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12/09/2001 - 09h50

As guerras da globalização

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LUIS NASSIF
Colunista da Folha

Preliminarmente, ressalte-se que terrorismo é a mais abjeta forma de atuação, especialmente quando atinge a população civil. A pena de morte deveria ser estendida a todos os que praticam tal forma de crime, de grupos terroristas ao terrorismo de Estado.

A primeira observação é que o final da Guerra Fria acarretou inúmeras alterações no plano dos grandes conflitos internacionais. Em seu período, o equilíbrio sob armas, garantido pela ex-URSS, proporcionava recursos e armamentos para circunscrever as guerras no seu âmbito regional.

Com o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos assumiram o papel de maior potência do mundo, mas sua diplomacia continuou inapelavelmente presa ao passado das canhoneiras, impondo seu ponto de vista. Se ocorresse o mesmo com o Brasil de FHC, se atribuiria esse tipo de atitude ao "caipirismo brasileiro".

O grande porrete
Essa posição se manifestou não apenas no profundo desprezo com que os EUA trataram de temas fundamentais para o bom relacionamento global como a recusa a assinar o Protocolo de Kyoto, a saída do acordo de limitação de armas leves, o aumento do protecionismo agrícola, a resistência a acordos internacionais de limitação à proliferação de mísseis, o enfraquecimento da ONU.

Mas também na maneira como o país se comportou em relação a velhos aliados dos tempos da Guerra Fria, como Israel. Ou seja, como nação mais poderosa do mundo, teria que se transformar em árbitro para legitimar sua atuação. Continua atuando como se a Guerra Fria continuasse.

Aí entra em cena outro componente essencial, que é o complexo empresarial-militar formado ao longo de décadas de Guerra Fria. A sobrevida de seus interesses depende da manutenção de conflitos externos. Anos atrás houve a pantomima da Guerra do Golfo, cujo exército era apresentado como o quinto mais poderoso do mundo, uma piada que fez a imprensa americana parecer com alguns de seus vizinhos do Sul, que encampam sempre a primeira versão. Nesse quadro, poderia haver normas rígidas am aeroportos e tudo o mais, mas os serviços de inteligência continuavam ligados à velha concepção de Guerra Fria.

As novas tecnologias
E aí se entra na parte mais perigosa do jogo. A partir do momento em que deixaram de ter a retaguarda de governos nacionais, os terroristas conseguiram adeptos para sua atuação urbana. Com a diplomacia internacional dominada pelos EUA e sem nenhuma chance de ter suas pretensões acolhidas, como se faz?

Veja bem, não se está em absoluto defendendo esses assassinos, mas explicando o cadinho que fermenta seu poder. Mais que isso, os grupos de terrorismo e de contravenção tornaram-se organizações internacionais, e o fim da Guerra Fria permitiu a disseminação pelo mercado de um comércio bélico dos mais perigos.

No ano passado, traficantes colombianos foram flagrados quando se preparam para dominar completamente o ciclo do submarino atômico. Por ocasião da implosão da ex-URSS, eu, particularmente, perdi algumas noites de sono imaginando o que poderia ocorrer com o arsenal atômico dos ex-soviéticos.

O atrevimento dos terroristas demonstrou condições de logística e de planejamento à altura de uma operação atômica. Parecia bandido de filme de 007, conseguindo até colocar explosivos internamente, naquele que era considerado o mais seguro edifício do mundo.

Era de incertezas
O que vem por aí? Vai chegar o momento em que todos os países cairão em si de que a única saída para combater esses homicidas será avançar definitivamente na busca da concórdia mundial. Passado o impacto inicial, o americano médio se dará conta de que a arrogância de sua diplomacia em outras partes do mundo coloca diretamente em risco a sua paz e segurança internas.

No curto prazo, é de esperar o de sempre: a pressão da opinião pública americana exigindo ações imediatas e a lei de Talião se impondo, com o bombardeio de aldeias matando a população civil. Até que o bom senso se instaure, seguramente esse homicídio terrorista ajudará a fortalecer os sentimentos nacionalistas americanos, dificultando qualquer ação diplomática pacificadora.

Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
 

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