Marta Suplicy discorda de Lula sobre golpe em Dilma e declara apoio a Nunes em 2024

Ex-senadora, que votou pela saída da petista, diz que processo foi legal e vê país desanuviado após saída de Bolsonaro

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São Paulo

A ex-ministra Marta Suplicy disse nesta quinta-feira (26), em entrevista à TV Folha, que o impeachment de Dilma Rousseff (PT) —para o qual deu voto favorável quando era senadora pelo MDB— não foi um golpe, ao contrário do que afirma o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu aliado.

Atualmente secretária municipal de Relações Internacionais da gestão Ricardo Nunes (MDB), a ex-prefeita da capital disse que apoiará a reeleição do prefeito, que deve ter como oponente Guilherme Boulos (PSOL), nome apoiado por Lula. Segundo ela, o eleitor analisará o perfil de cada um, não o padrinho.

"Votei pelo impeachment e achei que era coerente com o que eu achava que era o certo naquele momento. Depois, é [analisar] o prédio pronto, [...] porque depois os resultados... Não sei se foi fruto só do impeachment, mas tivemos o Bolsonaro, que foi uma praga para o Brasil", afirmou.

"Não achei que foi golpe, de jeito nenhum. Passou por todos os canais legais, foi absolutamente dentro da Constituição", acrescentou, pregando não ser hora de "olhar para o leite derramado" diante de problemas mais urgentes, como fome, desemprego e Amazônia. "Eu não fico olhando em retrovisor, nunca."

A secretária, que foi do PT por mais de 30 anos, disse que Nunes está empenhado em fazer uma boa gestão, mas esbarra na falta de popularidade, o que precisa solucionar até a campanha à reeleição. "Ele está indo muito bem. Não vejo por que eu vá apoiar outra pessoa", afirmou.

Marta Suplicy, que está sem filiação partidária, durante entrevista à TV Folha nesta quinta-feira (26) - Bruno Santos/Folhapress

Marta, que está sem filiação partidária e diz que "nunca mais" será candidata, endossou o discurso de que Lula é um candidato natural para 2026, embora ele já tenha dito que não tentará um quarto mandato. E admitiu que pensou em ser escolhida pelo petista como sucessora, papel que acabou ficando com Dilma.

A secretária influenciou a montagem de uma frente ampla em torno de Lula em 2022 e diz que o petista "podia ter feito mais, mas graças a Deus não fez menos". Para ela, a diversidade partidária e o entendimento entre divergentes foram fundamentais para vencer Jair Bolsonaro (PL).

Impeachment ou golpe?

"Não faz sentido [debater isso] hoje. A gente olha para a frente, o que pode ser construído", afirma Marta sobre a discussão, que Lula inflamou nesta quarta-feira (25) após chamar de golpe o impeachment de Dilma, durante discurso em viagem ao Uruguai.

"Tem tanto problema para falar [...]. Gente, gasta energia para [olhar para] a frente, para resolver o problema que nós temos", diz, enumerando questões sociais, econômicas e ambientais.

"Passou na minha cabeça", responde Marta, sobre a hipótese de ter sido escolhida para suceder Lula em 2010. "Tinha a Dilma, a Marina [Silva] ou eu. Mas, quando a Dilma foi escolhida, achei que foi uma boa escolha, no sentido de que ela estava lá havia oito anos, conhecia a máquina como ninguém, era de absoluta confiança do Lula."

Eleição paulistana em 2024

Nos cálculos da secretária, a eleição para prefeito em 2024 fugirá à dicotomia Lula-Bolsonaro que marcou o último ciclo. "A cidade de São Paulo não vai fazer essa polarização, no meu entender. Vai focar em quem vai ser bom para a cidade, quem resolva o problema. Nesse sentido, o prefeito [Nunes] está fazendo um bom governo."

O gargalo para Nunes, analisa, é a baixa taxa de conhecimento. Ele assumiu o cargo após a morte de Bruno Covas (PSDB), de quem era vice. "Isso [popularidade] é o que tem que ser trabalhado." Marta apoiou a dupla em 2020 e chegou a ir para as ruas fazer campanha em uma fase crítica da pandemia de Covid-19.

