Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Saiba como é visitar as grandes atrações de Nova York durante a pandemia

Moradores e turistas estão descobrindo um benefício inesperado da nova normalidade: sobra espaço

Tony Perrottet
Nova York | The Wall Street Journal

“Bem-vindo ao paraíso”, disse a segurança sorridente quando as portas do elevador se abriram no 102º andar do Empire State Building, recentemente reformado. Ou eu pelo menos achei que ela estivesse sorrindo —algo que tive de adivinhar pelos olhos, visíveis por sobre a máscara de segurança e sob o quepe preto onde se lia “observatório”, para determinar se a saudação era séria ou vinha carregada de ironia.

Afinal, a palavra “paraíso” raramente foi associada a Nova York, desde que Henry Hudson ancorou por aqui pela primeira vez em 1609, e certamente deixou de ser usada desde que a pandemia paralisou abruptamente a minha amada metrópole, seis meses atrás. Mas não: a segurança estava genuinamente feliz por poder compartilhar da minha empolgação, no momento em que cheguei à plataforma de observação, ao anoitecer.

Convidei para o passeio o nova-iorquino mais durão que conheço, Sam, meu filho de 15 anos, que morou a vida toda no East Village e raramente sai da parte central da cidade. E Sam se impressionou, ainda que a contragosto, quando os milhões de luzes douradas de Nova York começaram a se acender lá embaixo, em um panorama visível por 130 quilômetros. “Até Nova Jersey parece bonita”, ele elogiou, sarcasticamente.

Mas nós dois concordamos em que, embora as paredes de vidro que se estendem do piso ao teto no 102º andar sejam emocionantes, o maior destaque é o piso de observação original, no 86º andar, que visitamos a seguir. Seu perímetro de pedra agora está aberto ao vento, e oferece uma vista vertiginosa para as ruas 320 metros abaixo.

O que mais me espantou no 86º andar —algo que me fez parar para me beliscar e ter certeza de que não estava sonhando— foi o número pequeno de pessoas que estavam lá conosco. Um espaço que antes da Covid-19 costumava ser disputado a cotoveladas por turistas frenéticos estava virtualmente vazio, e pude curtir de verdade a visita.

Estamos todos em busca de motivos de esperança, em 2020, e em minha combalida cidade de Nova York, que não muito tempo atrás foi o epicentro mundial da pandemia, a transição para a Fase 4 agora nos oferece prazeres inesperados.

A reabertura das mais renomadas atrações da cidade, com horários de admissão escalonados e restrições de ocupação máxima de 25% da capacidade original, trouxe benefício colaterais inesperados, tanto para os residentes quanto para os intrépidos visitantes.

Lugares que viviam lotados agora parecem civilizados mesmo em seus horários de pico. Para quem ama a arte, a reabertura dos museus realiza uma fantasia; as regras de distanciamento social garantem espaço inédito para respirar.

O momento histórico único me inspirou a revisitar os “grandes sucessos” da cidade. Ao longo de diversos dias, reservei ingressos para o imensamente popular High Line, o MoMA e o Museu Whitney de Arte Americana, e cheguei a contemplar uma visita à Estátua da Liberdade.

Depois de viver em formas diferentes de lockdown, minha expectativa era a de ver os clássicos com um olhar renovado.

E a verdade é que a “nova normalidade” é um tanto agridoce. Passear à toa agora requer planejamento sério. Você precisa escolher janelas de tempo específicas para cada visita, se registrando com antecedência, o que faz da espontaneidade uma lembrança nostálgica e muitas vezes serve para criar ansiedade em uma cidade em que as pessoas estão perpetuamente atrasadas para tudo.

As máscaras onipresentes acrescentam uma nota de anonimato distópico. Ainda que os seguranças que encontrei tenham sido todos eficientes e polidos, fui submetido a exames de temperatura com instrumentos de alta tecnologia à porta de todos os lugares que visitei.

