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29/09/2001
-
03h50
HAMISH McRAE
do "The Independent"
A melhor vista da ponta sul de Manhattan está em Brooklyn Heights, do outro lado do East River. Olhando para os arranha-céus, você se sente tão próximo que quase dá para tocá-los. A passarela inevitavelmente se tornou um templo em memória das pessoas que perderam a vida do outro lado. Dos muitos tributos que encontrei aqui nos últimos dias, o que me comoveu mais foi um desenho infantil das torres duplas do World Trade Center. Mostrava corpos caindo, que na verdade voavam, com pequenas asas, porque haviam-se tornado anjos.
São os jovens que determinarão o futuro do mundo ao longo dos próximos 20, 30 ou 40 anos, e particularmente os jovens dos Estados Unidos. O país é, e continuará sendo, a única superpotência mundial por pelo menos mais uma geração. O que quer que venha a acontecer nos próximos meses, as idéias, atitudes, crenças e valores dos jovens dos EUA serão afetados pelos acontecimentos de 11 de setembro. E esses valores darão forma ao mundo.
Imagino que haja dois caminhos que o mundo possa seguir ao longo da próxima geração.
Poderíamos recuar. Os 12 anos entre a queda do Muro de Berlim e o ataque terrorista aos EUA seriam lembrados como o ponto alto da economia de mercado liberal. Os EUA recuariam ao isolamento, e isso marcaria o início de um período de queda no comércio mundial e crescente protecionismo, de maiores restrições à liberdade de viagem e um aumento nas leis e regimes repressivos. Tivemos períodos como esses antes e sabemos que, caso venham a acontecer, os mais prejudicados serão os países pobres.
Ou podemos avançar. Se isso acontecer, o desafio apresentado à ordem liberal pelo terrorismo global será derrotado. Os ataques, e o que quer que se siga a eles, aguçarão a vontade de defesa dos valores democráticos. Não se trata simplesmente de uma questão de política governamental, mas de como todo o país responderá: as grandes empresas, bancos e outras instituições de serviços financeiros, a imprensa e o entretenimento, as universidades e, especialmente, os jovens.
Tendo passado os últimos dias em Nova York estudando os indicadores básicos, estou completamente convencido de que a segunda via será a escolhida.
Comecemos pela economia. Os EUA estavam em recessão quando os terroristas golpearam. Agora, a recessão será mais profunda e provavelmente mais longa do que teria sido. A demanda foi suspensa, as vendas de itens de preço elevado, como carros, despencaram. Enquanto isso, os problemas em setores como o transporte aéreo e o turismo estão fazendo com que dezenas de milhares de pessoas percam seus empregos, o que agrava os efeitos.
O dano econômico tem alcance nacional, mas é devastador em Nova York. Muitas empresas de pequeno e médio porte fecharão as portas. Mas e se pensarmos no futuro, há provas de persistência.
Sem ir ao centro, é impossível conceber a escala da devastação. Muitos quarteirões em torno das ruínas ainda fumegantes continuam bloqueados. A região de Wall Street perdeu cerca de 40% de sua área de escritórios. No entanto, as empresas estão funcionando, ocupando espaços mais ao norte da ilha ou nos subúrbios. O banco de investimentos Lehman Brothers ocupou um hotel inteiro. Pessoas trabalham de casa ou dos escritórios de amigos. A infra-estrutura do centro da cidade também está sendo restaurada com velocidade impressionante. As equipes de demolição no World Trade Center trabalham sem parar, em turnos de 12 horas, mas o esforço menos dramático é o que vem sendo desenvolvido para fazer com que a energia e os telefones voltem a funcionar nos edifícios próximos que não foram danificados.
É claro que as coisas não estão funcionando como de hábito; isso seria impossível. A economia de Nova York já estava em crise antes dos ataques, e levará anos para que o espaço perdido seja substituído, para as empresas da cidade. Mas existe um senso de resistência econômica que é um bom augúrio para a cidade e, por extensão, para a economia dos EUA.
