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27/09/2001
-
05h35
ALCINO LEITE NETO
da Folha de S.Paulo, em Paris
Os tempos são de guerra, mas a política e a diplomacia têm sido até agora as principais armas dos governos na gestão da crise que se espalhou pelo mundo.
Ambas terão papel ainda mais importante no futuro, segundo o cientista político Pascal Boniface, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, sediado em Paris, que lançou nesta semana o guia "Ano Estratégico 2001" (Ed. Michalon).
"A resposta militar é indispensável", diz ele, "mas a longo termo é preciso fazer um trabalho político importante para que as condições que dão origem ao terrorismo e o deixam desenvolver não sejam mais possíveis".
Boniface, autor de mais de uma dezena de livros, entre eles "Moral e Relações Internacionais" (Ed. PUF), fala na entrevista a seguir sobre algumas das principais questões que têm dominado o debate europeu, e sobretudo francês, dentro da "nova desordem mundial" (nas palavras do jornal "Le Monde").
Para ele, os EUA deram prova de inteligência ao não precipitarem a ação militar e perceberem que todo um trabalho político precisaria ser feito antes. Nesse trabalho, a Europa está tendo papel fundamental, ao servir de mediadora entre os norte-americanos e os seus adversários, com isso reforçando a própria União Européia.
Boniface acredita que a crise atual põe por terra a política unilateralista dos EUA e também o seu esforço de isolacionismo. Na sua opinião, ela também pode levar os norte-americanos a pressionarem Israel na direção da paz no Oriente Médio.
Folha - Por que os Estados Unidos ainda não realizaram um ataque militar propriamente dito?
Pascal Boniface - Por três razões. Primeiro, é preciso fazer uma boa investigação para apurar qual é o método a ser utilizado. Segundo, é preciso estar à medida da resposta que virá. Terceiro, o que me parece mais importante, os EUA deram uma prova de inteligência ao perceberem que seria preciso fazer antes, e paralelamente, um trabalho político.
Assim, eles tentam reunir uma larga coalizão em torno do país, em vez de escutarem a voz da vingança e agir sozinhos contra os supostos agressores. Eles quiseram ganhar tempo e reunir em torno deles o maior número possível de países.
Folha - Que tipos de ação e de guerra podemos esperar agora?
Boniface - Já temos dois tipos de guerras. Uma que tentará atacar o terrorismo militarmente e outra que o fará financeiramente. Isso é necessário, mas não é suficiente. É preciso fazer um outro trabalho político importante para que as condições que dão origem ao terrorismo e o deixam desenvolver não sejam mais possíveis.
Isso implica criar uma ordem mais justa, no Oriente Médio e no conjunto maior dos países árabes. O que não quer dizer que a resposta militar não seja necessária. Ela é indispensável, mas é preciso também realizar um trabalho político.
Folha - O que o sr. acha que ocorrerá com Israel? O contexto pode levar à marginalização do país?
Boniface - A situação pode nos aproximar da resolução do conflito entre israelenses e palestinos. Acho que Israel, num primeiro tempo, deve estar achando que tudo isso é uma notícia que favorece o país, pois permite ao mundo ver o perigo que representam os atentados terroristas.
Mas, depois, os israelenses verão que não se trata de uma boa notícia, pois mesmo os EUA vão se dar conta de que, em grande parte, a política de Israel é também responsável pelo agravamento da situação. E os norte-americanos devem pressionar Israel na direção da paz. Evidentemente, tudo será muito difícil, os israelenses não estão abertos à negociação, sobretudo Ariel Sharon.
Folha - O que significa a colaboração da Rússia e da China com os Estados Unidos?
Boniface - É muito cedo para saber. É certo que os chineses e os russos estão também envolvidos na luta contra o terrorismo muçulmano. Tudo isso pode ser interessante para eles mostrarem que não estão isolados e que estão envolvidos no combate geral. Os russos ajudarão a legitimar a guerra que será levada e, assim, reencontrar um interesse junto aos americanos.
Folha - O sr. pensa que os EUA podem mudar sua postura habitual em relação a países que não são democráticos?
Boniface - Já é o caso, não?
Folha - Como a crise afetou o chamado unilateralismo político norte-americano e também o isolacionismo até então professado pela administração Bush?
