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12/09/2001
-
09h34
MÁRCIO SENNE DE MORAES
da Folha de S.Paulo
Os sangrentos atentados ocorridos ontem nos EUA demonstram que, atualmente, as ameaças à segurança de qualquer país são muito difusas e que grupos terroristas podem realizar ataques de tal magnitude sem necessariamente possuir muito dinheiro.
Os atentados cometidos na Costa Leste americana foram um ponto de inflexão no que se refere à magnitude dos atos terroristas, contudo não fugiram a uma lógica conhecida há muito tempo.
"Esses atentados só fogem à lógica terrorista que funcionou no século 20 por causa de sua dimensão, não em razão de seu conteúdo. Infelizmente, grupos que fizeram uso de terrorismo obtiveram sucesso no passado, como mostra o caso do IRA [Exército Republicano Irlandês] no Reino Unido", explicou à Folha Ole Holsti, especialista em segurança internacional da Universidade Duke (EUA).
"Entretanto a dimensão dos atentados de hoje [ontem" é infinitamente superior, porque é muito mais fácil entrar em países democráticos após o fim da Guerra Fria, o que provavelmente tenha dado aos terroristas a chance de planejar cuidadosamente parte do ataque de dentro do território americano", acrescentou.
Ademais, a ameaça terrorista tornou-se muito mais difusa em razão dos avanços tecnológicos. Atualmente, um criminoso com conhecimentos científicos razoáveis pode cometer um ataque de dimensão aterrorizante.
"Hoje qualquer pessoa mal-intencionada que conheça relativamente bem química pode entrar numa loja de produtos químicos, comprar algumas substâncias, combiná-las, colocá-las dentro de um caminhão e, em seguida, destruí-lo contra um imóvel, causando uma tragédia sem muitos recursos", indicou Holsti.
Suspeitos
Em qualquer lista de suspeitos, o nome do milionário saudita Osama bin Laden aparece em primeiro lugar. Afinal, Bin Laden, que está foragido e estaria no Afeganistão, é acusado de ter orquestrado os atentados às Embaixadas dos EUA em Nairóbi, no Quênia, e em Dar-es-Salam, na Tanzânia, em 1998. Os ataques, ocorridos no mesmo dia, mataram 224 pessoas (12 americanos) e deixaram mais de 4.000 feridos.
Além disso, um jornalista árabe que trabalha em Londres afirmou ter recebido, há três semanas, a informação de que Bin Laden estava preparando um "ataque sem precedentes" contra os interesses americanos. Embora concordem que ele é o principal suspeito, sobretudo por causa do modo como ocorreram os atentados, especialistas em segurança e terrorismo levantam outras possibilidades.
"Bin Laden é um dos suspeitos, porém o Irã e o [grupo extremista libanês] Hizbollah também são", afirmou Shabtai Shavit, que foi chefe da agência de inteligência israelense Mossad de 1989 a 1996, à agência de notícias "Reuters".
"Lembro-me que, em 1995, logo após o atentado de Oklahoma City, toda a imprensa falava que terroristas oriundos do Oriente Médio o tinham cometido. No entanto, como vimos posteriormente, os terroristas faziam parte da extrema direita americana", apontou Holsti.
"Se [Timothy] McVeigh [o autor do atentado de Oklahoma City] tivesse sido auxiliado por 20 pessoas, não duas ou três, ele poderia ter explodido vários prédios, não apenas um, e causado a morte de milhares de inocentes", acrescentou. O ataque de 1995 matou 168 pessoas.
Declaração de guerra
Os atentados de ontem foram altamente simbólicos, pois buscaram atingir o centro da defesa dos EUA -o Pentágono- e um dos locais mais emblemáticos do poderio econômico americano -o World Trade Center (WTC). "Foi uma declaração de guerra, difícil será saber quem a declarou. Seria pouco razoável pensar que um Estado soberano estivesse por trás dos ataques", disse Holsti.
Indubitavelmente, o terrorismo será uma das maiores ameaças à segurança internacional no século 21, e a tragédia da Costa Leste dos EUA ilustra essa constatação. Isso porque, atualmente, é pouco provável que uma guerra generalizada envolva Estados-nações com poderio suficiente para travá-la.
"As guerras modernas são protagonizadas por uma potência enorme, como a Otan [aliança militar ocidental], e por países considerados párias dentro da comunidade internacional, como o Iraque ou a Iugoslávia de [Slobodan] Milosevic", analisou Holsti.
"Assim, o terrorismo passa a constituir a verdadeira ameaça à segurança internacional. Afinal, qualquer grupo relativamente bem estruturado pode cometer um atentado grave. Há vários grupos em todo o mundo, incluindo nos EUA, que se opõem à administração americana. Por isso é precipitado pôr a culpa em Bin Laden hoje", acrescentou.
Segundo ele, para realizar o ataque, um grupo precisaria, primeiro, treinar pessoas para que ludibriassem a segurança dos aeroportos. Segundo, os autores teriam de escolher cuidadosamente os alvos e descobrir as companhias aéreas mais vulneráveis.
Finalmente, a tarefa mais complicada seria a de treinar pessoas para pilotar as aeronaves, pois, como salientou Gene Poteat, presidente da Associação de Ex-Funcionários de Inteligência dos EUA, mesmo sob ameaça de morte, nenhum piloto comercial teria voado contra as torres do WTC.
Ora, fora esse último ponto, nenhuma das prováveis etapas da preparação dos ataques é demasiado complexa para qualquer grupo terrorista bem organizado.
