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14/09/2001 - 04h16

Artigo: Três lições para os Estados Unidos

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WILLIAM PFAFF
do "International Herald Tribune"

A primeira coisa que se deve dizer sobre os ataques a Nova York e Washington na terça-feira é que eles demonstraram a vulnerabilidade dos Estados Unidos, como a de qualquer outra sociedade moderna, a um ataque determinado e preparado com inteligência.

Oficiais das Forças Armadas e analistas civis e militares que trabalham para o setor de defesa dos EUA vêm, há décadas, criando cenários especulativos sobre ataques ao país, mas o trabalho deles invariavelmente foi dominado pela mentalidade de alta tecnologia que prevalece no Pentágono e pela inclinação da sociedade norte-americana à engenharia.

O planejamento contra esse tipo de ataque sempre sofreu devido à suposição, por parte dos responsáveis, de que os oponentes atacariam de maneira simétrica às defesas de que o país dispunha ou planejava instalar.

Assim, as especulações se concentraram no perigo de um ataque com armas de destruição em massa, provavelmente usando métodos de alta tecnologia A discussão envolvia principalmente ataques com mísseis, armas atômicas clandestinas e agentes biológicos. Os planejadores de defesa simplesmente não se interessaram pelo uso de aviões civis como potenciais armas.

A verdadeira lição, que não foi aprendida, nos foi dada quase 60 anos atrás, pouco antes do final da Segunda Guerra Mundial, quando um bombardeiro médio norte-americano, perdido no nevoeiro, se chocou com o Empire State Building, em Nova York, então o edifício mais alto do país.

A lição foi a de que métodos exóticos e alta tecnologia não são necessários para produzir resultados devastadores. Na terça, essa lição foi confirmada. Era preciso simplesmente fazer com que três aviões antiquados se chocassem contra alvos vulneráveis a fim de produzir pânico maciço nos Estados Unidos, a paralisação de quase todo o governo e a evacuação dos centros de Washington, Nova York e outras grandes cidades.

A segunda lição foi a de que as consequências psicológicas e políticas de um fato como esse não podem ser medidas primordialmente pela escala das vítimas, mas sim pelo inesperado e o aspecto dramático. Enquanto os atacantes ficarem anônimos, o medo e o pânico aumentam.

O efeito desejado era uma demonstração da vulnerabilidade dos alvos e da vulnerabilidade continuada daqueles que poderiam ser selecionados como alvos em um próximo ataque. Isso demonstra que defesas de alta tecnologia, como aquelas de que os EUA se vangloriam, podem facilmente ser evitadas, usando métodos simples. Demonstra que não existe defesa real contra um ataque anônimo que faz uso de recursos normais de uma sociedade em funcionamento.

Um ataque como esse será possível enquanto aviões civis continuarem voando, os trens estiverem em operação, os sistemas de energia e a infra-estrutura funcionarem. Cada recurso desses pode ser subvertido, explorado ou desviado de modo a prejudicar seus usuários e a sociedade em geral.

Mesmo um Estado totalitário e obcecado com segurança não teria como enfrentar esse tipo de ameaça, ainda que as liberdades civis básicas fossem suprimidas. É extremamente importante que esse ponto seja compreendido, porque haverá duas reações naturais ao que aconteceu, ambas essencialmente fúteis.

Primeiro haverá pedidos repetidos de vingança contra quem quer que seja responsável, presumindo que o autor venha a ser identificado.

A inutilidade prática de uma vingança foi demonstrada repetidas vezes, e continua a sê-lo, no Oriente Médio, já que aqueles que empregam o terrorismo não funcionam com uma escala pragmática de valores de recompensa e punição. Como os israelenses descobriram, fazer dos inimigos mártires incita ao martírio.

A segunda reação será a de que os Estados Unidos precisam de defesas ainda mais elaboradas do que as existentes. Mas o Pentágono, a Agência Central de Inteligência (CIA), a Agência de Segurança Nacional (NSA) e o resto do aparelho norte-americano de segurança nacional foram incapazes de impedir os ataques da terça. Mesmo reformados, serão incapazes de impedir sua repetição em formato diferente.

Não existe defesa tecnológica contra esse tipo de ataque. Certamente, se nada mais resultar do ataque da terça-feira, ele terá demonstrado aos norte-americanos que o sistema nacional de defesa contra mísseis é fútil.
Há medidas regulares de segurança que podem ser adotadas ou reforçadas, mas a natureza dos ataques montados com base em funções regulares da sociedade significa que não existe defesa abrangente ou conclusiva. Toda a história do terrorismo nos séculos 19 e 20 o demonstra.

A lição final e mais profunda desses acontecimentos será a mais difícil de aceitar pelo governo, este governo em especial. É a de que a única defesa real contra ataque externo é um esforço real, sério, contínuo e corajoso para encontrar soluções políticas para os conflitos nacionais e ideológicos nos quais os Estados Unidos estão envolvidos.

A conclusão imediata que quase todo mundo extraiu sobre a origem desses ataques foi de que derivam do conflito entre israelenses e palestinos. É razoável supor que assim seja, embora não existam provas até agora.

Por mais de 30 anos, os Estados Unidos vêm-se recusando a realizar um esforço verdadeiramente imparcial para encontrar uma solução para aquele conflito. O país se envolveu na questão do Oriente Médio de mil maneiras, mas jamais aceitou a responsabilidade de tratar imparcialmente os dois lados presos em uma agonia comum e em uma tragédia mútua.
Se as especulações atuais sobre os ataques se provarem corretas, os Estados Unidos agora estão arcando com sua parcela da tragédia no Oriente Médio.

  • Tradução de Paulo Migliacci


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