Boniface - O que estamos descobrindo agora é que nem um nem outro, nem o unilateralismo nem o isolacionismo, colocavam os EUA num estado de invulnerabilidade. Uma boa conclusão a tirar de tudo isso é que é preciso uma maior aplicação positiva dos EUA nos assuntos mundiais.
Folha - Os países da Europa têm sido importantes na gestão dos apoios aos EUA?
Boniface - Efetivamente, pois a Europa tem boas relações com a maior parte dos protagonistas e nunca teve um comportamento unilateralista. É uma região aberta ao mundo, mas que não quer gerir o mundo. É uma região que não suscita a mesma aversão que podem suscitar os americanos.
Folha - Este papel diplomático fortalece a União Européia?
Boniface - No mínimo, dá uma prova de solidariedade e de unidade entre os países, já que a União Européia não difere, por exemplo, entre a França, a Inglaterra e a Alemanha.
Folha - O sr. acredita, como certos críticos moderados, que é possível o Islã se reunir ao mundo ocidental, ou, como outros, que enfrentamos uma guerra de civilizações?
Boniface - Não creio que estejamos numa guerra de civilizações. Essa é justamente a armadilha que nos aguarda. Uma resposta indiscriminada de todos os ocidentais poderia nos precipitar nessa guerra de civilizações.
Por isso todos os políticos ocidentais estão tentando evitar as comparações entre muçulmanos e terroristas. Nós pensamos geralmente que o islamismo não é uma religião terrorista e que é preciso distinguir bem as coisas, no plano do indivíduo e das sociedades.
Folha - Muitos na França têm evocado a responsabilidade primordial dos EUA nos atentados, por sua arrogância política e suas ações militares e econômicas no mundo árabe, inclusive o líder direitista francês Jean-Marie Le Pen...
Boniface - Mas isso ocorre há muito tempo. Há muita gente que é anti-americana na França, como na direita, e isso não mudará. Mas uma coisa é dizer que o comportamento unilateralista dos norte-americanos coloca problemas. Isso é um fato. É uma análise.
Outra coisa é dizer que esse comportamento justifica os atentados, o que não é certo. Mas não é porque os Estados Unidos sofreram um atentado que isso nos impedirá de fazer análises e eles passarão a ter direito a fazer tudo querem.
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
"EUA deram prova de inteligência", diz cientista político
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da Folha de S.Paulo, em Paris
Os tempos são de guerra, mas a política e a diplomacia têm sido até agora as principais armas dos governos na gestão da crise que se espalhou pelo mundo.
Ambas terão papel ainda mais importante no futuro, segundo o cientista político Pascal Boniface, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, sediado em Paris, que lançou nesta semana o guia "Ano Estratégico 2001" (Ed. Michalon).
"A resposta militar é indispensável", diz ele, "mas a longo termo é preciso fazer um trabalho político importante para que as condições que dão origem ao terrorismo e o deixam desenvolver não sejam mais possíveis".
Boniface, autor de mais de uma dezena de livros, entre eles "Moral e Relações Internacionais" (Ed. PUF), fala na entrevista a seguir sobre algumas das principais questões que têm dominado o debate europeu, e sobretudo francês, dentro da "nova desordem mundial" (nas palavras do jornal "Le Monde").
Para ele, os EUA deram prova de inteligência ao não precipitarem a ação militar e perceberem que todo um trabalho político precisaria ser feito antes. Nesse trabalho, a Europa está tendo papel fundamental, ao servir de mediadora entre os norte-americanos e os seus adversários, com isso reforçando a própria União Européia.
Boniface acredita que a crise atual põe por terra a política unilateralista dos EUA e também o seu esforço de isolacionismo. Na sua opinião, ela também pode levar os norte-americanos a pressionarem Israel na direção da paz no Oriente Médio.
Folha - Por que os Estados Unidos ainda não realizaram um ataque militar propriamente dito?
Pascal Boniface - Por três razões. Primeiro, é preciso fazer uma boa investigação para apurar qual é o método a ser utilizado. Segundo, é preciso estar à medida da resposta que virá. Terceiro, o que me parece mais importante, os EUA deram uma prova de inteligência ao perceberem que seria preciso fazer antes, e paralelamente, um trabalho político.
Assim, eles tentam reunir uma larga coalizão em torno do país, em vez de escutarem a voz da vingança e agir sozinhos contra os supostos agressores. Eles quiseram ganhar tempo e reunir em torno deles o maior número possível de países.
