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12/09/2001
-
10h10
FERNANDO DE BARROS E SILVA
da Folha de S.Paulo
O historiador Luiz Felipe de Alencastro, professor-catedrático de história do Brasil na Universidade de Paris 4 (Sorbonne), na França, avalia que um atentado como o de ontem provavelmente tem a participação de um ou mais países hostis ao EUA.
"O ataque contra os americanos veio pelas bagagens dos aeroportos, e não pelos mísseis da estratosfera", o que põe em xeque todo o sistema de segurança da maior potência militar e econômica, diz.
Autor de "O Trato dos Viventes - Formação do Brasil no Atlântico Sul" (Cia. das Letras), Alencastro considera que "Bush será cobrado pela notória incompetência dos serviços de contra-espionagem americanos". Leia a seguir, entrevista concedida à Folha de Paris:
Folha - Qual o paralelo entre os atentados de ontem e o de Pearl Harbor, em 1941?
Luiz Felipe de Alencastro - O paralelo já está sendo feito pelas TVs do mundo inteiro: em Pearl Harbor houve 2.400 mortos; hoje [ontem", o número de vítimas pode ser cinco vezes maior ou mais elevado. Trata-se do ato mais mortífero cometido no território continental americano desde a Guerra da Secessão (1861-1865).
Folha - Que reação o sr. espera dos EUA, na medida em que não há um Estado para ser retaliado, mas, supostamente, terroristas ligados ao fundamentalismo islâmico?
Alencastro - Ainda é cedo para fazer esse tipo de avaliação, mas a preparação do atentado, com essa série de ações coordenadas e precisas, deve ter contado com a ajuda e a cumplicidade de um país ou de países hostis aos EUA.
Folha - O terrorismo se tornou a maior ameaça às democracias?
Alencastro Alencastro - É obvio que esse evento marca um novo patamar no terrorismo e uma mudança estratégica nas ações contra os EUA. Também fica claro que o projeto de "Guerra nas Estrelas", priorizado por Bush, tornou-se superado antes de ser sequer projetado: o ataque aos americanos veio pelas bagagens dos aeroportos, não pelos mísseis da estratosfera.
Folha - Que relação o sr. faz entre a ascensão de Bush ao poder e a tragédia de ontem?
Alencastro Alencastro - Essa ação terrorista já estava preparada há meses e talvez há anos, muito provavelmente. Mas Bush será cobrado pela notória incompetência dos serviços de contra-espionagem americanos: como o preparo de um ato dessa envergadura não foi detectado pela CIA e serviços anexos?
Bush também será criticado pela virada isolacionista que ele estava dando na política externa americana: agora ele terá que intervir de verdade para apaziguar o conflito entre israelenses e palestinos.
Folha - Como explicar a vulnerabilidade da segurança americana?
Alencastro Alencastro - Os especialistas ingleses explicam que os americanos não têm uma cultura de segurança pública similar a que a Inglaterra criou por causa dos ataques do IRA e a França em razão dos ataques dos radicais islamistas argelinos.
Folha - O episódio nos EUA ocorre num momento em que as economias centrais estão entrando num ciclo recessivo, caso dos EUA, ou estagnadas há anos, caso do Japão. É razoável supor agora um recrudescimento da crise mundial?
Alencastro Alencastro - O aumento da tensão internacional e a exacerbação do conflito no Oriente Médio complicam a retomada do crescimento econômico nos EUA. É certo também que as ações das companhias aéreas vão cair: medidas de controle reforçadas nos vôos aéreos domésticos e internacionais vão encarecer as viagens, aumentar os custos de segurança e tornar mais lenta a circulação dos passageiros etc.
Folha - Onde o sr. estava quando recebeu a notícia?
Alencastro Alencastro - Estava no TGV (trem-bala) que vinha da Bretanha (França), depois de um congresso de historiadores em Lorient. Vinha conversando com um colega canadense e, logo que a noticia se espalhou, transmitida pelos celulares dos passageiros, houve um começo de pânico porque esse tipo de trem já foi alvo de terroristas islâmicos na França.
Folha - Você espera algum tipo de retaliação às comunidades árabes e islâmicas que moram nos EUA? Em Detroit, onde vivem muitos árabes, havia ontem a recomendação de não saírem às ruas.
Alencastro Alencastro - Se ficar constatado que os terroristas se beneficiaram da cumplicidade dessas comunidades, haverá certamente problemas graves no futuro.
Folha - Quais as primeiras reações na Europa e em Paris?
Alencastro - A União Européia (UE) é uma aliada firme dos EUA nessas horas, e a Otan já prometeu participar da procura e da punição dos responsáveis. É possível que a Turquia, que tem muita autoridade entre os países e movimentos islâmicos, jogue um papel importante a partir de agora, forçando o isolamento dos grupos islâmicos radicais. A Turquia se prepara para entrar na UE e está cheia de boa vontade com os aliados ocidentais.
