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14/09/2001 - 04h22

Artigo: O terrorista suicida veio para ficar

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ROBERT FISK
do "The Independent"

Pouco tempo antes da Segunda Guerra Mundial, o primeiro-ministro britânico, Stanley Baldwin, afirmou que "o bombardeiro sempre vai chegar lá".

Hoje, podemos dizer que o terrorista suicida sempre vai chegar lá. Talvez não todos -pode ser que nunca venhamos a saber quantos outros sequestradores não conseguiram embarcar em vôos domésticos nos EUA na manhã da terça-feira-, mas em número suficiente para gerar uma carnificina em escala assombrosa.

No entanto nem começamos a estudar esse fenômeno. O terrorista suicida veio para ficar. Ele é uma arma exclusiva -pertence a "eles", não a nós- da qual, ao que parece, nenhuma potência militar é capaz de dar cabo.

Foi em parte por causa do terrorista suicida que os israelenses saíram do Líbano. Foi especificamente por causa de um terrorista suicida que os norte-americanos fugiram do Líbano 17 anos antes.

Ainda me recordo do então vice-presidente George Bush -atual George Bush, pai-, visivelmente comovido, entre os destroços da base dos fuzileiros navais dos EUA, em Beirute, onde 241 militares americanos acabavam de ser massacrados. "Não permitiremos que um bando de terroristas covardes e insidiosos abalem a política externa dos Estados Unidos", disse. "Nossa política externa não será ditada ou modificada pelo terror".

Meses depois, os marines fugiram do Líbano, "transferidos" para seus navios ao largo da costa.

Não faz muito tempo eu estava batendo papo com um militar indiano, veterano do envolvimento de Nova Déli na guerra do Sri Lanka e atualmente atuando junto à ONU no sul do Líbano. Perguntei a ele como são os terroristas suicidas tâmeis quando comparados aos do Hizbollah libanês. O militar ergueu as sobrancelhas.

"O Hizbollah é café pequeno comparado com eles", afirmou. "Imagine só, todos eles andam por aí sempre com uma cápsula de suicídio. Eu mandava meus homens andarem pelas estradas de Sri Lanka a 160 km/h caso um deles se atirasse contra o jipe".

O Hizbollah pode se inspirar no martírio do profeta Hussein e os terroristas suicidas palestinos podem tirar a deles do Hizbollah.

Mas não existe resposta militar a tudo isso. Enquanto "nosso" lado se dispuser a arriscar, mas não entregar sua vida, -a guerra livre de custos foi, afinal, uma invenção em parte norte-americana-, o terrorista suicida é a arma nuclear de que dispõe o outro lado.

No telefonema desesperado feito por uma passageira a caminho da morte no Boeing-767 atirado contra o Pentágono, ela disse a seu marido que os sequestradores estavam armados com facas e cortadores de papel -tudo o que é preciso para infligir uma derrota física avassaladora a uma superpotência. Isto e um avião carregado de combustível.

Mas o suicida não se enquadra num conjunto de características idênticas. Muitos dos jovens palestinos imaturos que se explodem -e, com frequência, os israelenses mais ingênuos, também- têm pouca ou nenhuma instrução formal. Possuem um conhecimento falho do Alcorão, mas um sentimento poderoso de fúria, de desespero e da justiça de sua causa -e é isso que os move.

Os suicidas do Hizbollah são mais versados no Alcorão, mais velhos e muitos contam com anos passados atrás das grades, uma experiência que ajuda a preparar seu espírito para enfrentar as horas que antecedem sua imolação.

Os suicidas desta terça-feira criaram um precedente. Se havia pelo menos quatro deles em cada um dos aviões sequestrados, isso significa que 16 homens decidiram matar-se ao mesmo tempo. Será que todos se conheciam (é pouco provável), ou que um deles conhecia a todos os outros? Uma coisa é certa: eles eram instruídos.

Se o Boeing que atingiu o Pentágono estava sendo pilotado por homens armados com facas -e, portanto, presume-se, os outros três aviões também-, não deixa de ser fato que eles eram suicidas munidos de um bom conhecimento operacional do painel de instrumentos de um dos aviões mais sofisticados do mundo.

Achei estranhamente revelador o que aconteceu quando, algumas horas mais tarde, um jornalista norte-americano me indagou sobre minha convicção de que esses homens devem ter embarcado nesses mesmos vôos regulares muitas vezes antes da terça.

Eles devem tê-lo feito, obrigatoriamente, para verificar quais eram os aparelhos de segurança usados nos aeroportos. Quantos tripulantes cada avião levava, o número médio de passageiros, o tempo médio de atraso. Eles precisariam verificar se a tripulação trancava a porta da cabine de comando -algo que, segundo o que eu já pude ver ao viajar em vôos domésticos norte-americanos, raramente é feito. Sim, esses homens eram cruéis e selvagens, mas também eram instruídos.

Como tantos de nossos políticos que costumam nos fazer as mesmas promessas de sempre, de que vão caçar e prender os culpados, a contribuição dada na quarta-feira por Tony Blair, ao falar em "desmontar a máquina do terror", passa ao largo do que é mais importante. Se essa máquina é composta de facas e cortadores de papel, Blair está atrás do alvo errado.

Foi o que aconteceu com o presidente Reagan, horas antes de ordenar o bombardeio à Líbia, em 1986. "Ele pode correr, mas não pode se esconder", falou, referindo-se ao coronel Gaddafi. Mas Gaddafi podia, sim, se esconder, tanto que ainda está entre nós.

Em lugar de tentar identificar mais "Estados renegados" -a referência feita pelo presidente Bush, júnior, abre caminho para o disparo de mais mísseis Cruise contra o Iraque, o Afeganistão ou onde quer que ele imagine que se encontrem "os padrinhos do terrorismo"-, os norte-americanos fariam melhor em tentar descobrir quem ensinou esses homens ferozes a pilotar um Boeing-767.

Que companhias aéreas do Oriente Médio treinam seus pilotos? Ou, de fato, que países são generosos em seus esquemas de treinamento de pilotos voltados a países do Terceiro Mundo?

Eu recordo um dos melhores pilotos iranianos pós-revolucionários me contando que recebeu treinamento no uso do Bell Augusta (o helicóptero da Guerra do Vietnã) da Força Aérea do Paquistão, que, por sua vez, pagou pilotos norte-americanos aposentados para ministrar os cursos.

No Oriente Médio, os árabes agora temem que os EUA vão atacá-los sem esperar por provas ou, então, agir com base nas evidências mais frágeis possíveis.

Vale notar como os EUA reagiram ao atentado de 1983 contra os marines. O navio de guerra New Jersey disparou seus morteiros do tamanho de automóveis contra as montanhas Chouf, matando um par de soldados e liquidando metade de um vilarejo. A chegada de navios de guerra norte-americanos à Costa Leste dos EUA, na quarta-feira, foi uma espécie de replay fantasmagórico desse acontecimento inútil.

Até hoje, entretanto, os EUA não descobriram a identidade do homem que conduziu um caminhão cheio de explosivos para dentro de um complexo dos marines em Beirute.

Isso aconteceu em outro país e em outra época. Os terroristas suicidas de hoje são uma estirpe diferente. Criado em sabe-se lá que clima de desespero ou miséria -ou mesmo, quem sabe, de privilégios-, o fato é que o terrorista suicida de 2001 é um que alcançou a maioridade.

  • Tradução de Clara Allain

    Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
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