programas.

“O turismo é a corrente sanguínea do país”, disse Eusi Skeete, diretor de turismo de Barbados nos Estados Unidos. O turismo respondeu por 14% do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2019, de acordo com dados divulgados pelo banco central de Barbados, e houve um recorde de chegadas internacionais de mais de 712 mil visitantes. Mas em 2020, o número de visitantes nos meses de abril, maio e junho ficou perto de zero.

Praia com água azul e areia branca, com pessoas na água
Visitantes na praia de Carlisle Bay, em Barbados - Victor Gouvea/Folhapress

Skeete disse que o novo programa de vistos do país para pessoas que trabalham a distância ajudará com relação a esses números.

“Um período de 12 meses permitirá que os visitantes experimentem o país de maneira holística”, ele disse.

Mais de mil inscrições foram recebidas na primeira semana, de pessoas de todo o mundo, informam as autoridades de Barbados. A maioria delas veio dos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido.

A aplicação de Ngobeh foi aprovada. Ele planeja se mudar na metade deste mês.

Atendendo aos nômades digitais

Mesmo antes da pandemia, o número de trabalhadores remotos estava crescendo em todo o mundo. Pesquisas da consultoria MBO Partners constataram que o número de trabalhadores independentes nos Estados Unidos, uma categoria que inclui consultores, freelancers e trabalhadores temporários, chegava a 41 milhões de pessoas em 2019.

Mais de 7,3 milhões de trabalhadores nos Estados Unidos se descreveram como “nômades digitais”, em 2019: pessoas que optaram por adotar um estilo de vida que independe de localização e lhes permite viajar e trabalhar remotamente.

David Cassar, vice-presidente de operações da MBO Partners, diz que a influência internacional dos freelancers está crescendo consideravelmente.

“Nós esperamos que o interesse por se tornar um nômade digital venha a crescer, entre os trabalhadores autônomos, nos próximos anos. A Covid-19 acelerou a adoção generalizada do trabalho remoto, e os trabalhadores independentes serão os primeiros a tirar vantagem de um estilo de vida habilitado pela tecnologia e independente da localização”, ele disse.

Muitos trabalhadores se deixam atrair pelo estilo de vida nômade digital porque o custo de vida é mais baixo.

Maggie Turansky, que vem de Phoenix, no Arizona, atualmente vive na república da Geórgia. Ela dirige um site, The World Was Here First, com seu parceiro, e alugou um apartamento novinho em Tbilisi por cerca de US$ 500 ao mês. Eles viveram lá durante a pandemia.

“Não consigo pensar em uma grande cidade em um país ocidental que seja comparável”, ela disse. “As despesas de infraestrutura, além do aluguel, ficam em apenas US$ 50 (R$ 268) por mês, e o Wi-Fi é excelente. A Geórgia é um país atraente, e há muito para ver e fazer. Nós meio que nos apaixonamos por ela”.

Ngobeh aponta ter encontrado apartamentos decentes, com entre dois e quatro quartos, cujos aluguéis variam de US$ 500 (R$ 2.685) a US$ 1.500 (R$ 8.054) por mês.

Amanda Kolbye, também cidadã americana, no momento trabalha da Malásia como orientadora de negócios online. Ela curtiu viver e trabalhar no exterior nos últimos dois anos, e morou em seis países, entre os quais Tailândia, Vietnã, Indonésia, Qatar e Taiwan.

“Não planejo voltar aos Estados Unidos pelo futuro previsível”, disse Kolbye. “Estou estudando a possibilidade de tocar meu negócio de outro país, como a Estônia, ou de Barbados ou Bermudas, que permitiriam que eu estivesse mais perto de casa”.

Critérios para estadias prolongadas

Alguns dos critérios são semelhantes, para os visitantes que buscam estadias prolongadas.

Embora todos os países requeiram prova de que a a pessoa conta com plano de saúde e um exame que negue que ela é portadora do vírus (anterior à chegada, quando da chegada, ou ambos), alguns além disso ainda impõem uma taxa de inscrição e solicitam uma prova de que a pessoa recebe salário mensalmente, acompanhada por extratos bancários.

Para Barbados, os interessados no país como local para trabalho remoto precisam preencher um formulário disponível online e encaminhar fotos. Também precisam fornecer prova de emprego e uma declaração que comprove renda anual de pelo menos US$ 50 mil (R$ 268.460), durante o período em que estiverem na ilha. A taxa de inscrição de US$ 2.000 (R$ 10.738) pessoa só é cobrada depois da aprovação; famílias pagam US$ 3.000 (R$ 16.108) independentemente do número de integrantes.

Edward David Burt, o primeiro-ministro das Ilhas Bermudas, disse que o certificado não requer mudanças na lei (o país já concedia certificados de residência anteriormente), mas sim uma expansão de seus termos.

Construções coloridas à beira mar
Casas em Hamilton, capital das Ilhas Bermudas - Eric/Adobe stock

“Isso certamente vai ajudar nosso setor de turismo”, ele disse. “A pessoa pode acumular 52 estadias de uma semana ou fazer uma estadia de 52 semanas —o saldo é o mesmo: isso ajudará nossa economia”.

Em 2019, Bermudas reportou US$ 419 milhões (R$ 2,25 bilhões) em receita com lazer e turismo, e mais de 808 mil visitantes —o maior número na história do país. Não surpreende que a pandemia tenha causado queda severa nesses números. No primeiro trimestre de 2020, os gastos de turistas nas Ilhas Bermudas foram de US$ 19,8 milhões (R$ 106,3 milhões), ante US$ 32 milhões (R$ 171,8 milhões) no período no ano passado, e a chegada de visitantes de lazer por via aérea caiu em 44%.