"Ele tem duas coisas que eu gosto. É bom de orçamento, sabe como aplicar o dinheiro da cidade. E sai do gabinete, vai ver as coisas acontecerem, gosta de povo. A outra coisa: ele é um prefeito de origem humilde, que virou empresário e que tem uma sensibilidade com a pobreza muito grande. Ele se preocupa."

Janja, eleições e filhos

Uma primeira-dama que "provavelmente vai desenvolver projetos bons", Rosângela da Silva, a Janja, assume o papel em "um momento de transição para a mulher" e se vê no dilema de acompanhar o marido presidente e se dedicar às próprias iniciativas no governo, diz Marta.

"Ela tem enorme potencial, tem preparo para fazer alguma coisa muito importante na área que ela quiser", segue a ex-petista, que vê com bons olhos uma eventual candidatura de Janja. "Por que não? Vai depender do que ela fizer, do apoio do Lula ou não, do candidato [com] que ela tiver que concorrer."

"Acho que foi uma coisa muito boa na vida do Lula, neste momento da vida, ter encontrado uma pessoa como ela, que é uma pessoa que... Tem uma coisa que não se fala, mas eu pensei outro dia, que sorte isso: ela não tem filhos. Não tem que dividir a atenção."

Questões de idade

Marta discorda da percepção de Lula de que, aos 81 anos, ele provavelmente não terá condições de concorrer a um novo mandato em 2026. "Ele tem que concorrer. Se ele estiver bem, por que não?", diz.

"A natureza é implacável mesmo. Agora, tem muita gente que vai até os 85 anos, até os 90, lúcida, com energia, com capacidade. Se ele estiver bem, não vejo por que ele vá pôr outra pessoa. Principalmente porque não tem no radar outra pessoa. Eu não consigo ver outra pessoa que tenha essa condição, hoje."

Sobre si própria, diz: "Eu brinco: se eu morrer hoje, eu já tenho um legado feito". Marta completa 78 anos em março. "Detesto ficar tranquila. Eu gosto de ter uma agenda, ter coisas para fazer, ter capacidade e poder para fazer. Enquanto tiver saúde para estar lá fazendo, eu estarei."

E já sofreu etarismo, a discriminação por ter idade avançada? "Não, porque eu não pareço que eu tenho, nem fisicamente nem de energia. Então, fica meio ridículo ficar falando", responde. "Acho que as pessoas, enquanto têm energia e podem contribuir, você tem que aproveitar a experiência delas. Não vejo desvantagem em [ser] uma pessoa mais velha, não. Eu acho bom."

Frente ampla e Lula

Uma das primeiras figuras da política a defenderem publicamente uma frente para derrotar Bolsonaro, Marta diz que "agregar é mais importante do qualquer coisa para ganhar uma eleição" e que a diversidade partidária foi fundamental na vitória de Lula. Ela própria se dá o rótulo de "agregadora, frente ampla", ao comentar o papel que teve nas articulações da chapa Lula-Alckmin, por exemplo.

"A palavra mágica é ampliar. Mas não é 'vem comigo', é ampliar no que nós temos em comum, o que podemos somar, dividir, fazer um acordo. Isso, no meu entender, é governar", diz. Para ela, a capacidade digital do adversário e a polarização eram pontos que a faziam ter certeza de que não seria uma campanha fácil. "O presidente Lula é um agregador, um pacificador, graças a Deus."

O petista, avalia a secretária, "fez o necessário" na construção das alianças. "Podia ter feito mais, sim, [mas] graças a Deus não fez menos. Ele fez o necessário para mostrar que não ia ser um governo sectário e agregar apoiadores e mesmo gente que é antipetista."

Governo sem Bolsonaro

Marta diz perceber um clima desanuviado no país com a chegada de Lula após os anos de Bolsonaro, a quem acusa de ter deixado "um legado nefasto", com facilitação do acesso a armas e abandono de indígenas, tidos como guardiões da floresta.

