Há 100 anos, paulistanos iam até Guarulhos fazer turismo

Lago era a maior atração de cidade hoje conhecida por aeroporto; Rio já tinha bondinho e estrada do Corcovado

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São Paulo

Há 100 anos, a classe média paulistana fazia viagens curtas a destinos como o lago dos Patos, em Guarulhos. A cidade, que abriga o maior aeroporto internacional do país desde 1988, era o destino final dos turistas, não um ponto de partidas e chegadas.

Sem transporte aéreo comercial, percorrer longas distâncias, de trem ou navio, era privilégio quase exclusivo dos mais ricos. Enquanto isso, membros de uma classe média ainda incipiente se contentavam com os bate-volta. Os mais pobres, nem isso.

"As pessoas não viajavam com o pensamento de descansar. Os deslocamentos aconteciam sempre com objetivos, por exemplo, de estudar ciência ou a arquitetura", afirma Marina Araújo, professora de turismo da Universidade Anhembi Morumbi.

A classe média da época, formada principalmente por funcionários públicos, profissionais liberais e descendentes de imigrantes europeus —que àquela altura já haviam acumulado algum patrimônio—, fazia viagens sem pernoite, para regiões próximas.

Isso porque o transporte era lento, feito de trem, bonde ou em carroças —carro ainda era artigo de luxo.

"Se tivesse trem, dava para ir, mas nem todo lugar era atendido pelas ferrovias", diz o pesquisador Douglas Nascimento, presidente do Instituto São Paulo Antiga e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Foto antiga de carros passando em estrada e pessoas ao lado
Em foto de 1918, pessoas passam de carro pela Vila Galvão, em Guarulhos, para passear no Lago dos Patos - Reprodução

Um desses passeios era a visita ao lago dos Patos de Guarulhos, ainda hoje um ponto de lazer, para fazer piquenique e relaxar.

Segundo Nascimento, era comum as pessoas pegarem o trem rumo ao lago quando o sol ainda estava nascendo. Quem tinha mais dinheiro viajava de carro, e a viagem durava cerca de uma hora e meia.

Moça sentada em banco e pessoas andando em parque, com lago ao lado
Visitantes no Lago dos Patos, em Guarulhos, em agosto de 2019 - Alberto Rocha/Folhapress

A década de 1920, aliás, marca o início do turismo com automóveis em São Paulo, acelerado pela gestão do governador Washington Luís (1920-24), que priorizou a abertura de estradas. "Mas quem podia viajar de carro eram membros das famílias muito ricas, como os Dumont, os Matarazzo, os Scarpa ou os Guinle. Era como ter um helicóptero atualmente", diz Nascimento.

As ferrovias eram as principais ligações entre os destinos. O pesquisador conta que o trem diário para a então capital federal, o Rio de Janeiro, transportava principalmente políticos e pessoas que viajavam a negócios, mas raramente a turismo.

Embora pouco acessível para as massas, o Rio já tinha em 1921 parte das atrações ainda hoje muito buscadas pelos turistas. O bondinho do Pão de Açúcar, por exemplo, foi inaugurado em 1912 como um dos poucos teleféricos do mundo. A estrada de ferro do Corcovado, em funcionamento desde 1884, ainda não trazia em seu itinerário a vista para o Cristo Redentor, inaugurado em 1931.

O turismo de veraneio já era praticado na orla carioca e em outras praias do país, mas de forma menos difundida. Segundo Luiz Trigo, professor do curso de turismo da USP, um dos motivos para isso era o racismo. "Na época, quanto mais branco, melhor. Não existia isso de se bronzear na praia. Para um homem, até era suportável estar queimado, principalmente se fosse fazendeiro. Mas, para uma mulher, era inadmissível", afirma.

Era uma fase de transformações para o Rio, com mais investimentos em infraestrutura, embelezamento das vias públicas e alargamento de avenidas para a comemoração do centenário da Independência, em setembro de 1922.

Como resultado dessa onda de investimentos, o Copacabana Palace, emblemático hotel de luxo, foi inaugurado no ano seguinte, em 1923.