E acrescente a tudo isso os problemas tecnológicos aleatórios. Agora que os smartphones se tornaram uma ferramenta essencial do guerreiro cultural, tive de fazer um curso instantâneo sobre recursos básicos, por exemplo sistemas de pagamento, e sobre como aumentar a luminosidade da tela rapidamente para permitir a leitura de códigos de barra. (Se você sair de casa sem carregador, os planos mais bem preparados com certeza fracassarão.)

Mas o que se perde em espontaneidade pode ser retomado em forma de uma sensação de espaço irrestrito.

Havia uma certa lógica em escolher o Empire State Building como primeira parada do meu Grand Tour 2020. Quando o arranha-céu mais alto do planeta foi inaugurado, em 1931, nas profundezas da Grande Recessão, os engraçadinhos da época o apelidaram de “Empty Space Building” [edifício do espaço vazio].

Os proprietários não conseguiam alugar os escritórios do edifício. Hoje, para o bem ou para o mal, o nome volta a parecer apropriado. Sam e eu simplesmente passamos sem nem desacelerar o passo pelas barreiras criadas para direcionar o fluxo das multidões, atravessamos o novo museu e entramos no elevador, tudo isso sem ver praticamente pessoa alguma.

Encontrei uma solidão quase igualmente onírica no High Line, o parque construído sobre a estrutura de uma linha ferroviária elevada que, antes da pandemia, costumava viver tão lotado quanto uma estação de trens de Pequim, por conta de seu design estreito.

Agora, ele foi reaberto para um número limitado de visitantes e com circulação de mão única, do sul para o norte. Ainda mais estranho é que a vegetação cresceu e se espalhou por espaços que antes não ocupava, como se o High Line estivesse tentando voltar ao seu estado pré-reforma.

Depois de entrar no parque pelo Meatpacking District, passei por uma peça de arte arquitetônica de Sam Falls —quatro arcos de cerâmica estruturados com trilhos da velha ferrovia e incorporando plantas recolhidas no parque— e depois desci no distrito de arte de Chelsea, na Rua 23.

As galerias de arte particulares da área reabriram de maneira excêntrica. Em alguns casos, você precisa fazer reserva online se quer ser admitido; outras requerem reservas por telefone. Algumas poucas galerias não pareciam requerer reserva antecipada, desde que não estivessem recebendo número muito grande de visitantes.

Àquela altura eu estava pronto para encarar um museu de arte propriamente dito. O imenso Museu Metropolitano de Arte havia atraído filas longas, naturalmente, embora o movimento parecesse rápido.

Entrei em uma das filas para moradores locais (que pagam o quanto quiserem de ingresso), e depois entrei na fila do elevador para meu lugar favorito no museu, o jardim no topo. Valeu a espera.

O Met costuma atrair cerca de 25 mil visitantes por dia, em um domingo movimentado de setembro, disse Ken Weine, um dos gerentes de comunicação da instituição, mas agora está recebendo em média 5.500 visitantes por dia, em sua área de 180 mil metros quadrados.

Chegar ao topo demorou meia hora, mas o lado positivo é que não havia uma floresta de bastões de selfie me impedindo de ver “Lattice Detour”, de Héctor Zamora, uma parede curva emoldurada pelo panorama urbano e pelas árvores do Central Park.

O museu exsudava um ar de elegância antiquada, enquanto eu caminhava pelas galerias de arte grega. A exuberância era tangível no ar. “Jamais em minha vida profissional fui parte de uma experiência que envolveu tamanho júbilo e alegria”, disse Weine. “O espírito dos visitantes vem sendo excelente”.

É claro que alguns momentos de descompasso me trouxeram da tranquilidade de séculos passados de volta a 2020. Na esperança de fazer uma parada no charmoso café da ala americana do museu, descobri que o pátio de esculturas ensolarado abrigava apenas uma “estação de reidratação”, com água mineral Dasani à venda por US$ 3,50 (R$ 19,35) por garrafa.