"O que eu senti que melhorou foi que aquela tensão, aquela belicosidade, falar de arma, arminha [faz gesto com os dedos], aquela violência que a gente vivia, isso diminuiu. A polarização continua, mas o clima por ter um presidente agregador e não belicoso eu acho que distensionou bastante."

A personalidade pacificadora de Lula, segue ela, "foi um alívio, não ter alguém que fica procurando confusão nem incitando violência". No entanto, "vai demorar um tempo para acalmar a situação".

Reação aos atos golpistas

Para Marta, o governo está equilibrado na reação aos atos golpistas do dia 8 em Brasília e não pode ignorar as ameaças à democracia. "Não pode ter uma ação de contundência que seja interpretada de forma belicosa, mas não pode passar pano nem deixar barato", diz.

E emenda uma analogia: "A cabeça do dragão tem que ser cortada, e não [agir para ter] unha aparada".

Ela cobra responsabilização para que não se "banalize a selvageria" e comenta que o direito à livre expressão não comporta o que classifica como barbárie. "Tem que ter formas de fazer, e acho que o Lula está indo no comedimento certo, exatamente o que tem que fazer."

A ex-petista avalia que o desrespeito ao resultado da eleição não é unânime entre os que votaram em Bolsonaro. "[Um grupo pode] estar em casa bravo, desagradado, desgostoso, e sabendo que você perde uma eleição [e] é isso. É gente como a gente, normal, [às vezes] perde, ganha. Não é fanático."

O perigo, continua, é o de "uma bolha da fantasia" que incita a contestação aos resultados. Ela diz que golpistas como os que acamparam em frente a quartéis e participaram das invasões em Brasília "não estão bem da cabeça" e são "emocionalmente perturbados".

Daniela Carneiro e a milícia

"Eu não acho que eu tenha que achar nada", rebate, ao ser questionada sobre as ligações com milicianos da atual ministra do Turismo, Daniela Caneiro. Marta foi titular da pasta entre 2007 e 2008. Na época, causou polêmica com a frase "relaxa e goza", direcionada a passageiros lesados por uma crise nos aeroportos.

"Depois que ela [Daniela] está lá e que foi escolhida, tem que lidar com a situação, se for ruim. Não sei. Mas eu não acho que cabe a mim ficar dizendo o que tem que ser feito. Eles [governo] escolheram, eles sabiam, agora lidem com a situação", diz.

Apesar disso, Marta reitera que agregar é a palavra-chave para o governo, que negociou o ministério com a União Brasil. "E tem que ter cuidado quando agrega", observa.

Cargos e prazer

A secretária nega frustração por não estar no governo federal. Diz estar bem no posto na Prefeitura de São Paulo —que ela já descreveu como um "cargo pequeno". "Sabe que eu gosto bastante? É algo que percebi que me dá muito prazer exercer. Me dou muito bem com o prefeito Ricardo Nunes. Eu estou bem tranquila onde estou", responde.

Rindo, ela diz que Nunes administra melhor do que ela o fato de ter no secretariado uma política com uma trajetória mais extensa não só no Executivo municipal, mas também no plano federal. "Ele me dá todo o espaço, me trata superbem. É até condescendente em elogios. Sempre me sinto muito respeitada."

Direita sem líderes

"Eu acho que o Bolsonaro está derretendo", diz a secretária. "Não só porque estão aparecendo os malfeitos, cartão corporativo, isso, aquilo e aquilo, mas porque [é] um mito meio de pé de barro. Acho que a força está se perdendo."

Ela opina que "seria bom se surgisse" uma liderança de direita mais equilibrada, "conservadora, mas mais equilibrada", mas diz por enquanto não enxergar esse perfil em nomes citados como alternativas, como os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Romeu Zema (Novo-MG).

