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15/09/2001 - 04h48

Paul Krugman: Depois do horror

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PAUL KRUGMAN
colunista do "The New York Times"

Parece quase de mau gosto falar agora sobre dólares e centavos depois de um assassinato em massa. No entanto devemos nos perguntar sobre as consequências econômicas do horror de terça-feira.

Esses abalos secundários não precisam ser sérios. Embora possa parecer terrível dizer isso, o ataque do terror, assim como o dia da infâmia que pôs fim à Grande Depressão, poderia até trazer alguns benefícios econômicos. Mas já existem indícios sérios de que alguns verão essa tragédia não como uma ocasião para a verdadeira união nacional, mas como uma oportunidade de lucros políticos.

Sobre o impacto econômico direto: a base produtiva do país não foi seriamente prejudicada. Nossa economia é tão imensa que as cenas de destruição, por mais impressionantes, são apenas um incômodo menor.
O World Trade Center tinha cerca de 1,1 milhão de metros quadrados de espaço de escritórios. São 35 milhões de metros quadrados somente em Manhattan e 325 milhões nos Estados Unidos todo.

Ninguém tem ainda um número em dólares para os prejuízos, mas ficaria surpreso se a perda for maior do que 0,1% da riqueza americana comparável aos efeitos materiais de um grande terremoto ou furacão.

A palavra-chave aqui é confiança. Mas a confiança que importa neste caso tem pouco a ver com a paz de espírito geral. Se as pessoas saírem correndo para comprar água mineral e comida enlatada, isso realmente ajudará a economia.

Durante algumas semanas os americanos horrorizados talvez não tenham vontade de comprar nada além do necessário. Mas quando o choque passar é difícil acreditar que os gastos dos consumidores sejam muito afetados.
Os investidores abandonarão as ações e os títulos corporativos por ativos mais seguros? Essa reação não faria muito sentido. Afinal, os terroristas não vão explodir o índice 500 da S&P.

É verdade que os mercados às vezes reagem de modo irracional, e alguns mercados estrangeiros despencaram depois do ataque. Desde então, porém, se estabilizaram.

De modo geral é bom que nossos mercados tenham ficado fechados por alguns dias, dando aos investidores tempo para se acalmar. O governo errou ao pressionar os mercados de ações para que reabrissem imediatamente. Quando os mercados realmente abrirem, o pior pânico provavelmente já terá ficado para trás.

Assim, o impacto econômico direto dos ataques provavelmente não será tão ruim. E potencialmente haverá dois efeitos favoráveis. Primeiro, a força propulsora da desaceleração econômica foi uma queda nos investimentos empresariais. Agora, de repente, precisamos de alguns novos prédios de escritórios. Como já indiquei, a destruição não é grande comparada com a economia, mas a reconstrução vai gerar pelo menos algum aumento nos gastos empresariais.

Segundo, o ataque abre a porta para algumas medidas sensatas de combate à recessão. Nas últimas semanas tem havido um acalorado debate entre os liberais sobre se devem defender a clássica reação keynesiana à desaceleração econômica: uma bolha temporária de gastos públicos. Houve argumentos econômicos plausíveis em favor dessa medida, mas era duvidoso que o Congresso concordasse em como gastar o dinheiro a tempo de ele ter alguma utilidade e também havia a certeza de que os conservadores se recusariam a aceitar qualquer medida que não estivesse ligada a mais uma rodada irresponsável de cortes de impostos a longo prazo. Agora parece que realmente vamos ter uma bolha rápida de gastos públicos, por mais trágicos que sejam os motivos.

Agora a má notícia. Depois dos ataques me perguntei se alguns políticos tentariam explorar o horror para empurrar suas agendas partidárias habituais. Então me censurei por um pensamento tão impiedoso. Mas parece que não se pode ser cínico demais. Certamente o empurrão já foi dado para vender cortes nos impostos às corporações e sobre os ganhos de capital, em reação ao terrorismo.

Espera-se que a Casa Branca se distancie desse oportunismo desonroso, e que promova o bipartidarismo que prometeu originalmente. Mas os primeiros indícios não são bons. O governo desenvolveu seu pedido para verbas de emergência em consulta com os congressistas republicanos. Um contato democrata diz que seu partido não recebeu qualquer "consulta ou colaboração, e virtualmente nenhuma informação".

Não queria mencionar isso, mas chegou a hora de traçar a linha. Essa tragédia só será ampliada se for explorada por ganhos políticos. Os políticos que se enrolarem na bandeira enquanto incansavelmente perseguirem sua agenda partidária habitual não são verdadeiros patriotas, e a história não os perdoará.

  • Paul Krugman, economista, é professor na Universidade Princeton

  • Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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