Recursos enormes serão dedicados à reconstrução e os efeitos serão sentidos em todo o país. É possível que os ataques tenham um efeito sanfona sobre a recessão, aumentando a velocidade da queda, mas tornando a recuperação mais segura.
Não consigo imaginar que o país cresça lentamente por 10 anos, digamos. De fato, minha expectativa é de que continue a crescer mais rápido do que a Europa continental ou o Japão. Se o consumo crescer de maneira muito mais lenta do que no passado, à medida que recursos são deslocados para a segurança dos cidadãos, isso talvez não seja de todo mau. O padrão de gastos provavelmente será menos frívolo, haverá menos egoísmo e a economia sairá mais forte do processo. Será o nascimento de uma nova unidade americana, demonstrada pelo índice de aprovação de 90% ao presidente Bush -o maior da história do país. Se os terroristas esperavam semear a desunião, conseguiram o resultado exatamente oposto.
O atentado faz com que todos questionem seus valores fundamentais. Os heróis de hoje não são os astros de Hollywood, nem os executivos, nem os ex-milionários das empresas de internet. São bombeiros, policiais e trabalhadores de escritório que ajudaram seus colegas a fugir pelas saídas de incêndio.
Por que não voltar ao hedonismo de Hollywood? Parece-me haver duas respostas a isso. Uma é que o país não pode se isolar do mundo. Os inimigos dos EUA usaram sua liberdade para atingir o país. A entrada fácil nas fronteiras, a facilidade de matrícula em escolas de pilotagem, a capacidade de vender com antecedência ações de linhas aéreas e companhias de seguros nos mercados financeiros. Se o que se deseja é preservar essas liberdades, será preciso travar combates em muitas frentes, por muitos anos.
A segunda resposta é que os jovens dos EUA serão mudados radicalmente por essa experiência. Cada geração é moldada pelos tempos que vive. A atual será influenciada por algo que os EUA não sentiam há quase 200 anos: um ataque inimigo a seu território. Isso certamente conduzirá os EUA em uma direção diferente por uma geração, o que significa que os valores democráticos estarão seguros por uma geração. Talvez a criança que desenhou os anjos compreenda isso: que de algo terrível, pode surgir algo de bom.
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
Análise: Preservar liberdades será maior desafio
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do "The Independent"
A melhor vista da ponta sul de Manhattan está em Brooklyn Heights, do outro lado do East River. Olhando para os arranha-céus, você se sente tão próximo que quase dá para tocá-los. A passarela inevitavelmente se tornou um templo em memória das pessoas que perderam a vida do outro lado. Dos muitos tributos que encontrei aqui nos últimos dias, o que me comoveu mais foi um desenho infantil das torres duplas do World Trade Center. Mostrava corpos caindo, que na verdade voavam, com pequenas asas, porque haviam-se tornado anjos.
São os jovens que determinarão o futuro do mundo ao longo dos próximos 20, 30 ou 40 anos, e particularmente os jovens dos Estados Unidos. O país é, e continuará sendo, a única superpotência mundial por pelo menos mais uma geração. O que quer que venha a acontecer nos próximos meses, as idéias, atitudes, crenças e valores dos jovens dos EUA serão afetados pelos acontecimentos de 11 de setembro. E esses valores darão forma ao mundo.
Imagino que haja dois caminhos que o mundo possa seguir ao longo da próxima geração.
Poderíamos recuar. Os 12 anos entre a queda do Muro de Berlim e o ataque terrorista aos EUA seriam lembrados como o ponto alto da economia de mercado liberal. Os EUA recuariam ao isolamento, e isso marcaria o início de um período de queda no comércio mundial e crescente protecionismo, de maiores restrições à liberdade de viagem e um aumento nas leis e regimes repressivos. Tivemos períodos como esses antes e sabemos que, caso venham a acontecer, os mais prejudicados serão os países pobres.
Ou podemos avançar. Se isso acontecer, o desafio apresentado à ordem liberal pelo terrorismo global será derrotado. Os ataques, e o que quer que se siga a eles, aguçarão a vontade de defesa dos valores democráticos. Não se trata simplesmente de uma questão de política governamental, mas de como todo o país responderá: as grandes empresas, bancos e outras instituições de serviços financeiros, a imprensa e o entretenimento, as universidades e, especialmente, os jovens.