Na época, os grandes hotéis eram responsáveis pelo trabalho que hoje fazem as agências, marcando visitas às atrações turísticas da cidade ou se encarregando do transporte dos visitantes até o porto ou a estação de trem. As operadoras de turismo eram poucas —a primeira no mundo, Thomas Cook, foi fundada em 1841 e fechou as portas em 2019.

No início dos anos 1920, o Rio recebia alguns cruzeiros internacionais, que anos antes evitavam fazer paradas por ali por causa das epidemias de febre amarela que atingiam a cidade desde meados do século 19.

Em 1907, com a atuação de Oswaldo Cruz, então diretor-geral de Saúde Pública, a doença foi controlada. "Quando a febre amarela foi dominada, o Brasil se tornou mais atraente", afirma Lise Sedrez, coordenadora do programa de pós-graduação em história social da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Eventualmente, navios faziam rotas que conjugavam paradas na então capital do Brasil com as cidades de Buenos Aires e Montevidéu, roteiros praticados até hoje.

O porto do Rio era também um ponto de partida para famílias da elite brasileira que saíam de férias para a Europa ou os Estados Unidos.

Uma vez na Europa, deslocar-se de uma capital para outra era mais fácil do que no Brasil, por causa da malha ferroviária expandida. "Um dos trens mais famosos saía de Paris para Istambul, na Turquia", afirma Mário Carlos Beni, professor aposentado da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).

No Velho Continente, a malha ferroviária se desenvolveu a partir das capitais e de centros de peregrinação, como Lourdes, na França, e Fátima, em Portugal. No Brasil, as linhas férreas foram construídas para escoar a produção agrícola, afirma Lise Sedrez, da UFRJ.

Também já havia um tímido turismo rodoviário europeu. Fundado na França em 1900, o Guia Michelin apresentava mapas das estradas e apontava possíveis paradas nos trajetos de carro para comer e passar a noite.

Nos Estados Unidos, a cultura das road trips estava começando —e o carro era um meio de cruzar o país e visitar parques nacionais como o Yellowstone e o Grand Canyon.

Diferentemente do turismo atual, em que, em uma mesma viagem, podem-se misturar vários destinos e hospedagens, as classes mais ricas europeias viajavam para passar períodos longos em um mesmo lugar.

"Você ia para os Alpes suíços e ficava um mês morando no hotel, não se deslocava. Tinha serviço de correio, as pessoas vinham te visitar", afirma Trigo, da USP.

Viagem para cuidar da saúde era comum após gripe espanhola

Além de promover negócios e ampliar conhecimentos culturais, cuidar da saúde era outro motivo para viajar há 100 anos. Locais como Baden-Baden, na Alemanha, e Vichy, na França, recebiam visitantes que desfrutavam das estâncias termais, à época já conhecidas por trazer benefícios terapêuticos e pelo auxílio no tratamento de problemas musculares.

No Brasil, esse tipo de viagem já existia em Caxambu (MG), Poços de Caldas (MG) e Águas de Lindoia (SP). Pacientes em tratamento de tuberculose também viajavam a Campos do Jordão (SP) por causa da qualidade do ar. "As pessoas se hospedavam em estalagem e ambientes rústicos", diz Araújo, da Universidade Anhembi Morumbi.

Em 1921, o mundo se recuperava dos efeitos da pandemia de gripe espanhola, que se espalhou de 1918 a 1920 e também afetou as viagens, assim como nesta pandemia de Covid-19, mas em menor proporção. "Não existia o setor de turismo como hoje, não era algo organizado, senão teria tido o mesmo efeito [que a Covid]", afirma Beni, da USP.

Cerca de 35 mil brasileiros morreram por causa da doença —ao redor do mundo, foram 50 milhões. Ainda que letal, a duração da pandemia foi curta no Brasil.

"A gripe veio e foi embora rápido. Durou de cinco a seis meses, porque era algo muito mais fácil de controlar. Se parassem a navegação, a transmissão do vírus também cessava", diz o pesquisador Douglas Nascimento.

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