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14/09/2001
-
04h25
MARCIO AITH
da Folha de S.Paulo, em Washington
Com meus dados pessoais expostos numa pequena tela, a moça de minha agência do Bank of America, a quatro quarteirões da Casa Branca, pergunta: "Você é palestino, árabe ou o quê?"
Ressabiado, questiono a razão da pergunta. "Só curiosidade. É por causa desse nome, Abu qualquer coisa", ela responde.
"É Abujamra", expliquei a ela, sem alimentar sua curiosidade. "É meu nome do meio. Herdei da minha mãe." A bancária, uma negra de uns 30 anos com unhas enormes, multicoloridas, mantinha a mesma cara fechada, estranha, de sempre. Enquanto verificava o andamento de meu pedido por um novo cartão, tentei me convencer de que seu mau humor era orgânico, não conjuntural.
Decidi melhorar o clima. Disse que sou brasileiro. Que venho do país do samba, do futebol. Ela concluiu seu trabalho, me devolveu a carteira de motorista e disse. "Eu sei, está nos seus dados. Mas esse nome parece árabe".
Na verdade, sou brasileiro e descendo de sírios e de libaneses. Não falo árabe e nunca fui ao Oriente Médio. Mas desisti da conversa. O mar nos EUA não está para peixes, principalmente os árabes. Estou num dos piores lugares para carregar hoje nomes como esse.
Fui embora da agência. Dois quarteirões depois, senti vontade de voltar. Fiquei inquieto, bravo. Num país obcecado pela febre politicamente correta e por indenizações milionárias, a moça não poderia ter feito o que fez. Talvez não saiba que milhares de negros norte-americanos são muçulmanos. O mundo não é tão simples, não é maniqueísta.
Pensei melhor e desisti. O tempo era curto. Engoli o orgulho e me dirigi ao prédio que sedia redações de jornais e revistas e escritórios de correspondentes. Passei em frente à Casa Branca, andando pela avenida Pensilvânia, reaberta ao público depois do caos causado pelo atentado contra o Pentágono. Nada de turistas onde japoneses, europeus e árabes tiravam fotos.
A imagem dos aviões batendo nas torres do World Trade Center voltou à minha mente. Os norte-americanos estão com raiva, muita raiva, e querem retaliar. Não há inimigos visíveis. Vai sobrar para quem carrega "Abu" no nome.
Ontem, uma multidão irada ameaçou depredar o "Bridgeview Mosque Center", um instituto muçulmano em Chicago. Um grupo de jovens com cabeças raspadas quis responsabilizar seus ocupantes pelos atentados de terça-feira. Relatos de ameaças contra pessoas de origem árabe e contra muçulmanos se multiplicam.
"Sejam muçulmanos, árabes árabes, árabes americanos ou árabes brasileiros, todos pagaremos", disse-me quarta Jenny Salan, do Instituto Árabe-Americano, em Washington, que fechou as portas ontem, depois de receber 50 telefonemas ameaçadores.
A situação está cada vez mais difícil. Ontem, o ex-presidente George Bush, pai do atual líder dos EUA, pediu aos norte-americanos que resistam à tendência de culpar árabes americanos e muçulmanos pelos ataques da última terça-feira. "Nossa nação deve ter em mente que há milhares de árabes americanos morando em Nova York. Eles amam nossa bandeira. Devemos tratar árabes americanos e muçulmanos com o respeito que merecem".
Depois de Pearl Harbor, norte-americanos montaram acampamentos para confinar descendentes de japoneses na Califórnia. Outro dia, soube que, à época, latino-americanos de origem nipônica também foram confinados, por terem olhos puxados.
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
Leia mais sobre os reflexos do terrorismo na economia
Márcio Aith: O mar não está para peixes árabes
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da Folha de S.Paulo, em Washington
Com meus dados pessoais expostos numa pequena tela, a moça de minha agência do Bank of America, a quatro quarteirões da Casa Branca, pergunta: "Você é palestino, árabe ou o quê?"
Ressabiado, questiono a razão da pergunta. "Só curiosidade. É por causa desse nome, Abu qualquer coisa", ela responde.
"É Abujamra", expliquei a ela, sem alimentar sua curiosidade. "É meu nome do meio. Herdei da minha mãe." A bancária, uma negra de uns 30 anos com unhas enormes, multicoloridas, mantinha a mesma cara fechada, estranha, de sempre. Enquanto verificava o andamento de meu pedido por um novo cartão, tentei me convencer de que seu mau humor era orgânico, não conjuntural.
Decidi melhorar o clima. Disse que sou brasileiro. Que venho do país do samba, do futebol. Ela concluiu seu trabalho, me devolveu a carteira de motorista e disse. "Eu sei, está nos seus dados. Mas esse nome parece árabe".
Na verdade, sou brasileiro e descendo de sírios e de libaneses. Não falo árabe e nunca fui ao Oriente Médio. Mas desisti da conversa. O mar nos EUA não está para peixes, principalmente os árabes. Estou num dos piores lugares para carregar hoje nomes como esse.
Fui embora da agência. Dois quarteirões depois, senti vontade de voltar. Fiquei inquieto, bravo. Num país obcecado pela febre politicamente correta e por indenizações milionárias, a moça não poderia ter feito o que fez. Talvez não saiba que milhares de negros norte-americanos são muçulmanos. O mundo não é tão simples, não é maniqueísta.
Pensei melhor e desisti. O tempo era curto. Engoli o orgulho e me dirigi ao prédio que sedia redações de jornais e revistas e escritórios de correspondentes. Passei em frente à Casa Branca, andando pela avenida Pensilvânia, reaberta ao público depois do caos causado pelo atentado contra o Pentágono. Nada de turistas onde japoneses, europeus e árabes tiravam fotos.
A imagem dos aviões batendo nas torres do World Trade Center voltou à minha mente. Os norte-americanos estão com raiva, muita raiva, e querem retaliar. Não há inimigos visíveis. Vai sobrar para quem carrega "Abu" no nome.
Ontem, uma multidão irada ameaçou depredar o "Bridgeview Mosque Center", um instituto muçulmano em Chicago. Um grupo de jovens com cabeças raspadas quis responsabilizar seus ocupantes pelos atentados de terça-feira. Relatos de ameaças contra pessoas de origem árabe e contra muçulmanos se multiplicam.
"Sejam muçulmanos, árabes árabes, árabes americanos ou árabes brasileiros, todos pagaremos", disse-me quarta Jenny Salan, do Instituto Árabe-Americano, em Washington, que fechou as portas ontem, depois de receber 50 telefonemas ameaçadores.
A situação está cada vez mais difícil. Ontem, o ex-presidente George Bush, pai do atual líder dos EUA, pediu aos norte-americanos que resistam à tendência de culpar árabes americanos e muçulmanos pelos ataques da última terça-feira. "Nossa nação deve ter em mente que há milhares de árabes americanos morando em Nova York. Eles amam nossa bandeira. Devemos tratar árabes americanos e muçulmanos com o respeito que merecem".
Depois de Pearl Harbor, norte-americanos montaram acampamentos para confinar descendentes de japoneses na Califórnia. Outro dia, soube que, à época, latino-americanos de origem nipônica também foram confinados, por terem olhos puxados.
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
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