Publicidade
Publicidade
12/09/2001
-
09h52
da Folha de S.Paulo
É cedo para avaliar a exata dimensão dos devastadores atentados de ontem nos Estados Unidos ou para antecipar a magnitude de uma possível retaliação norte-americana contra seus ainda desconhecidos autores, mas não há dúvida de que se trata de um evento histórico, cujas repercussões se farão sentir ao longo dos próximos anos.
Por enquanto, tudo são especulações, hipóteses mais ou menos críveis em torno de um episódio em si mesmo inacreditável. A única certeza é a de que este terá sido o maior atentado terrorista da história.
As desconfianças recaem sobre grupos extremistas islâmicos. É bastante verossímil que o arquiterrorista Osama bin Laden, milionário saudita que se beneficia de acobertamento por parte do atual governo do Afeganistão, esteja por trás de um ataque dessa envergadura. É um dos poucos com recursos e arrojo para tanto.
Mas vale recordar que, em 1995, quando ocorreu o atentado de Oklahoma City, árabes também frequentaram a primeira linha de suspeitos. O autor do crime, contudo, era cidadão norte-americano, branco e condecorado na Guerra do Golfo.
Até então os Estados Unidos se julgavam território imune à ameaça terrorista. Os grupos extremistas preferiam atuar mais perto de suas bases, no Oriente Médio e na Europa. O colapso do comunismo e o fim da Guerra Fria, porém, fizeram dos Estados Unidos a única superpotência.
Converteram aquele país na imagem do "statu quo" e, portanto, no responsável, real ou simbólico, por tudo o que há de errado no mundo.
A tragédia que vem ocupando as atenções do planeta desde a manhã de ontem coloca em termos dramáticos alguns dos problemas da ordem internacional caracterizada como "globalização". Com o desaparecimento de alternativas conceituais ao modelo ocidental capitaneado pelos Estados Unidos, as manifestações de antagonismo tendem a assumir o aspecto irracional e desesperado que marcou a catástrofe de ontem.
Num mundo dominado por um único pólo de poder econômico e militar, o inconformismo fermentado pela miséria, pela exclusão e pelo fanatismo religioso tende a fragmentar-se em grupos aguerridos, mas politicamente irresponsáveis, que não se consideram comprometidos com nada além de seu próprio delírio apocalíptico.
O comportamento político dos Estados Unidos, pouco sensível às distorções internacionais agravadas pela liberalização geral dos mercados e às reivindicações dos países mais pobres, exibe agora suas consequências não de todo imprevisíveis, embora ninguém esperasse impacto tão espetacular. É óbvio que os atentados colocam seus autores fora do âmbito de qualquer convívio civilizado e que eles devem pagar pela carnificina que sua ação produziu. Mas não se pode ignorar que os Estados Unidos não têm contribuído para reduzir o nível de tensão mundial.
É evidente que a ação lança o mundo num período de incertezas. Teme-se que um governante como George W. Bush -tido por despreparado para o posto e cuja ascensão ao poder foi maculada por vícios de origem eleitoral e se assenta sobre interesses de grandes corporações privadas- utilize o episódio para deflagrar uma igualmente irracional caça às bruxas, capaz de desviar atenções, mobilizar o sempre disponível chauvinismo norte-americano e galvanizar os apoios que lhe faltam.
Os atentados constituem uma declaração de guerra, mas não há exatamente um Estado inimigo contra o qual a Casa Branca possa desferir um contra-ataque. A ação criminosa tornou subitamente inócua a idéia, ressuscitada pelo governo Bush, de construir um escudo protetor contra armas nucleares formado por satélites. O suposto aspecto étnico do episódio tende ainda a fomentar atos de racismo por toda parte.
Tudo indica que o mundo mudou -e para pior.
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
Editorial: Guerra na América
Publicidade
É cedo para avaliar a exata dimensão dos devastadores atentados de ontem nos Estados Unidos ou para antecipar a magnitude de uma possível retaliação norte-americana contra seus ainda desconhecidos autores, mas não há dúvida de que se trata de um evento histórico, cujas repercussões se farão sentir ao longo dos próximos anos.