“O que eles acham que estamos fazendo aqui, disputando uma maratona?”, pensei comigo mesmo. (A ideia é transformar o espaço em um local para compra de comida pelos visitantes, para consumo em casa ou nas ruas.)

Para testar o sistema de ingresso em horários escalonados, fui ao MoMA sozinho e sem reserva. As vagas para visitas ao museu estavam todas reservadas com semanas de antecedência, mas, chegando perto do horário de fechamento, descobri que não havia filas —e na verdade quase não havia visitantes. O atendente riu indulgentemente de minha desculpa de que havia “perdido meu ingresso” e me registrou na hora.

A experiência foi perturbadora. Apanhei-me sozinho em muitas das galerias, se desconsiderarmos os seguranças. E em alguns casos, era só eu, mesmo, diante, por exemplo, da “Noite Estrelada” de Van Gogh.

A sensação rara de privilégio por estar sozinho na companhia de obras-primas vinha acompanhada em alguns momentos por um toque melancolia.

Ao visitar o Whitney, no final da tarde seguinte, encontrei o museu também quase vazio. Admirei os quadros de Edward Hopper que mostram pessoas solitárias em espaços urbanos desolados, e depois caminhei pelo espaço que abriga o solitário e desolado café do museu até chegar ao desolado e solitário terraço.

Talvez os últimos seis meses vivendo em Nova York tenham me deixado em estado mental vulnerável, mas mesmo as obras de arte mais familiares exerceram um efeito mais poderoso sobre mim do que o habitual, me enchendo de emoções inesperadas.

Senti-me tão afetado pelos Picassos do MoMA quanto as pessoas devem ter se sentido ao ver os quadros pela primeira vez, em Paris na década de 1920. Será que minha admiração diante de uma imensa tela de Pollock era tão intensa quanto a que o quadro inspirou ao ser mostrado pela primeira vez, na década de 1950?

Mas talvez o mais comovente dos trabalhos que vi tenha sido uma descoberta acidental: um filme mudo que vi no MoMA, rodado em 1952, mostrando crianças brincando nas ruas do Spanish Harlem na década de 1950, famílias sentadas nas soleiras de suas portas, amigos trocando abraços e fofocas —um lembrete dos dias anteriores à Covid que me levou a deter repentinamente os meus passos.

No dia seguinte, voltei a caminhar sob o sol para encarar o maior clichê entre as atrações turísticas de Nova York: a Estátua da Liberdade. Mas decidi ser criativo.

Liberty Island oferece pouco a fazer além de caminhar em torno da base da estátua e desfrutar do museu. Prefiro ver a estátua no contexto do porto histórico da cidade, no passado o mais movimentado do planeta, e por isso apanhei a balsa para Governors Island, que está vendendo ingressos com hora marcada a US$ 3 (R$ 16,60), e fiz o percurso em companhia de um amigo para desfrutar de uma experiência completa da vida aquática da cidade.

O número reduzido de visitantes permitiu que em poucos minutos conseguíssemos banquetas no balcão do Island Oyster, um bar à beira-rio que permite observar o pôr-do-sol refletido pelos arranha-céus de paredes de vidro do distrito financeiro.

Depois, aluguei uma Citi Bike e percorri ciclovias silenciosas, onde encontrei uma misteriosa aglomeração de barracas de lona de luxo operadas por um grupo chamado Collective Retreats. Encontramos um ensolarado bar e restaurante abrigado na maior das barracas, e conseguimos uma mesa com vista para a Estátua da Liberdade.

Desse ponto de observação único, a estátua parecia tão imponente quanto o Colosso de Rodes. E admirá-la com uma taça de sauvignon blanc e “lobster rolls” parecia ser o modo mais apropriado de brindar a ressurreição da cidade. Essa descoberta acidental teve um gostinho bem forte de passado.

*

Cresce a oferta de lazer ao ar livre em grandes cidades americanas

Ao longo do verão da Covid-19, muitos moradores de grandes cidades americanas tiveram de optar pelas calçadas, ruas, varandas e parques como locais de reunião, para se acomodar às novas realidades.

