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13/09/2001 - 09h29

"Novo terrorismo é incontrolável", diz historiador

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MAURÍCIO SANTANA DIAS
da Folha de S.Paulo

Os EUA aprenderam durante o governo de Bill Clinton que ações militares drásticas como as da Guerra do Golfo não são a forma mais eficaz de resolver problemas internacionais. Essa é a opinião do historiador inglês Kenneth Maxwell, membro do Council on Foreign Relations (Conselho para Relações Exteriores) de Nova York e autor de livros como "A Devassa da Devassa", sobre a Inconfidência Mineira.

O grande temor de Maxwell é que a pressão pública, estimulada pela mídia e por um Congresso conservador, force o governo a tomar atitudes precipitadas - caso se comprove que o atentado partiu de algum país islâmico.

O historiador, que no momento do ataque ao World Trade Center estava voando de Nova York para Washington DC, acha que os acontecimentos da terça-feira irão redefinir a atual geopolítica. "A vulnerabilidade dos EUA vai mudar o equilíbrio de forças internacionais daqui para a frente".

"Tudo ainda se parece muito com um filme", diz o historiador, que concedeu entrevista à Folha por telefone, de Connecticut.


Folha - Já é possível prever quais as consequências do atentado?

Kenneth Maxwell
- As consequências do que aconteceu, quaisquer que elas sejam, ainda não são inteiramente visíveis, apesar das imagens que todos viram. Só na próxima semana ou daqui a três ou quatro dias vamos saber quantas pessoas foram mortas no World Trade Center, e isso vai provocar uma reação popular cada vez mais dura. Por enquanto as pessoas estão em estado de choque. Tudo ainda se parece como um filme, elas ainda não se deram conta das consequências humanas do atentado.

Acredito que, a partir daí, a situação ficará bastante traumática. É provável que haja milhares de pessoas envolvidas. Justamente agora eu estava lendo um relatório do Congresso americano, e o interessante é que o documento menciona armas biológicas ou similares, mas em nenhum momento faz referência ao tipo de ataque ocorrido. O que aconteceu foi algo muito mais simples, uma falha de segurança nos aeroportos, com vôos domésticos.

Folha - A imprensa tem comparado o atentado a Pearl Harbor. O que o sr. acha da analogia?

Maxwell
- Acho que hoje há um fator de pressão muito importante que não havia em 1941. Antes as notícias chegavam pelo rádio, as imagens eram escassas. Hoje a mídia expõe tudo instantaneamente, os jornalistas são quase sempre agressivos, e tudo isso provoca um impacto muito forte nas pessoas, que rapidamente se mobilizam e pressionam por ações enérgicas do governo. Para não falar no Congresso, que também está pressionando bastante.

Folha - Ontem já havia notícias de árabes detidos como suspeitos. Como fica a situação das comunidades árabes que moram nos EUA?

Maxwell
- Esse é um ponto complicado, mesmo porque há uma grande população islâmica vivendo nos EUA, sobretudo em Ohio e em grandes cidades, como a própria Nova York. Mas até este momento não houve nenhum tipo de reação ou retaliação a essas pessoas. O problema mais sério é se o governo vai adotar uma atitude radical em relação a países árabes.

Folha - O sr. teme uma atitude intempestiva do governo de George W. Bush?

Maxwell
- Há este risco, principalmente se levarmos em conta a recente política externa do governo americano. Os atentados talvez propiciem uma política mais multilateral entre os países. E os EUA, na condição de país mais forte do mundo, não contavam com isso. Seguramente a vulnerabilidade dos EUA vai mudar o equilíbrio de forças internacionais. Nesse aspecto o impacto será profundo. A grande ironia é que, no momento em que os ataques aconteceram, as figuras-chave do governo estavam fora de Washington: o secretário do Tesouro estava na Ásia, Colin Powell estava no Peru e Bush, na Flórida. Não havia ninguém no "centro".

Folha - O sr. acha que os EUA poderiam tender a um isolacionismo?

Maxwell
- Eu particularmente acredito que pode haver uma tendência oposta, de uma política externa mais ativa e eficiente. Acho por exemplo que o secretário de Estado Colin Powell sairá fortalecido do episódio e assumirá um papel mais relevante dentro do governo, já que ele é uma pessoa com mais experiência no meio internacional e com maior capacidade de negociação.

Folha - Que tipo de reação pode vir quando os autores do atentado forem descobertos?

Maxwell
- Acho que vai haver algum tipo de ação militar, que possivelmente envolverá outros países, e esta ação passaria pela Otan. Mas também acredito que haverá um grande entendimento com a comunidade internacional e a União Européia, mesmo porque os ingleses e os espanhóis estão muito sujeitos ao terrorismo do IRA e do ETA.

Folha - Caso se verifique que a ação partiu de algum país islâmico, como por exemplo o Afeganistão, quais seriam as proporções de uma ofensiva americana?

Maxwell
- Acho que será uma reação forte. Mas não creio que seja algo parecido à guerra contra o Iraque. Os EUA aprenderam durante a administração Clinton que esse tipo de confronto não é o mais eficaz, porque depois gera atentados como os que houve às embaixadas americanas na África, organizados por Osama bin Laden. Penso que será uma operação combinada, que envolverá ações de caráter militar e sanções de outro tipo. O que me preocupa é que as pressões públicas serão cada dia mais fortes. Quando o número de mortos vier à tona, poderemos ter uma idéia da dimensão do problema e, consequentemente, das possíveis retaliações.

Folha - O especialista em terrorista Brian Jenkins afirmou que, nos EUA, "o perigo interno é maior que o externo". O que o sr. pensa disso?

Maxwell
- Neste caso específico há poucas indicações de um envolvimento com grupos de extrema direita americana - ou com o que ocorreu em Oklahoma, por exemplo. Isso se parece muito com o "novo terrorismo", que é muito mais amorfo e disseminado, difícil de identificar. A principal característica desse "novo terrorismo" é que ele ataca sobretudo os civis. Eles querem o maior número de mortos e a maior visibilidade possíveis. É muito difícil se proteger desse tipo de ataque.

Folha - Os organismos internacionais de hoje são capazes de dar conta desse novo tipo de violência?

Maxwell
- Infelizmente a única coisa que se pode fazer é buscar mais organização e colaboração entre os Estados, o que já vem sendo feito há bastante tempo em várias comissões antiterrorismo. Mas este atentado foi feito com aviões domésticos, e não com mísseis ou bombas. Como se proteger de pessoas que estão dispostas a morrer por seus objetivos?

Folha - O sr. tinha colegas que trabalhavam no WTC?

Maxwell
- O Council on Foreign Relations tinha contato com escritórios que funcionavam lá. Acho muito provável que a gente venha a descobrir que colegas morreram no atentado. Por ora estamos vivendo numa espécie de limbo, nenhuma lista oficial foi divulgada. Tenho muito medo do que pode ser revelado daqui a poucos dias.


Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
 

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