Por enquanto, tudo são especulações, hipóteses mais ou menos críveis em torno de um episódio em si mesmo inacreditável. A única certeza é a de que este terá sido o maior atentado terrorista da história.
As desconfianças recaem sobre grupos extremistas islâmicos. É bastante verossímil que o arquiterrorista Osama bin Laden, milionário saudita que se beneficia de acobertamento por parte do atual governo do Afeganistão, esteja por trás de um ataque dessa envergadura. É um dos poucos com recursos e arrojo para tanto.
Mas vale recordar que, em 1995, quando ocorreu o atentado de Oklahoma City, árabes também frequentaram a primeira linha de suspeitos. O autor do crime, contudo, era cidadão norte-americano, branco e condecorado na Guerra do Golfo.
Até então os Estados Unidos se julgavam território imune à ameaça terrorista. Os grupos extremistas preferiam atuar mais perto de suas bases, no Oriente Médio e na Europa. O colapso do comunismo e o fim da Guerra Fria, porém, fizeram dos Estados Unidos a única superpotência.
Converteram aquele país na imagem do "statu quo" e, portanto, no responsável, real ou simbólico, por tudo o que há de errado no mundo.
A tragédia que vem ocupando as atenções do planeta desde a manhã de ontem coloca em termos dramáticos alguns dos problemas da ordem internacional caracterizada como "globalização". Com o desaparecimento de alternativas conceituais ao modelo ocidental capitaneado pelos Estados Unidos, as manifestações de antagonismo tendem a assumir o aspecto irracional e desesperado que marcou a catástrofe de ontem.
Num mundo dominado por um único pólo de poder econômico e militar, o inconformismo fermentado pela miséria, pela exclusão e pelo fanatismo religioso tende a fragmentar-se em grupos aguerridos, mas politicamente irresponsáveis, que não se consideram comprometidos com nada além de seu próprio delírio apocalíptico.
O comportamento político dos Estados Unidos, pouco sensível às distorções internacionais agravadas pela liberalização geral dos mercados e às reivindicações dos países mais pobres, exibe agora suas consequências não de todo imprevisíveis, embora ninguém esperasse impacto tão espetacular. É óbvio que os atentados colocam seus autores fora do âmbito de qualquer convívio civilizado e que eles devem pagar pela carnificina que sua ação produziu. Mas não se pode ignorar que os Estados Unidos não têm contribuído para reduzir o nível de tensão mundial.
É evidente que a ação lança o mundo num período de incertezas. Teme-se que um governante como George W. Bush -tido por despreparado para o posto e cuja ascensão ao poder foi maculada por vícios de origem eleitoral e se assenta sobre interesses de grandes corporações privadas- utilize o episódio para deflagrar uma igualmente irracional caça às bruxas, capaz de desviar atenções, mobilizar o sempre disponível chauvinismo norte-americano e galvanizar os apoios que lhe faltam.
Os atentados constituem uma declaração de guerra, mas não há exatamente um Estado inimigo contra o qual a Casa Branca possa desferir um contra-ataque. A ação criminosa tornou subitamente inócua a idéia, ressuscitada pelo governo Bush, de construir um escudo protetor contra armas nucleares formado por satélites. O suposto aspecto étnico do episódio tende ainda a fomentar atos de racismo por toda parte.
Tudo indica que o mundo mudou -e para pior.
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
Publicidade
As Últimas que Você não Leu
Publicidade
+ LidasÍndice
- Alvo de piadas, Barron Trump se adapta à vida de filho do presidente
- Facções terroristas recrutam jovens em campos de refugiados
- Trabalhadores impulsionam oposição do setor de tecnologia a Donald Trump
- Atentado contra Suprema Corte do Afeganistão mata 19 e fere 41
- Regime sírio enforcou até 13 mil oponentes em prisão, diz ONG
+ Comentadas
- Parlamento de Israel regulariza assentamentos ilegais na Cisjordânia
- Após difamação por foto com Merkel, refugiado sírio processa Facebook
+ EnviadasÍndice