Embora isso não seja novidade em Los Angeles ou Miami, onde é mais comum circular ao ar livre, as cidades mais ao norte nos Estados Unidos estão passando por uma explosão de novos restaurantes, bares e café ao ar livre, em muitos casos oferecendo também entretenimento.

Pessoas montando bolhas de plástico em mesas em calçada
Funcionários montam bolhas de plástico em volta de mesas de restaurante em calçada, em Nova York - Jeenah Moon/Reuters

A mudança mais extrema aconteceu em Nova York, onde as calçadas tradicionalmente sempre foram espaços apertados e disputados. O verão está se tornando outono, e as ruas agora evocam a Paris de antes da pandemia, com mesas e cadeiras espalhadas pelas antes sagradas vagas de estacionamento.

A arte de rua está descobrindo maneiras criativas de se adaptar. O NY Phil Bandwagon, com músicos da mais prestigiosa orquestra da cidade e convidados se apresentando na traseira de picapes, está oferecendo shows em todos os cinco distritos, nas próximas semanas, e até estreando algumas peças compostas exclusivamente para execução em caminhão (nyphil.org/bandwagon).

Outra proposta excêntrica é a do histórico cemitério Green Wood, em Brooklyn, que está organizando shows gratuitos em meio aos seus túmulos, com protocolos em vigor para respeitar o distanciamento social.

As apresentações, organizadas em parceria com a organização Death to Classical, levam o apropriado título “Um Lamento Para Tempos Difíceis”, e acontecerão entre 19 e 26 de setembro (green-wood.com). E a partir de 30 de setembro, o novo show “Voyeur: the Windows of Toulouse-Lautrec”, vai usar Greenwich Village como palco improvisado (unmakinglautrecplay.com).

Em Los Angeles, onde as restrições relacionadas à Covid são pelo menos tão severas quanto as de Nova York, o setor de entretenimento se provou igualmente adaptável. O Mint, um clube histórico que opera desde 1937, organizou as Sidewalk Sessions, shows de rua com música ao ar livre quase todas as noites, às 19h30 (themintla.com).

Como parte da nova série Concerts in Your Car, no Ventura County Fairgrounds, bandas como Fishbone e Ozomatli tocam ao vivo para audiências de até 700 veículos. Muitos fãs apertam as buzinas para aplaudir. O próximo show acontece dia 24 de setembro, com a Gordon Goodwin’s Little Phat Band (concertsinyourcar.com).

O cenário do entretenimento em Chicago está um pouco mais estruturado, agora. As casas de “stand-up” estão reabrindo cautelosamente, bem como os mais amados clubes de jazz e blues, muitas vezes combinando shows em ambientes fechados e ao ar livre.

Entre os líderes está o Jazz Showcase, a casa de jazz mais antiga da cidade, criada em 1947, onde Dizzy Gillespie por muitos anos costumava passar seu aniversário. Agora a casa está realizando pequenos shows em seu palco de quinta a domingo (jazzshowcase.com).

O novo e mais experimental Constellation, em Roscoe Village, faz streams de seus shows ao vivo. A lotação da casa, normalmente 250 pessoas, está limitada a 46 espectadores (constellation-chicago.com).

Há outros shows ao vivo em “beer gardens” e no Lakeshore Drive-In, um espaço temporário para shows que as pessoas assistem de seus carros, diante do Adler Planetarium (isdrivein.com).

Em outras cidades famosas pela música, como Memphis, clubes como o B.B. King’s Blues Club, em Beale Street, vêm realizando shows para pequenas plateias —cerca de 50 pessoas— desde junho, com apresentações de atrações regulares como a Flic’s Pic’s Band e os King Beez subindo ao palco uma ou duas vezes por semana. Os espectadores passam por exame de temperatura, e a equipe da casa usa máscaras e luvas (bbkings.com).

Tradução de Paulo Migliacci

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