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13/09/2001
-
09h21
PAULO DANIEL FARAH
da Folha de S.Paulo
O fortalecimento do discurso maniqueísta do governo norte-americano, evidenciado na promessa do presidente George W. Bush de promover uma "batalha monumental do bem contra o mal", pode favorecer a radicalização de inimigos externos e internos dos Estados Unidos, abrindo caminho para um círculo vicioso de violência e um clima de insegurança mundial, segundo analistas políticos ouvidos pela Folha.
"O ideal seria reconhecer as divergências históricas, culturais e ideológicas buscando uma integração, não a simplificação forçada a que começam a sucumbir", alega a professora de sociologia Robin Wagner-Pacifici, da Faculdade Swarthmore (Pensilvânia).
"Seria necessária uma abordagem inovadora e corajosa para resolver situações potencialmente perigosas como a que vivemos", diz a socióloga, autora de livros sobre embates entre o governo dos EUA e grupos anti-sistema.
Evidentemente, não se trata de enaltecer a ação de terroristas, mas a imposição de um modelo político, econômico e militar único - com o estigma da exclusão para os que não optam pelo caminho ditado em Washington - favorece idéias extremistas.
Segundo Amy Sands, diretora-assistente do Centro para Estudos de Não-Proliferação de Armas dos EUA, pessoas que integram uma comunidade segregada muitas vezes "passam a ter uma forma diferente de moral e valores".
"Missão"
O terrorismo, nesse caso, viria como uma "missão", a de mostrar que o bem não possui apenas um representante legítimo (em geral, o modelo ocidental). A morte passaria a ser uma forma válida de alcançar objetivos.
"Estamos em uma batalha monumental do bem contra o mal", disse Bush ontem, após uma reunião na Casa Branca com o Conselho de Segurança norte-americano em que analisou o andamento das operações de resgate e da investigação dos atentados.
Para Sands, especialista em terrorismo e armas de destruição em massa, incluindo armas nucleares, biológicas e químicas, a declaração do presidente pode abrir caminho para manifestações xenofóbicas e uma eventual caça às bruxas, tanto nos EUA - onde parte dos cidadãos de ascendência árabe já evita sair às ruas - quanto em diversas regiões do mundo - não apenas onde a popularidade norte-americana é baixa.
Em Paris, a Embaixada dos EUA pediu que cidadãos norte-americanos evitassem falar inglês na rua. "Tentem se manter discretos como norte-americanos, evitem falar inglês nas ruas. Nunca se sabe." Recomendações semelhantes foram feitas em Estados do golfo Pérsico.
Para o psicólogo norte-americano Clark McCauley, autor de "Estereótipo e Meticulosidade: Por uma Apreciação de diferenças de grupo", a defesa de uma suposta supremacia e o consequente isolamento de certos movimentos podem gerar um círculo vicioso de violência.
"A maior parte de nós pertence a diversos grupos, cada um com certa influência sobre nossas crenças e nosso comportamento. Mas, quando integramos um movimento que se torna nosso único grupo, o poder dele sobre nós fica concentrado e muitas vezes nos torna cegos aos direitos do outro. Esse é o verdadeiro poder de pequenos grupos militares ou de cunho religioso", diz McCauley.
O especialista afirma que psicologicamente não há nada de errado com as pessoas consideradas extremistas. "Qualquer um de nós é capaz de um comportamento extremista por uma causa que defendemos", argumenta.
Para McCauley, também autor de "Pesquisando o Terrorismo", "muitos extremistas chegam a desejar uma retaliação [do país atacado], confiantes de que o contra-ataque não vai atingi-los e pode radicalizar aqueles que não foram atingidos. Por exemplo, quando os EUA atacam Trípoli (capital da Líbia) para tentar atingir Gaddafi [Muammar Gaddafi, líder líbio], mas matam civis no lugar, isso só radicaliza as opiniões".
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
Para analistas, maniqueísmo favorece violência
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da Folha de S.Paulo
O fortalecimento do discurso maniqueísta do governo norte-americano, evidenciado na promessa do presidente George W. Bush de promover uma "batalha monumental do bem contra o mal", pode favorecer a radicalização de inimigos externos e internos dos Estados Unidos, abrindo caminho para um círculo vicioso de violência e um clima de insegurança mundial, segundo analistas políticos ouvidos pela Folha.
"O ideal seria reconhecer as divergências históricas, culturais e ideológicas buscando uma integração, não a simplificação forçada a que começam a sucumbir", alega a professora de sociologia Robin Wagner-Pacifici, da Faculdade Swarthmore (Pensilvânia).
"Seria necessária uma abordagem inovadora e corajosa para resolver situações potencialmente perigosas como a que vivemos", diz a socióloga, autora de livros sobre embates entre o governo dos EUA e grupos anti-sistema.
Evidentemente, não se trata de enaltecer a ação de terroristas, mas a imposição de um modelo político, econômico e militar único - com o estigma da exclusão para os que não optam pelo caminho ditado em Washington - favorece idéias extremistas.
Segundo Amy Sands, diretora-assistente do Centro para Estudos de Não-Proliferação de Armas dos EUA, pessoas que integram uma comunidade segregada muitas vezes "passam a ter uma forma diferente de moral e valores".
"Missão"
O terrorismo, nesse caso, viria como uma "missão", a de mostrar que o bem não possui apenas um representante legítimo (em geral, o modelo ocidental). A morte passaria a ser uma forma válida de alcançar objetivos.
"Estamos em uma batalha monumental do bem contra o mal", disse Bush ontem, após uma reunião na Casa Branca com o Conselho de Segurança norte-americano em que analisou o andamento das operações de resgate e da investigação dos atentados.
Para Sands, especialista em terrorismo e armas de destruição em massa, incluindo armas nucleares, biológicas e químicas, a declaração do presidente pode abrir caminho para manifestações xenofóbicas e uma eventual caça às bruxas, tanto nos EUA - onde parte dos cidadãos de ascendência árabe já evita sair às ruas - quanto em diversas regiões do mundo - não apenas onde a popularidade norte-americana é baixa.
Em Paris, a Embaixada dos EUA pediu que cidadãos norte-americanos evitassem falar inglês na rua. "Tentem se manter discretos como norte-americanos, evitem falar inglês nas ruas. Nunca se sabe." Recomendações semelhantes foram feitas em Estados do golfo Pérsico.
Para o psicólogo norte-americano Clark McCauley, autor de "Estereótipo e Meticulosidade: Por uma Apreciação de diferenças de grupo", a defesa de uma suposta supremacia e o consequente isolamento de certos movimentos podem gerar um círculo vicioso de violência.
"A maior parte de nós pertence a diversos grupos, cada um com certa influência sobre nossas crenças e nosso comportamento. Mas, quando integramos um movimento que se torna nosso único grupo, o poder dele sobre nós fica concentrado e muitas vezes nos torna cegos aos direitos do outro. Esse é o verdadeiro poder de pequenos grupos militares ou de cunho religioso", diz McCauley.
O especialista afirma que psicologicamente não há nada de errado com as pessoas consideradas extremistas. "Qualquer um de nós é capaz de um comportamento extremista por uma causa que defendemos", argumenta.
Para McCauley, também autor de "Pesquisando o Terrorismo", "muitos extremistas chegam a desejar uma retaliação [do país atacado], confiantes de que o contra-ataque não vai atingi-los e pode radicalizar aqueles que não foram atingidos. Por exemplo, quando os EUA atacam Trípoli (capital da Líbia) para tentar atingir Gaddafi [Muammar Gaddafi, líder líbio], mas matam civis no lugar, isso só radicaliza as opiniões".
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