Folha - Que tipos de ação e de guerra podemos esperar agora?
Boniface - Já temos dois tipos de guerras. Uma que tentará atacar o terrorismo militarmente e outra que o fará financeiramente. Isso é necessário, mas não é suficiente. É preciso fazer um outro trabalho político importante para que as condições que dão origem ao terrorismo e o deixam desenvolver não sejam mais possíveis.
Isso implica criar uma ordem mais justa, no Oriente Médio e no conjunto maior dos países árabes. O que não quer dizer que a resposta militar não seja necessária. Ela é indispensável, mas é preciso também realizar um trabalho político.
Folha - O que o sr. acha que ocorrerá com Israel? O contexto pode levar à marginalização do país?
Boniface - A situação pode nos aproximar da resolução do conflito entre israelenses e palestinos. Acho que Israel, num primeiro tempo, deve estar achando que tudo isso é uma notícia que favorece o país, pois permite ao mundo ver o perigo que representam os atentados terroristas.
Mas, depois, os israelenses verão que não se trata de uma boa notícia, pois mesmo os EUA vão se dar conta de que, em grande parte, a política de Israel é também responsável pelo agravamento da situação. E os norte-americanos devem pressionar Israel na direção da paz. Evidentemente, tudo será muito difícil, os israelenses não estão abertos à negociação, sobretudo Ariel Sharon.
Folha - O que significa a colaboração da Rússia e da China com os Estados Unidos?
Boniface - É muito cedo para saber. É certo que os chineses e os russos estão também envolvidos na luta contra o terrorismo muçulmano. Tudo isso pode ser interessante para eles mostrarem que não estão isolados e que estão envolvidos no combate geral. Os russos ajudarão a legitimar a guerra que será levada e, assim, reencontrar um interesse junto aos americanos.
Folha - O sr. pensa que os EUA podem mudar sua postura habitual em relação a países que não são democráticos?
Boniface - Já é o caso, não?
Folha - Como a crise afetou o chamado unilateralismo político norte-americano e também o isolacionismo até então professado pela administração Bush?
Boniface - O que estamos descobrindo agora é que nem um nem outro, nem o unilateralismo nem o isolacionismo, colocavam os EUA num estado de invulnerabilidade. Uma boa conclusão a tirar de tudo isso é que é preciso uma maior aplicação positiva dos EUA nos assuntos mundiais.
Folha - Os países da Europa têm sido importantes na gestão dos apoios aos EUA?
Boniface - Efetivamente, pois a Europa tem boas relações com a maior parte dos protagonistas e nunca teve um comportamento unilateralista. É uma região aberta ao mundo, mas que não quer gerir o mundo. É uma região que não suscita a mesma aversão que podem suscitar os americanos.
Folha - Este papel diplomático fortalece a União Européia?
Boniface - No mínimo, dá uma prova de solidariedade e de unidade entre os países, já que a União Européia não difere, por exemplo, entre a França, a Inglaterra e a Alemanha.
Folha - O sr. acredita, como certos críticos moderados, que é possível o Islã se reunir ao mundo ocidental, ou, como outros, que enfrentamos uma guerra de civilizações?
Boniface - Não creio que estejamos numa guerra de civilizações. Essa é justamente a armadilha que nos aguarda. Uma resposta indiscriminada de todos os ocidentais poderia nos precipitar nessa guerra de civilizações.
Por isso todos os políticos ocidentais estão tentando evitar as comparações entre muçulmanos e terroristas. Nós pensamos geralmente que o islamismo não é uma religião terrorista e que é preciso distinguir bem as coisas, no plano do indivíduo e das sociedades.
Folha - Muitos na França têm evocado a responsabilidade primordial dos EUA nos atentados, por sua arrogância política e suas ações militares e econômicas no mundo árabe, inclusive o líder direitista francês Jean-Marie Le Pen...
Boniface - Mas isso ocorre há muito tempo. Há muita gente que é anti-americana na França, como na direita, e isso não mudará. Mas uma coisa é dizer que o comportamento unilateralista dos norte-americanos coloca problemas. Isso é um fato. É uma análise.
Outra coisa é dizer que esse comportamento justifica os atentados, o que não é certo. Mas não é porque os Estados Unidos sofreram um atentado que isso nos impedirá de fazer análises e eles passarão a ter direito a fazer tudo querem.
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