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12/09/2001
-
15h14
da Folha de S.Paulo
- É incrível. Eu pensei que estava assistindo a um filme de Hollywood.
Era Doris Tang, uma mulher comum de Hong Kong, falando à Fox News, canal de notícias concorrente da CNN.
Como ela e como Fátima Bernardes, que abriu e fechou o "Jornal Nacional" com a mesma comparação, a TV do mundo retratou o espetáculo de ontem com a consciência de tratar-se de um espetáculo.
A idéia de que o entretenimento se mesclou à realidade, apresentada em livros como "A Sociedade do Espetáculo" (67), ganhou ares hoje de consciência universal -dos terroristas que encenam o show de horror aos telespectadores que o assistem.
Mais até, tornou-se lugar-comum a consumir até os melhores críticos da "sociedade do espetáculo", como o americano Howard Kurz, do "Washington Post", que afirmava ontem:
- Era um filme de guerra se desenvolvendo na TV.
Era, mas já era assim na Guerra do Golfo, há dez anos.
A diferença agora é que até a mulher de Hong Kong acha que é. E ainda assim ela se entorpece e perde a capacidade de reagir diante do horror, pois tal horror, visto na televisão, tem o poder de entreter.
O "filme de guerra" durou uma hora e meia, nas cronologias da CNN e da BBC, entre as cenas da primeira torre em chamas e a queda da segunda.
Na locução de tal espetáculo, Carlos Nascimento, da Globo, a exemplo dos âncoras da CNN, não poderia ter sido menos espetacular. Seu único instante de exaltação:
- A torre está caindo. Está no chão o World Trade Center, um dos maiores símbolos do poder econômico dos Estados Unidos. O mundo está perplexo, parado diante da TV, vendo aquilo que ninguém podia imaginar.
De certo modo, no instante em que a consciência do espetáculo se estendeu ao ponto do clichê, a televisão dá sinais de não querer ir além da realidade.
Entretenimento por entretenimento, nesse gênero que se confunde com realidade, o sequestro do animador Silvio Santos venceu o terror hollywoodiano junto à audiência brasileira (leia texto nesta página).
Talvez por isso a Globo tenha saído logo da cobertura, enquanto redes como Bandeirantes e Rede TV! apelavam:
- Astrologia explica atentado terrorista... Nostradamus coloca tragédia como estopim da Terceira Guerra Mundial.
É o entretenimento que leva ao torpor, diante do horror.
Não faltaram cenários de Apocalipse nas análises da TV, para além de Nostradamus.
Mas ontem mesmo, encerrando o dia, um calmo George W. Bush entrou ao vivo, até no Brasil, para anunciar a abertura dos mercados e dos prédios públicos, para hoje, normalmente.
E vieram as telenovelas, o esporte, os vários programas -e todo o entretenimento de ficção que faz um dia depois do outro.
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
Nelson de Sá: TV transmite, consciente, o espetáculo
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- É incrível. Eu pensei que estava assistindo a um filme de Hollywood.
Era Doris Tang, uma mulher comum de Hong Kong, falando à Fox News, canal de notícias concorrente da CNN.
Como ela e como Fátima Bernardes, que abriu e fechou o "Jornal Nacional" com a mesma comparação, a TV do mundo retratou o espetáculo de ontem com a consciência de tratar-se de um espetáculo.
A idéia de que o entretenimento se mesclou à realidade, apresentada em livros como "A Sociedade do Espetáculo" (67), ganhou ares hoje de consciência universal -dos terroristas que encenam o show de horror aos telespectadores que o assistem.
Mais até, tornou-se lugar-comum a consumir até os melhores críticos da "sociedade do espetáculo", como o americano Howard Kurz, do "Washington Post", que afirmava ontem:
- Era um filme de guerra se desenvolvendo na TV.
Era, mas já era assim na Guerra do Golfo, há dez anos.
A diferença agora é que até a mulher de Hong Kong acha que é. E ainda assim ela se entorpece e perde a capacidade de reagir diante do horror, pois tal horror, visto na televisão, tem o poder de entreter.
O "filme de guerra" durou uma hora e meia, nas cronologias da CNN e da BBC, entre as cenas da primeira torre em chamas e a queda da segunda.
Na locução de tal espetáculo, Carlos Nascimento, da Globo, a exemplo dos âncoras da CNN, não poderia ter sido menos espetacular. Seu único instante de exaltação:
- A torre está caindo. Está no chão o World Trade Center, um dos maiores símbolos do poder econômico dos Estados Unidos. O mundo está perplexo, parado diante da TV, vendo aquilo que ninguém podia imaginar.
De certo modo, no instante em que a consciência do espetáculo se estendeu ao ponto do clichê, a televisão dá sinais de não querer ir além da realidade.
Entretenimento por entretenimento, nesse gênero que se confunde com realidade, o sequestro do animador Silvio Santos venceu o terror hollywoodiano junto à audiência brasileira (leia texto nesta página).
Talvez por isso a Globo tenha saído logo da cobertura, enquanto redes como Bandeirantes e Rede TV! apelavam:
- Astrologia explica atentado terrorista... Nostradamus coloca tragédia como estopim da Terceira Guerra Mundial.
É o entretenimento que leva ao torpor, diante do horror.
Não faltaram cenários de Apocalipse nas análises da TV, para além de Nostradamus.
Mas ontem mesmo, encerrando o dia, um calmo George W. Bush entrou ao vivo, até no Brasil, para anunciar a abertura dos mercados e dos prédios públicos, para hoje, normalmente.
E vieram as telenovelas, o esporte, os vários programas -e todo o entretenimento de ficção que faz um dia depois do outro.
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
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