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27/09/2001 - 05h36

Terroristas são fascismo com rosto islâmico, diz autor

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CHRISTOPHER HITCHENS
da "The Nation"

Aconteceu na fronteira entre Paquistão e Afeganistão, quando o Exército Vermelho estava ficando para trás e se desfazendo. Eu precisava de um guia que me conduzisse até o desfiladeiro Khyber e decidi que queria o sujeito de aparência mais feroz, que tivesse domínio do inglês e o veículo mais moderno. Isso era possível -por um preço alto. Antes de partirmos, meu novo amigo colocou uma fita. Resignei-me a ouvir o ulular de algum mulá, mas, em lugar disso, recebi uma dose de "So Far Away". "Achei que você gostaria de Dire Straits", ele disse.

Esse foi meu primeiro contato com a hoje familiar simbiose de sentimento religioso tribal com alta tecnologia -simbiose essa consumada em 11 de setembro com a conversão da extremidade sul da capital do mundo moderno em uma grande vala carbonizada.

Não que o alvo da imolação precise necessariamente ser um símbolo do moderno. Essa mesma ideologia empregou artilharia pesada para destruir as estátuas de Buda em Bamiyan. De uma forma ou outra, as pessoas que destruíram o World Trade Center são as mesmas que atiraram ácido nas mulheres que andavam sem véu em Cabul e Karachi.

Ao mesmo tempo em que receamos o que elas podem desejar para nossa sociedade, podemos enxergar claramente o que têm em mente para a delas: uma teocracia estéril e árida, implementada por técnicas avançadas. Há alguns meses, a Bósnia entregou ao tribunal internacional em Haia os únicos acusados de crime de guerra detidos no território da federação muçulmano-croata. Quase todos os açougueiros tinham sido "voluntários" indesejados vindos das frentes tchetchena, afegã e caxemir. É na condição de defensor confesso dos muçulmanos da Bósnia que posso e devo afirmar que esse "binladenismo" envenena tudo em que toca.

Desde o primeiro momento, receei o tipo de tráfego de e-mails masoquistas que poderiam começar a circular vindos das bandas de Chomsky, Zinn e Finkelstein, e minha previsão não estava errada.
Deixando de lado os agradecimentos devidos a esses colegas, preciso deixar claro que eu já sei que as populações palestina e do Iraque são vítimas de uma estadística ocidental deturpada e indiferente ao sofrimento alheio. E acho que posso reivindicar a distinção de ter sido um dos primeiros a chamar a atenção para o fato de que os foguetes que Clinton mandou disparar contra Cartum representaram um flagrante crime de guerra que certamente teriam dado ao Sudão o direito de lançar represálias. Mas os acontecimentos de 11 de setembro não podem ser vistos como tal represália, sob nenhum ponto de vista, quer seja legal ou moral.

É pior do que inútil propor as mesmas trocas que podem ter estado presentes em alguma parte da mente fechada dos assassinos em massa. A população da faixa de Gaza vive sob toque de recolher. Isso é fato sabido. Muito bem: será que alguém imagina que uma possível retirada israelense de Gaza poderia ter evitado a carnificina em Manhattan?
Agora é um momento tão bom quanto qualquer outro para revermos a história das Cruzadas, ou, então, a triste história da partilha da Caxemira. Mas os responsáveis pelos atentados em Manhattan representam o fascismo com rosto islâmico, e de nada adianta recorrer a eufemismos para tratar do assunto. O que eles abominam no Ocidente, para resumir tudo em uma só palavra, não é aquilo de que os liberais ocidentais não gostam em seu próprio sistema, mas aquilo de que gostam e que precisam defender: a emancipação feminina, as pesquisas científicas, a separação entre religião e Estado. Ficar falando em efeitos negativos de ações que nós mesmos empreendemos é o equivalente moral ao lixo odioso expresso por Falwell e Robertson e demonstra conteúdo intelectual do mesmo nível.
O assassinato indiscriminado não representa um julgamento moral, mesmo indireto, de suas vítimas ou do modo de vida delas ou nosso. Qualquer leitor poderia ter estado em um daqueles aviões ou edifícios.

A nova onda é falar em "inteligência humana", exatamente a faculdade que mais faz falta a nossas classes governantes. Alguns meses atrás a administração Bush deu ao Taleban um subsídio de US$ 43 milhões, expressão de sua gratidão pela ajuda prestada pelo fundamentalismo na chamada "guerra às drogas". Haverá outras oportunidades para destacar as falhas de nossos supostos líderes, cujo refrão constante é a segurança nacional, mas que não foram capazes de nos proteger.

Em tempo: meu guia foi, sim, uma sombra lançada pela CIA de William Casey. Mas isso é apenas uma maneira de afirmar o óbvio: o que temos pela frente agora é, além de ser um inimigo por toda a vida, inimigo da própria vida.

Leia mais no especial sobre atentados nos EUA

  • Tradução de Clara Allain

  • Christopher Hitchens é jornalista, colaborador de "The Nation", "The London Review of Books", "New Left Review" e outros; seu livro mais recente é "No One Left to Lie To: The Values of the Worst Family" (Verso, 2000)
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