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13/09/2001
-
09h19
MÁRCIO SENNE DE MORAES
da Folha de S.Paulo
A Rússia pretende propor a criação de uma agência internacional contra o terrorismo na Organização das Nações Unidas (ONU), e o presidente Vladimir Putin exortou a comunidade internacional a combinar esforços para lutar contra o que chama de "rede terrorista internacional".
O secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, por sua vez, contatou ontem líderes estrangeiros em busca de apoio para uma "resposta coordenada ao ataque ao mundo civilizado" realizado por terroristas, que provocaram tragédias em Nova York e em Washington.
Contudo especialistas em segurança internacional acreditam que os objetivos da Rússia e dos EUA divirjam, pois Putin pretende aproveitar a oportunidade para recolocar a Rússia entre os países mais influentes do planeta e Powell busca a anuência dos aliados dos EUA a um eventual ataque americano contra grupos ou países que apoiaram os atentados ocorridos anteontem.
"A Rússia quer assegurar um lugar entre as potências mundiais, e a luta contra o terrorismo é a melhor desculpa para aproximar-se delas atualmente", analisou Robert Rotberg, presidente da Fundação para a Paz Mundial.
"Moscou enfrenta o problema tchetcheno. Indubitavelmente, trata-se de uma ótima chance para legitimar suas ações contra os tchetchenos, que são descritos como terroristas pelo governo russo", indicou John C. Reppert, diretor-executivo do Centro Belfer para Ciência e Relações Internacionais da Universidade Harvard.
Para Rotberg, Powell quer garantir o apoio internacional à reação americana. "A intenção do secretário de Estado é a de ter a União Européia e a Rússia ao lado de Washington em qualquer decisão que os EUA decidam tomar após identificarem os autores dos atentados. É isso que ele chama de "coordenação internacional"."
A interpretação da declaração oficial divulgada pela Otan ontem indica que Powell já atingiu seu objetivo. Afinal, a aliança militar ocidental invocou a cláusula de defesa mútua pela primeira vez em sua história, abrindo caminho para uma eventual resposta coletiva aos atentados.
"O Conselho da Otan determinou que, se ficar provado que houve um atentado dirigido do exterior contra os EUA, esse ato deverá ser coberto pelo artigo que prevê que um ataque contra um aliado constitui um ataque contra todos os membros da aliança", declarou George Robertson, secretário-geral da Otan.
Mecanismo internacional
A proposta de criação de mecanismos internacionais para combater o terrorismo não é desprovida de sentido, no entanto isso não deve ocorrer dentro do sistema da ONU, como quer Putin.
"Não creio que a agência ou o que quer que seja criado para lutar contra a ameaça terrorista possa funcionar dentro do sistema das Nações Unidas, pois os EUA não concordariam com isso. Afinal, a ONU é dominada por países menos desenvolvidos", apontou Rotberg.
"Uma boa alternativa seria colocar o novo órgão sob a égide da OCDE [Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico] ou da Otan, entretanto esta última possibilidade não agradaria aos russos", acrescentou Rotberg, editor de "Politics and Political Change" (política e mudança política).
Já Reppert, general da reserva do Exército americano com 33 anos de serviço ativo, crê que o esforço conjunto contra o terrorismo deva ser realizado num fórum internacional, mas de modo bilateral. "A história tem mostrado que o intercâmbio é mais eficaz se realizado de forma bilateral."
"Quando devemos tratar de assuntos altamente sensíveis, como informações sobre grupos terroristas, os segredos só são revelados se há confiança mútua, e isso só ocorre em reuniões bilaterais."
Contudo, para ele, é essencial que esse intercâmbio exista, pois a "falta de humildade dos EUA no que se refere à troca de informações com outros países também foi responsável" pelas tragédias da Costa Leste americana.
Rede terrorista
Os especialistas ouvidos pela Folha não acreditam que haja uma rede de terrorismo internacional, como afirma Putin. De acordo com eles, os grupos terroristas são pequenos e fragmentados embora compartilhem informações entre si.
"Não creio na existência de uma rede organizada de terroristas. Há diversos pequenos grupos independentes com objetivos e inimigos diferentes", disse Reppert.
"Os grupos são fragmentados. O problema em relação ao terrorismo é que não há centralização, trata-se de um inimigo em constante transformação. Osama bin Laden, por exemplo, não deve ter mais do que algumas centenas de homens sob seu comando", explicou Rotberg.
"Além disso, os grupos mantêm contato entre si, como mostra o fato de que supostos membros do IRA [Exército Republicano Irlandês] foram presos recentemente na Colômbia, pois tinham ligação com rebeldes marxistas do país."
Ademais, como o terrorismo é um fenômeno que atinge países em todo o planeta, uma forma de coordenação internacional de seu combate só poderia ser positiva. Afinal, dentro de um órgão específico, os líderes da comunidade internacional também poderiam expor suas experiências relacionadas ao problema.
"Mesmo que o intercâmbio de informações seja bilateral, os chefes das agências nacionais antiterrorismo poderiam ao menos expor resultados num fórum global", disse Rotberg.