"Para querer ser candidato, você não tem que ser só um nome de direita. Tem que ter legado, estrada, carisma. Por esse prisma, ainda não vi com muita força quem apareceu. Mas isso não quer dizer que não vá aparecer, né? Não tem vazio na política", afirma.

São Paulo e o mundo

Segundo Marta, a capital é respeitada internacionalmente e "o tapete vermelho se estende automaticamente" quando ela, como representante da cidade, busca diálogo com redes globais de metrópoles e costura acordos em áreas como sustentabilidade e combate ao racismo.

O governo Bolsonaro, cuja política externa se notabilizou pelo isolamento e pelo negacionismo ambiental, "dificultou muito", relata. E exemplifica: eventos que a capital poderia sediar acabavam ocorrendo em outras cidades, como Buenos Aires, por discordâncias externas com a política federal.

"Tentei muito diferenciar São Paulo da política bolsonarista. Nós estávamos [como] os párias internacionais", segue ela, que vê o cenário oposto sob a gestão do PT. "Agora ficou muito mais fácil, porque o Lula é um presidente que tem entrada em tudo. Aliás, é disputado."

Entre Nunes e Lula

"Não é bom para ele [Nunes] me ter lá?", reage Marta, sobre o prefeito ter apoiado Bolsonaro, e não o atual presidente. "É ter dentro da prefeitura uma pessoa que tem uma proximidade com o Lula. Isso é positivo. E mostra uma coisa boa do prefeito: a amplitude. Porque ele poderia dizer: 'Epa, alguém do Lula eu não quero'."

Ação na cracolândia

"Eu li um pouco sobre isso no jornal. Pensei: bom, tomara que dê certo", diz, sobre o conjunto de ações para a cracolândia anunciado pela prefeitura em parceria com o governo estadual. "Eu não sei dizer se vai dar certo, se não vai. O que faço é aplaudir que vão tentar. Acho positivo tentar outra abordagem."

Aborto e costumes

Marta vê o Brasil mais conservador do que no passado, assim como o Congresso Nacional, mas não enxerga chance de retrocesso em questões como o aborto legal. "Seria uma gritaria que até eu iria para a rua marchar contra. As mulheres não tolerariam. Mas está difícil aprovar leis que possam facilitar a vida das mulheres em direitos, como em alguns países."

Yanomamis abandonados

"Hoje, acho que foi na Folha, tinha uma foto... Ai, quando eu vi aquilo...", comenta, levando a mão à testa e olhando para baixo. "Dói, corta o coração ver aquilo. Dá vontade de pegar todos esses caras que pegaram os recursos dos yanomamis e pôr tudo na cadeia. No governo bolsonarista era uma política de genocídio."

E como o governo pode enfrentar organizações criminosas instaladas na região amazônica? "Com recursos, empoderando [órgãos], mostrando que é de verdade. É uma prioridade acabar com o garimpo ilegal e proteger a Amazônia."

Lugar de fala no racismo

"Eu não dei a menor pelota" para as críticas sobre não ter lugar de fala para debater racismo —pauta com a qual se envolveu mais nos últimos tempos. "Meu lugar de fala não é de uma mulher negra, é [de] uma mulher que está a favor do combate ao racismo. Sou uma mulher branca, de olho azul, de origem não humilde. Mas eu tenho uma vida inteira um legado, em todo lugar que eu passei, que é a favor do povo excluído."

RAIO-X

Marta Suplicy, 77
É secretária de Relações Internacionais da Prefeitura de São Paulo, na gestão Ricardo Nunes (MDB). Foi deputada federal, ministra do Turismo no governo Lula (PT) e da Cultura no governo Dilma Rousseff (PT), prefeita de São Paulo e senadora. Filiada ao PT desde 1981, foi para o MDB em 2015 e apoiou o impeachment de Dilma. Em 2018, anunciou a desfiliação e o fim da carreira política. Em 2020, se filiou ao Solidariedade, mas logo deixou o partido para apoiar Bruno Covas (PSDB) na eleição paulistana. Defendeu uma frente ampla contra Jair Bolsonaro (PL) e apoiou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022

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