“O número de turistas foi de praticamente zero, em abril, maio e junho”, disse Glenn Jones, presidente-executivo interino da Autoridade de Turismo de Bermudas. “Posso afirmar que dependemos das chegadas de turistas para sobreviver. Em julho, nossa capacidade de transporte aéreo —o número de lugares em voos comerciais destinados à ilha— foi de apenas 10% da registrada em julho de 2019. Em agosto, será de apenas 20%”.

Poucos dias depois de anunciar seu programa de certificados residenciais, as Ilhas Bermudas receberam 69 candidaturas, de todo o mundo.

Diferentemente de Barbados, as Bermudas não requerem renda mensal mínima para os trabalhadores remotos interessados em estadia prolongada.

O novo visto da Estônia para nômades digitais, que começou a vigorar em 1º de agosto e é uma extensão do programa eResidency, permitirá que visitantes permaneçam legalmente no país e trabalhem remotamente para seus empregadores por até 12 meses.

A taxa de inscrição é de US$ 125 (R$ 671), e os participantes precisam demonstrar que dispõem de um salário base de pelo menos US$ 4.150 (R$ 22.282) por mês. Mas os americanos precisarão ser pacientes, porque no momento não estão a autorizados a ingressar na Estônia, que segue as normas da União Europeia, para participar de seu programa de vistos para nômades digitais.

“Os países que você vê oferecendo vistos para trabalhadores remotos são todos pesadamente dependentes do turismo”, disse Ott Vatter, diretor executivo do programa eResidency na Estônia. “Embora a Estônia não seja tão dependente do turismo, as pessoas percebem seu potencial e a necessidade desse tipo de oferta. Depois da Covid, a necessidade cresceu”.

O turismo respondeu por cerca de 8% do PIB da Estônia em 2019, e o Ministério do Interior antecipa uma queda de pelo menos 50% da receita com turismo em 2020, ante 2019.

O programa da Geórgia, chamado “Remotely from Georgia”, permite que trabalhares permaneçam e trabalhem no país por até seis meses. Como Bermudas, a Geórgia no momento não requer que os candidatos demonstrem uma renda mensal mínima; mas os candidatos precisam provar que dispõem de recursos para bancar seu estilo de vida.

Diana Zhgenti, cônsul geral da Geórgia em Nova York, disse que embora não existam restrições financeiras para os trabalhadores remotos, o programa só está disponível para os cidadãos dos 95 países autorizados a entrar sem visto prévio na Geórgia. Os visitantes que queiram trabalhar lá em longo prazo terão de passar por 14 dias de quarentena ao chegar, com os custos bancados por eles.

A ideia pode não ser para todos

Neville Mehra, que vem de Washington, deixou seu último emprego em uma grande companhia em 2017 e desde então vem prestando serviços remotos de estratégia, por meio de sua empresa pessoal, a Nampora. Ele hoje vive e trabalha em Valência, na Espanha, mas já trabalhou em mais de 50 países, entre os quais a Geórgia, e planeja voltar lá agora que o novo programa “Remote from Georgia” está em vigor.

“Com o tempo, os freelancers nômades digitais começam a perguntar ponde há a melhor qualidade de vida, e não onde estão os trabalhos”, ele disse. “Não é questão de se mudar para um país e roubar o emprego de um morador local, mas de poder gastar mais localmente, na moeda nacional”.

Mas embora trabalhar remotamente possa ser atraente para quem pode fazê-lo de seu laptop com uma conexão de internet rápida, as coisas podem não ser tão fáceis para todos os profissionais.

Prédios antigos em morro arborizado, com torre de igreja
Vista do bairro medieval de Tallinn, a capital da Estônia - Boris Stroujko/Adobe Stock

Cassar aponta que viver e trabalhar remotamente em outro país pode ter riscos.

“Se estou viajando em outro país, mesmo como empregado de uma empresa, o seguro da companhia pode não me cobrir”, ele disse, “Se sou classificado como trabalhador autônomo nos EUA, essa classificação pode não ser reconhecida em outros países”.

O idioma também pode ser uma barreira. Ketevan Buadze, um dos fundadores do escritório de advocacia BSH, na Geórgia, que trabalha com imigrantes e trabalhadores remotos, disse que o país é muito amistoso com os estrangeiros, mas apontou que “embora mais jovens falem inglês, esse não é o caso das pessoas mais velhas”.

Os visitantes que tenham filhos podem enfrentar dificuldades adicionais. Famílias que planejem educar os filhos nascidos em outro país remotamente podem enfrentar dificuldades de fuso horário. Ou, se preferirem matricular seus filhos em escolas locais, podem enfrentar limitações. Bermudas e a Estônia restringem a matrícula de alunos estrangeiros em certas escolas.

“Famílias internacionais não têm acesso às escolas públicas, mas as escolas particulares estão abertas”, disse Burt, o primeiro-ministro das Ilhas Bermudas.

A Estônia oferece algumas opções de escolas para estudantes internacionais, entre as quais a Tallinn European School e a International School of Estonia (ambas pagas).

Mas em última análise, a decisão de se transferir a outro país pode depender primordialmente da segurança.

Sadie Millard, moradora de Nova York que está em Bermudas desde o começo da pandemia, disse que planeja pedir o visto para trabalhadores remotos, porque a corretora para a qual trabalha continua fechada.

“Aqui houve 100 casos [de Covid-19] no total”, ela disse. “E embora o custo de vida seja tão alto quanto o de Nova York, me sinto muito mais segura. O único ajuste que tive de fazer foi me acostumar a dirigir do lado oposto da rua”.

Tradução de Paulo Migliacci

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