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
Ação global antiterror deve excluir ONU
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da Folha de S.Paulo
A Rússia pretende propor a criação de uma agência internacional contra o terrorismo na Organização das Nações Unidas (ONU), e o presidente Vladimir Putin exortou a comunidade internacional a combinar esforços para lutar contra o que chama de "rede terrorista internacional".
O secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, por sua vez, contatou ontem líderes estrangeiros em busca de apoio para uma "resposta coordenada ao ataque ao mundo civilizado" realizado por terroristas, que provocaram tragédias em Nova York e em Washington.
Contudo especialistas em segurança internacional acreditam que os objetivos da Rússia e dos EUA divirjam, pois Putin pretende aproveitar a oportunidade para recolocar a Rússia entre os países mais influentes do planeta e Powell busca a anuência dos aliados dos EUA a um eventual ataque americano contra grupos ou países que apoiaram os atentados ocorridos anteontem.
"A Rússia quer assegurar um lugar entre as potências mundiais, e a luta contra o terrorismo é a melhor desculpa para aproximar-se delas atualmente", analisou Robert Rotberg, presidente da Fundação para a Paz Mundial.
"Moscou enfrenta o problema tchetcheno. Indubitavelmente, trata-se de uma ótima chance para legitimar suas ações contra os tchetchenos, que são descritos como terroristas pelo governo russo", indicou John C. Reppert, diretor-executivo do Centro Belfer para Ciência e Relações Internacionais da Universidade Harvard.
Para Rotberg, Powell quer garantir o apoio internacional à reação americana. "A intenção do secretário de Estado é a de ter a União Européia e a Rússia ao lado de Washington em qualquer decisão que os EUA decidam tomar após identificarem os autores dos atentados. É isso que ele chama de "coordenação internacional"."
A interpretação da declaração oficial divulgada pela Otan ontem indica que Powell já atingiu seu objetivo. Afinal, a aliança militar ocidental invocou a cláusula de defesa mútua pela primeira vez em sua história, abrindo caminho para uma eventual resposta coletiva aos atentados.
"O Conselho da Otan determinou que, se ficar provado que houve um atentado dirigido do exterior contra os EUA, esse ato deverá ser coberto pelo artigo que prevê que um ataque contra um aliado constitui um ataque contra todos os membros da aliança", declarou George Robertson, secretário-geral da Otan.
Mecanismo internacional
A proposta de criação de mecanismos internacionais para combater o terrorismo não é desprovida de sentido, no entanto isso não deve ocorrer dentro do sistema da ONU, como quer Putin.
"Não creio que a agência ou o que quer que seja criado para lutar contra a ameaça terrorista possa funcionar dentro do sistema das Nações Unidas, pois os EUA não concordariam com isso. Afinal, a ONU é dominada por países menos desenvolvidos", apontou Rotberg.
"Uma boa alternativa seria colocar o novo órgão sob a égide da OCDE [Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico] ou da Otan, entretanto esta última possibilidade não agradaria aos russos", acrescentou Rotberg, editor de "Politics and Political Change" (política e mudança política).
Já Reppert, general da reserva do Exército americano com 33 anos de serviço ativo, crê que o esforço conjunto contra o terrorismo deva ser realizado num fórum internacional, mas de modo bilateral. "A história tem mostrado que o intercâmbio é mais eficaz se realizado de forma bilateral."
"Quando devemos tratar de assuntos altamente sensíveis, como informações sobre grupos terroristas, os segredos só são revelados se há confiança mútua, e isso só ocorre em reuniões bilaterais."
Contudo, para ele, é essencial que esse intercâmbio exista, pois a "falta de humildade dos EUA no que se refere à troca de informações com outros países também foi responsável" pelas tragédias da Costa Leste americana.
Rede terrorista
Os especialistas ouvidos pela Folha não acreditam que haja uma rede de terrorismo internacional, como afirma Putin. De acordo com eles, os grupos terroristas são pequenos e fragmentados embora compartilhem informações entre si.
"Não creio na existência de uma rede organizada de terroristas. Há diversos pequenos grupos independentes com objetivos e inimigos diferentes", disse Reppert.
"Os grupos são fragmentados. O problema em relação ao terrorismo é que não há centralização, trata-se de um inimigo em constante transformação. Osama bin Laden, por exemplo, não deve ter mais do que algumas centenas de homens sob seu comando", explicou Rotberg.
"Além disso, os grupos mantêm contato entre si, como mostra o fato de que supostos membros do IRA [Exército Republicano Irlandês] foram presos recentemente na Colômbia, pois tinham ligação com rebeldes marxistas do país."
Ademais, como o terrorismo é um fenômeno que atinge países em todo o planeta, uma forma de coordenação internacional de seu combate só poderia ser positiva. Afinal, dentro de um órgão específico, os líderes da comunidade internacional também poderiam expor suas experiências relacionadas ao problema.
"Mesmo que o intercâmbio de informações seja bilateral, os chefes das agências nacionais antiterrorismo poderiam ao menos expor resultados num fórum global", disse Rotberg.
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
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