Colaborou VINICIUS PRECIOSO, da Redação
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
Análise: Incompetência de Bush será cobrada, avalia historiador
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da Folha de S.Paulo
O historiador Luiz Felipe de Alencastro, professor-catedrático de história do Brasil na Universidade de Paris 4 (Sorbonne), na França, avalia que um atentado como o de ontem provavelmente tem a participação de um ou mais países hostis ao EUA.
"O ataque contra os americanos veio pelas bagagens dos aeroportos, e não pelos mísseis da estratosfera", o que põe em xeque todo o sistema de segurança da maior potência militar e econômica, diz.
Autor de "O Trato dos Viventes - Formação do Brasil no Atlântico Sul" (Cia. das Letras), Alencastro considera que "Bush será cobrado pela notória incompetência dos serviços de contra-espionagem americanos". Leia a seguir, entrevista concedida à Folha de Paris:
Folha - Qual o paralelo entre os atentados de ontem e o de Pearl Harbor, em 1941?
Luiz Felipe de Alencastro - O paralelo já está sendo feito pelas TVs do mundo inteiro: em Pearl Harbor houve 2.400 mortos; hoje [ontem", o número de vítimas pode ser cinco vezes maior ou mais elevado. Trata-se do ato mais mortífero cometido no território continental americano desde a Guerra da Secessão (1861-1865).
Folha - Que reação o sr. espera dos EUA, na medida em que não há um Estado para ser retaliado, mas, supostamente, terroristas ligados ao fundamentalismo islâmico?
Alencastro - Ainda é cedo para fazer esse tipo de avaliação, mas a preparação do atentado, com essa série de ações coordenadas e precisas, deve ter contado com a ajuda e a cumplicidade de um país ou de países hostis aos EUA.
Folha - O terrorismo se tornou a maior ameaça às democracias?
Alencastro Alencastro - É obvio que esse evento marca um novo patamar no terrorismo e uma mudança estratégica nas ações contra os EUA. Também fica claro que o projeto de "Guerra nas Estrelas", priorizado por Bush, tornou-se superado antes de ser sequer projetado: o ataque aos americanos veio pelas bagagens dos aeroportos, não pelos mísseis da estratosfera.
Folha - Que relação o sr. faz entre a ascensão de Bush ao poder e a tragédia de ontem?
Alencastro Alencastro - Essa ação terrorista já estava preparada há meses e talvez há anos, muito provavelmente. Mas Bush será cobrado pela notória incompetência dos serviços de contra-espionagem americanos: como o preparo de um ato dessa envergadura não foi detectado pela CIA e serviços anexos?
Bush também será criticado pela virada isolacionista que ele estava dando na política externa americana: agora ele terá que intervir de verdade para apaziguar o conflito entre israelenses e palestinos.
Folha - Como explicar a vulnerabilidade da segurança americana?
Alencastro Alencastro - Os especialistas ingleses explicam que os americanos não têm uma cultura de segurança pública similar a que a Inglaterra criou por causa dos ataques do IRA e a França em razão dos ataques dos radicais islamistas argelinos.
Folha - O episódio nos EUA ocorre num momento em que as economias centrais estão entrando num ciclo recessivo, caso dos EUA, ou estagnadas há anos, caso do Japão. É razoável supor agora um recrudescimento da crise mundial?
Alencastro Alencastro - O aumento da tensão internacional e a exacerbação do conflito no Oriente Médio complicam a retomada do crescimento econômico nos EUA. É certo também que as ações das companhias aéreas vão cair: medidas de controle reforçadas nos vôos aéreos domésticos e internacionais vão encarecer as viagens, aumentar os custos de segurança e tornar mais lenta a circulação dos passageiros etc.
Folha - Onde o sr. estava quando recebeu a notícia?
Alencastro Alencastro - Estava no TGV (trem-bala) que vinha da Bretanha (França), depois de um congresso de historiadores em Lorient. Vinha conversando com um colega canadense e, logo que a noticia se espalhou, transmitida pelos celulares dos passageiros, houve um começo de pânico porque esse tipo de trem já foi alvo de terroristas islâmicos na França.
Folha - Você espera algum tipo de retaliação às comunidades árabes e islâmicas que moram nos EUA? Em Detroit, onde vivem muitos árabes, havia ontem a recomendação de não saírem às ruas.
Alencastro Alencastro - Se ficar constatado que os terroristas se beneficiaram da cumplicidade dessas comunidades, haverá certamente problemas graves no futuro.
Folha - Quais as primeiras reações na Europa e em Paris?
Alencastro - A União Européia (UE) é uma aliada firme dos EUA nessas horas, e a Otan já prometeu participar da procura e da punição dos responsáveis. É possível que a Turquia, que tem muita autoridade entre os países e movimentos islâmicos, jogue um papel importante a partir de agora, forçando o isolamento dos grupos islâmicos radicais. A Turquia se prepara para entrar na UE e está cheia de boa vontade com os aliados ocidentais.
Colaborou VINICIUS PRECIOSO, da Redação
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
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