Tendo passado os últimos dias em Nova York estudando os indicadores básicos, estou completamente convencido de que a segunda via será a escolhida.
Comecemos pela economia. Os EUA estavam em recessão quando os terroristas golpearam. Agora, a recessão será mais profunda e provavelmente mais longa do que teria sido. A demanda foi suspensa, as vendas de itens de preço elevado, como carros, despencaram. Enquanto isso, os problemas em setores como o transporte aéreo e o turismo estão fazendo com que dezenas de milhares de pessoas percam seus empregos, o que agrava os efeitos.
O dano econômico tem alcance nacional, mas é devastador em Nova York. Muitas empresas de pequeno e médio porte fecharão as portas. Mas e se pensarmos no futuro, há provas de persistência.
Sem ir ao centro, é impossível conceber a escala da devastação. Muitos quarteirões em torno das ruínas ainda fumegantes continuam bloqueados. A região de Wall Street perdeu cerca de 40% de sua área de escritórios. No entanto, as empresas estão funcionando, ocupando espaços mais ao norte da ilha ou nos subúrbios. O banco de investimentos Lehman Brothers ocupou um hotel inteiro. Pessoas trabalham de casa ou dos escritórios de amigos. A infra-estrutura do centro da cidade também está sendo restaurada com velocidade impressionante. As equipes de demolição no World Trade Center trabalham sem parar, em turnos de 12 horas, mas o esforço menos dramático é o que vem sendo desenvolvido para fazer com que a energia e os telefones voltem a funcionar nos edifícios próximos que não foram danificados.
É claro que as coisas não estão funcionando como de hábito; isso seria impossível. A economia de Nova York já estava em crise antes dos ataques, e levará anos para que o espaço perdido seja substituído, para as empresas da cidade. Mas existe um senso de resistência econômica que é um bom augúrio para a cidade e, por extensão, para a economia dos EUA.
Recursos enormes serão dedicados à reconstrução e os efeitos serão sentidos em todo o país. É possível que os ataques tenham um efeito sanfona sobre a recessão, aumentando a velocidade da queda, mas tornando a recuperação mais segura.
Não consigo imaginar que o país cresça lentamente por 10 anos, digamos. De fato, minha expectativa é de que continue a crescer mais rápido do que a Europa continental ou o Japão. Se o consumo crescer de maneira muito mais lenta do que no passado, à medida que recursos são deslocados para a segurança dos cidadãos, isso talvez não seja de todo mau. O padrão de gastos provavelmente será menos frívolo, haverá menos egoísmo e a economia sairá mais forte do processo. Será o nascimento de uma nova unidade americana, demonstrada pelo índice de aprovação de 90% ao presidente Bush -o maior da história do país. Se os terroristas esperavam semear a desunião, conseguiram o resultado exatamente oposto.
O atentado faz com que todos questionem seus valores fundamentais. Os heróis de hoje não são os astros de Hollywood, nem os executivos, nem os ex-milionários das empresas de internet. São bombeiros, policiais e trabalhadores de escritório que ajudaram seus colegas a fugir pelas saídas de incêndio.
Por que não voltar ao hedonismo de Hollywood? Parece-me haver duas respostas a isso. Uma é que o país não pode se isolar do mundo. Os inimigos dos EUA usaram sua liberdade para atingir o país. A entrada fácil nas fronteiras, a facilidade de matrícula em escolas de pilotagem, a capacidade de vender com antecedência ações de linhas aéreas e companhias de seguros nos mercados financeiros. Se o que se deseja é preservar essas liberdades, será preciso travar combates em muitas frentes, por muitos anos.
A segunda resposta é que os jovens dos EUA serão mudados radicalmente por essa experiência. Cada geração é moldada pelos tempos que vive. A atual será influenciada por algo que os EUA não sentiam há quase 200 anos: um ataque inimigo a seu território. Isso certamente conduzirá os EUA em uma direção diferente por uma geração, o que significa que os valores democráticos estarão seguros por uma geração. