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14/09/2001 - 03h23

Análise: "Você tem sido um grande líder"

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NELSON DE SÁ
editor da Ilustrada

George W. Bush chorou diante do mundo, ao vivo -ou pelo menos ficou com olhos molhados e voz embargada, diante das câmeras que ele mesmo havia chamado.

Lutando com as lágrimas, afirmava, ao mesmo tempo, que iria "liderar o mundo à vitória".

A expressão que ele e a TV americana (CNN pelo cabo, as outras pela internet) mais transmitiram, sem esconder a tensão, foi "liderança". Não há maior sinal de falta dela.

Como não faltaram críticas, desde anteontem, precisamente à falta de liderança -a começar do sumiço na terça.

Diziam alguns comentaristas, sobretudo em jornais, que o
verdadeiro "líder" na reação era Rudolph Giuliani, o prefeito, não o presidente.

Bush armou então uma cena esdrúxula, telefonando ao próprio Giuliani, sempre diante das câmeras. E o prefeito fez seu papel, dizendo sem parar:

- Naquele dia terrível em que nossa cidade estava sendo atacada, você esteve em comunicação imediata conosco, senhor presidente, e ajudou a dar segurança à cidade. Pelo trabalho que você fez para nós, seremos eternamente gratos. Você tem sido um grande líder. E nós temos recebido ordens de você e nós estamos seguindo o seu exemplo. Você tem feito um grande trabalho, senhor presidente.

O governador de Nova York, republicano como o prefeito, foi exatamente na mesma linha, no mesmo telefonema.

E não parou aí. O líder democrata, Richard Gephardt, apareceu na ABC, também de manhã, dizendo que os parlamentares "ficarão ao lado do presidente para tomar qualquer ação que ele determinar que seja a melhor coisa a fazer".

Mas ainda havia a mancha do primeiro dia, quando Bush sumiu de Washington -e das câmeras. Não foi bastante o anúncio de que a Casa Branca e o avião presidencial eram supostos alvos. Era preciso mais.

E então assessores da Casa Branca saíram dizendo que Bush havia expresso sua irritação com o Serviço Secreto, por tirá-lo de cena em tal hora. Ele teria declarado:

- Eu não vou deixar um terrorista manter o presidente dos Estados Unidos fora da capital. O povo americano quer ver o seu presidente e quer vê-lo agora.

Só foi ver muito tarde, na terça, depois da viagem por Flórida, Louisiana e Nebraska. Daí a sofreguidão das aparições, agora, do "grande líder".

De um ex-secretário de Estado, comentando na CNN:

- Só há um jeito de começar a lidar com essa gente. Você tem que matar alguns deles, mesmo que não estejam imediatamente envolvidos na coisa.

Diante de declarações assim, Ken Auletta (de "Three Blind Mice", um dos melhores livros já escritos sobre a TV americana) comentou com Howard Kurtz, crítico de mídia como ele:

- Suas opiniões (dos comentaristas de TV) são independentes dos fatos. Eles fazem discursos, "nós temos que fazer alguma coisa", e obviamente refletem uma população que está frustrada e quer fazer alguma coisa. Mas nós não sabemos quem fez isso. Nós não sabemos o que faríamos, se soubéssemos. Mas a cultura da TV é nunca mostrar complexidade.
A cultura da TV ainda é capaz de inventar uma guerra.

Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
 

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