Saltar para o conteúdo principal

Publicidade

Publicidade

 
 
  Siga a Folha de S.Paulo no Twitter
13/09/2001 - 09h31

Análise: Horror, espetáculo e fundamentalismos

Publicidade

MARCELO COELHO
da Folha de S.Paulo

Fim de mundo, invasão marciana, Godzilla, King Kong: o ataque ao World Trade Center imita um filme-catástrofe, não há dúvida. O cinema americano certamente inspirou os autores dessa barbaridade, até mesmo pelo senso do espetáculo, pelo ritmo estudado e preciso com que as cenas de horror se sucederam. Não vou dizer que Deus é grande, mas Spielberg é seu profeta.

A questão talvez seja outra. Trata-se de saber se as profecias de Hollywood - a tão famosa "fábrica de sonhos" - correspondem a algum desejo secreto da sociedade americana. Não pretendo fazer psicanálise barata, e é claro que ninguém quer ver milhares de inocentes trucidados em nome de não sei que princípio religioso ou doutrina política.

Mas um ataque brutal, simultâneo, imprevisto, covarde, sem declaração de guerra, fruto da pura estupidez, funciona perfeitamente para que o imenso potencial bélico americano agora possa ser empregado sem as supostas boas maneiras de país civilizado. Somos bons, justos, liberais, OK, mas vocês passaram dos limites e agora vão ter chumbo: este é basicamente o roteiro de todo filme americano.

O problema é que, até agora, os incontáveis bombardeios e atos de terror protagonizados pelos Estados Unidos tinham adversários remotos, justificativas longínquas. Quantos milhares de crianças morreram nos bombardeios ao Iraque? Quantos alvos civis foram atingidos "por falha técnica" nos ataques à Sérvia? Como se pode condenar o terrorismo depois de ter usado o napalm no Vietnã? Isso para não falar de Hiroshima e Nagasaki.

Com o ataque ao WTC e ao Pentágono, as coisas se descomplicam. O foco narrativo ganha nitidez: está na hora de John Wayne entrar em cena, e ele não precisa ficar dando muitas explicações sobre geopolítica, nem perder tempo expondo os intrincados problemas da península balcânica ou do Oriente Médio.

Ataque terrorista? Não sei se é bem este o termo. Uma coisa é a ação de um grupo extremista contra um Estado constituído - as bombas do ETA, por exemplo.

Outra coisa é um confronto internacional que, em vez do tradicional choque entre exércitos, se expressa por uma alternância de atentados bárbaros à população civil.

A autoria do último atentado é ainda desconhecida; mas não há dúvida sobre quais as forças que estão em guerra. Uma guerra descontínua, anônima, de tipo viral, mas guerra ainda assim.

Se me perguntarem, é claro que prefiro Bush a Bin Laden, os republicanos ao Taleban. Mas não é obrigatório pensar se é melhor bombardear Manhattan ou destruir Cabul.

Leio o discurso de Bush. "Os EUA foram alvo de ataques porque nós somos a mais resplandecente chama da liberdade e das oportunidades no mundo. Ninguém impedirá essa luz de continuar brilhando." É um tanto fundamentalista para o meu gosto, e essa chama da liberdade já matou gente demais.

Um ensaísta que respeito muito, o português Eduardo Lourenço, declara que as duas torres destruídas "eram um símbolo de força econômica e da potência política dos EUA, mas também um patrimônio da cultura ocidental do século 20, um marco da cultura moderna." Patrimônio da cultura moderna? Não sabia.

Como todo mundo, vi com estupefação a cena de crianças e adultos palestinos comemorando o morticínio com bandeiras e buzinaços, como se fosse uma vitória de time de futebol. Atitude detestável, a desses palestinos; não o suficiente, entretanto, para que sejam bombardeados. Lamento as vítimas americanas; não que o Pentágono seja atingido.

Uma das crianças, aliás, aparecia na foto com uma camisa da seleção brasileira. Isso não vem muito ao caso; só observo que não há por que entrar num clima automático de torcida, muito menos quando os hooligans estão à solta.

Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
 

Publicidade

Publicidade

Publicidade


Voltar ao topo da página