Serra da Mantiqueira tem rota de vinícolas abertas a visitas e degustações

Próximas de São Paulo, propriedades atraem turistas com passeios pelos vinhedos, restaurantes e piqueniques

Parreiras da Entre Vilas, em São Bento do Sapucaí (SP)

Parreiras da Entre Vilas, em São Bento do Sapucaí (SP) Caio Ferrari/Folhapress

São Bento do Sapucaí (SP)

A serra da Mantiqueira, cadeia de montanhas na divisa entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, abriga o mais novo polo de enoturismo brasileiro.

Não que o assunto seja novo por ali. Nos séculos 19 e 20, diversos municípios da região foram ocupados por imigrantes e se destacaram na fabricação de vinhos de mesa.

Mas os primeiros vinhedos dedicados ao cultivo de variedades viníferas começaram a ser plantados no início dos anos 2000. São vinícolas jovens, que lançaram os primeiros rótulos de dez anos para cá e, mais recentemente, abriram para visitantes.

Os rótulos, que não lembram em nada os velhos vinhos de garrafão, têm conquistado prêmios e surpreendido a crítica.

O divisor de águas para a região foi o método conhecido como dupla poda, desenvolvido pela Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais).

Ele inverte o ciclo produtivo das plantas e permite que os frutos amadureçam no outono, quando os dias são ensolarados e secos e as noites, bem frias. A colheita acontece em pleno inverno, sem o risco das chuvaradas do verão.

“Por serem novas, as vinícolas já se lançaram com muita técnica, bons equipamentos e profissionais. Produzem vinhos fáceis de beber, frutados e com bom corpo, muito bem adaptados ao mercado consumidor atual”, avalia o crítico de vinhos Marcelo Copello.

Parte das vinícolas ocupa a região conhecida como Triângulo das Serras, onde ficam os municípios de Campos do Jordão, Santo Antônio do Pinhal e São Bento do Sapucaí, todos no estado de São Paulo.

Outras fincaram raízes na região centro-leste do estado, entre Espírito Santo do Pinhal, no lado paulista, e Andradas, na banda mineira.

Os dois polos enoturísticos ficam a uma distância média de 200 km do centro de São Paulo e boa parte dos trajetos é feita por estradas asfaltadas —também há vinícolas nos municípios mineiros de Três Corações, Campos Gerais e Cordislândia, mas a distância a partir da capital é maior, entre 300 km e 400 km.

Nas duas regiões que a Folha visitou, mais próximas de São Paulo, a possibilidade de percorrer os vinhedos, participar de degustações e fazer refeições sem risco de aglomeração tem atraído os turistas.

Localizadas em regiões rurais, as propriedades têm vastas áreas ao ar livre e muitas delas passaram a oferecer piqueniques, para que os visitantes possam comer e beber mantendo o isolamento.

O roteiro é dos mais diversos. É possível visitar propriedades pequenas e familiares, compará-las à realidade de um empreendimento tamanho giga, percorrer vinícolas sofisticadas, onde o preço das garrafas chega fácil aos três dígitos, e até conhecer um produtor de vinhos naturais.

Outra vantagem é poder provar vinhos vendidos apenas pelos produtores, que raramente chegam ao mercado.

Importante: agende com antecedência. As vinícolas costumam receber visitantes só nos fins de semana e, em função dos protocolos sanitários, estão operando com capacidade reduzida.

TRIÂNGULO DAS SERRAS

Vinícola Raízes do Baú

No sopé da Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí, a Fazenda Portal da Luz combina produção de vinhos, doces, chutneys, temperos e castanha portuguesa. Quem recebe os visitantes é o proprietário, o advogado Marcelo Motta, ou sua filha, Bia.

Em 5 hectares, eles plantam nove variedades de uvas viníferas, com destaque para syrah e chardonnay, e conjugam colheitas de inverno e verão.

Depois de conhecer os vinhedos, a 1.200 metros de altitude, o visitante encerra o roteiro no empório, inaugurado em março de 2020.

Ali, degusta dois vinhos com queijo e salame da região, pão caseiro e produtos da propriedade (R$ 70 por pessoa).

Quem preferir pode levar a cesta de piquenique para os vinhedos (R$ 110 por pessoa) ou para a beira do lago (R$ 85 por pessoa).