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
Ameaça terrorista é difusa e não precisa de muito dinheiro
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da Folha de S.Paulo
Os sangrentos atentados ocorridos ontem nos EUA demonstram que, atualmente, as ameaças à segurança de qualquer país são muito difusas e que grupos terroristas podem realizar ataques de tal magnitude sem necessariamente possuir muito dinheiro.
Os atentados cometidos na Costa Leste americana foram um ponto de inflexão no que se refere à magnitude dos atos terroristas, contudo não fugiram a uma lógica conhecida há muito tempo.
"Esses atentados só fogem à lógica terrorista que funcionou no século 20 por causa de sua dimensão, não em razão de seu conteúdo. Infelizmente, grupos que fizeram uso de terrorismo obtiveram sucesso no passado, como mostra o caso do IRA [Exército Republicano Irlandês] no Reino Unido", explicou à Folha Ole Holsti, especialista em segurança internacional da Universidade Duke (EUA).
"Entretanto a dimensão dos atentados de hoje [ontem" é infinitamente superior, porque é muito mais fácil entrar em países democráticos após o fim da Guerra Fria, o que provavelmente tenha dado aos terroristas a chance de planejar cuidadosamente parte do ataque de dentro do território americano", acrescentou.
Ademais, a ameaça terrorista tornou-se muito mais difusa em razão dos avanços tecnológicos. Atualmente, um criminoso com conhecimentos científicos razoáveis pode cometer um ataque de dimensão aterrorizante.
"Hoje qualquer pessoa mal-intencionada que conheça relativamente bem química pode entrar numa loja de produtos químicos, comprar algumas substâncias, combiná-las, colocá-las dentro de um caminhão e, em seguida, destruí-lo contra um imóvel, causando uma tragédia sem muitos recursos", indicou Holsti.
Suspeitos
Em qualquer lista de suspeitos, o nome do milionário saudita Osama bin Laden aparece em primeiro lugar. Afinal, Bin Laden, que está foragido e estaria no Afeganistão, é acusado de ter orquestrado os atentados às Embaixadas dos EUA em Nairóbi, no Quênia, e em Dar-es-Salam, na Tanzânia, em 1998. Os ataques, ocorridos no mesmo dia, mataram 224 pessoas (12 americanos) e deixaram mais de 4.000 feridos.
Além disso, um jornalista árabe que trabalha em Londres afirmou ter recebido, há três semanas, a informação de que Bin Laden estava preparando um "ataque sem precedentes" contra os interesses americanos. Embora concordem que ele é o principal suspeito, sobretudo por causa do modo como ocorreram os atentados, especialistas em segurança e terrorismo levantam outras possibilidades.
"Bin Laden é um dos suspeitos, porém o Irã e o [grupo extremista libanês] Hizbollah também são", afirmou Shabtai Shavit, que foi chefe da agência de inteligência israelense Mossad de 1989 a 1996, à agência de notícias "Reuters".
"Lembro-me que, em 1995, logo após o atentado de Oklahoma City, toda a imprensa falava que terroristas oriundos do Oriente Médio o tinham cometido. No entanto, como vimos posteriormente, os terroristas faziam parte da extrema direita americana", apontou Holsti.
"Se [Timothy] McVeigh [o autor do atentado de Oklahoma City] tivesse sido auxiliado por 20 pessoas, não duas ou três, ele poderia ter explodido vários prédios, não apenas um, e causado a morte de milhares de inocentes", acrescentou. O ataque de 1995 matou 168 pessoas.
Declaração de guerra
Os atentados de ontem foram altamente simbólicos, pois buscaram atingir o centro da defesa dos EUA -o Pentágono- e um dos locais mais emblemáticos do poderio econômico americano -o World Trade Center (WTC). "Foi uma declaração de guerra, difícil será saber quem a declarou. Seria pouco razoável pensar que um Estado soberano estivesse por trás dos ataques", disse Holsti.
Indubitavelmente, o terrorismo será uma das maiores ameaças à segurança internacional no século 21, e a tragédia da Costa Leste dos EUA ilustra essa constatação. Isso porque, atualmente, é pouco provável que uma guerra generalizada envolva Estados-nações com poderio suficiente para travá-la.
"As guerras modernas são protagonizadas por uma potência enorme, como a Otan [aliança militar ocidental], e por países considerados párias dentro da comunidade internacional, como o Iraque ou a Iugoslávia de [Slobodan] Milosevic", analisou Holsti.
"Assim, o terrorismo passa a constituir a verdadeira ameaça à segurança internacional. Afinal, qualquer grupo relativamente bem estruturado pode cometer um atentado grave. Há vários grupos em todo o mundo, incluindo nos EUA, que se opõem à administração americana. Por isso é precipitado pôr a culpa em Bin Laden hoje", acrescentou.
Segundo ele, para realizar o ataque, um grupo precisaria, primeiro, treinar pessoas para que ludibriassem a segurança dos aeroportos. Segundo, os autores teriam de escolher cuidadosamente os alvos e descobrir as companhias aéreas mais vulneráveis.
Finalmente, a tarefa mais complicada seria a de treinar pessoas para pilotar as aeronaves, pois, como salientou Gene Poteat, presidente da Associação de Ex-Funcionários de Inteligência dos EUA, mesmo sob ameaça de morte, nenhum piloto comercial teria voado contra as torres do WTC.
Ora, fora esse último ponto, nenhuma das prováveis etapas da preparação dos ataques é demasiado complexa para qualquer grupo terrorista bem organizado.
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
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