Na lojinha, a garrafa do Trinca 2019, corte de cabernet sauvignon, malbec e syrah, custa R$ 80 (fazendaportaldaluz.com.br).

Villa Santa Maria

Inaugurada oficialmente em 2018 no Vale do Baú, em São Bento do Sapucaí, a produtora dos vinhos Brandina pertence aos irmãos Célia Pinotti Carbonari e Christian Pinotti.

Ela é a arquiteta que assina o bonito projeto, dotado de heliponto, enquanto ele tem formação de sommelier e conduz as degustações.

Com 65 mil pés plantados em 90 hectares, a dupla proporciona experiência completa aos visitantes.
É possível percorrer os vinhedos, conhecer a cave, degustar os vinhos e encerrar o programa no restaurante Bruschetteria da Villa, com varanda e mesas ao ar livre.

O menu com salada, prato principal e sobremesa custa R$ 140 por pessoa, ou R$ 200 com harmonização de vinhos. A tábua de bruschettas, montadas com ingredientes da região, sai por R$ 150.

Na loja ou no restaurante, o vinho Brandina Assemblage 2017, corte de syrah e merlot, custa R$ 130
(villasantamaria.com.br).

Entre Vilas

Na propriedade da família, a Viveiro Frutopia, em São Bento do Sapucaí, o agrônomo Rodrigo Veraldi Ismael não produz só vinhos —ele também planta framboesas multicoloridas, castanhas portuguesas e lúpulo, entre outras culturas.

Ismael é adepto da vinificação natural, processo com interferência mínima na produção da bebida. O resultado são apenas 2.500 garrafas por ano —a última safra já esgotou e a próxima estará disponível a partir de maio.

Mas a visita vale assim mesmo. Além de conhecer a plantação, comer frutas no pé e aprender sobre a vinificação natural, o turista almoça no restaurante, que segue a filosofia slow food.

O menu-confiança (R$ 210 por pessoa) inclui antepastos, salada, massa, carne e sobremesa, tudo com ingredientes locais (opção vegetariana a R$ 150). As cervejas, pagas à parte, também são produzidas lá.

Ao lado do restaurante, um chalé de madeira acomoda até dez pessoas. A diária, com café da manhã, sai por R$ 900 (entrevilas.com.br).

Vinícola Ferreira

Às margens da represa São Bernardo, em Piranguçu (MG), o empresário Dormovil Ferreira mantém 15 hectares de vinhedos.

São 14 cepas, plantadas a partir de 2016, incluindo algumas raras na região, como gewürztraminer e tannat, que convivem com lavouras de frutas vermelhas, oliveiras e physalis.

Até maio de 2021, ele promete inaugurar a sede da vinícola, onde os 11 rótulos passarão a ser vinificados. A previsão é chegar a 48 mil garrafas anuais até 2023. Também estão em construção chalés de luxo.

A visita à propriedade sai a R$ 75 por pessoa ou R$ 100 com degustação. No restaurante, o menu com cinco etapas custa R$ 195 por cabeça.

Na mesa, na loja ou no ecommerce, a garrafa do premiado Fumé Blanche Sauvignon Blanc 2019 sai por R$ 300 (vinicolaferreira.com).

REGIÃO CENTRO-LESTE PAULISTA

Vinícola Terrassos

O engenheiro Fabio Nascimento comprou a propriedade em Amparo (SP) e começou a plantar uvas em 2002. Quase desistiu, até conhecer a técnica da dupla poda.

Esta é uma das histórias que ele conta aos visitantes que recebe nos fins de semana.

A produção, que chega a 20 mil litros anuais, inclui o varietal Syrah 4 Estações 2017 (R$ 59) e os rótulos feitos com a uva de mesa Máximo Híbrido (a partir de R$ 30).

Para conhecer os vinhedos e degustar seis rótulos, o preço é R$ 15 por pessoa. Mas vale a pena reservar mais tempo.

No platô que descortina uma vista deslumbrante, é possível degustar um dos vinhos na companhia de antepastos da região (entre eles os queijos da vizinha Fazenda Atalaia) e uma excelente massa caseira recheada de abóbora. A cesta de piquenique, para dois, sai por R$ 150 (terrassos.com.br).

Casa Geraldo

Sob o comando da quinta geração da família Marcon, a vinícola cinquentenária fez fama com os vinhos de garrafão Campino, de Andradas (MG).

No ramo dos vinhos finos desde 2012, adota a colheita de inverno nos 50 hectares de vinhedos e já produz 200 mil litros anuais.

As dimensões são tamanho GG —em um único dia, a propriedade recebe até 500 visitantes.

O roteiro começa com exibição de vídeo sobre a história da empresa e segue com passeio, a pé ou de ônibus, pelos vinhedos e gigantescos tanques da vinícola, e termina com degustação dos vinhos.

Há três roteiros: Prata, a R$ 35 por pessoa (1 hora de duração, com degustação de seis rótulos); Premium, a R$ 100 (2 horas, com 12 rótulos); e Do Enólogo, a R$ 200 (guiado pelo proprietário, Carlos Marcon, com prova de 20 rótulos).

No restaurante, aberto só para almoço, o menu harmonizado custa R$ 100 por pessoa, enquanto a cesta para piquenique sai a R$ 170 para o casal. Na loja ou no ecommerce, a garrafa do Casa Geraldo Shiraz sai por R$ 70 (casageraldo.com.br).

Vinícola Guaspari

Pioneira da região a divulgar os méritos dos vinhos de inverno, lançou os primeiros rótulos comerciais em 2014 e, desde então, acumulou prêmios nacionais e internacionais —os 12 rótulos somam 100 mil garrafas por ano.

Os 50 hectares de vinhedos em Espírito Santo do Pinhal (SP) têm as uvas syrah e cabernet franc como estrelas. A família Guaspari profissionalizou a gestão —uma equipe bem treinada recebe os visitantes na nova sede, inaugurada em 2018.

Duas vezes por dia, acontece o roteiro Vista da Vinícola (R$ 150 por pessoa): grupos percorrem a plantação, conhecem o processo produtivo, entram na cave das barricas e encerram no wine-bar, degustando quatro rótulos.

A degustação Vista (R$ 250 por pessoa), na área externa, dá direito a quatro rótulos, tábua de embutidos, queijos artesanais e pães de fermentação natural. Para duas pessoas, o piquenique (R$ 320) inclui uma garrafa de vinho, pães, quiches, queijos, embutidos, geleia, mel, frutas, mix de castanhas e bolo.

Na lojinha e no ecommerce, a edição comemorativa da primeira safra, de 2010, um lote de apenas 500 garrafas, está à venda por R$ 598. O Vale da Pedra Sauvignon Blanc 2019 custa R$ 94 (loja.vinicolaguaspari.com.br).

Casa Verrone

Embora os primeiros vinhedos tenham sido plantados em 2009, foi só em novembro de 2020 que Marcio Verrone inaugurou sua estrutura para receber visitantes, em Itobi (SP).

Depois de oferecer uma taça de espumante de boas-vindas, ele conduz as visitas guiadas pela plantação. Ao final, é possível degustar quatro vinhos direto das barricas.

O enólogo da casa é o chileno Cristian Sepúlveda, o mesmo que projetou a Guaspari. Na loja, no ecommerce ou no restaurante, a garrafa do premiado Syrah Colheita Especial 2018 custa R$ 77.

No amplo restaurante com deque sobre os vinhedos, o menu-degustação com entrada, salada, massas, principal e sobremesa sai a R$ 165 por pessoa. No balcão do wine-bar, o menu custa R$ 100 por pessoa (casaverrone.com.br).

ONDE FICAR

Grande Hotel Senac Campos do Jordão

Além de percorrer o vinhedo próprio, os hóspedes podem participar de uma degustação de vinhos da Mantiqueira harmonizados com produtos da região, conduzida pelo sommelier Vagner Duarte Pinto —sem custo, o evento faz parte da programação de lazer.

Quem quiser fazer piquenique nos vinhedos pode encomendar a cesta. Para dois adultos e uma criança, custa R$ 190.

A partir de R$ 1.050 a diária do quarto duplo, com meia pensão, grandehotelsenac.com.br

Hospedaria Casa da Pedra – Spa para Alma

Localizada em Espírito Santo do Pinhal (SP), a antiga casa de fim de semana da proprietária, Monica Bartolomei, foi transformada em pousada.

As refeições, pagas à parte, podem ser acompanhadas por vinhos ou cervejas artesanais da região.
Diárias para casal a partir de R$ 750, hospedariacasadapedra.com.br

A repórter se hospedou a convite do Grande Hotel Senac Campos do Jordão e da Hospedaria Casa de Pedra

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.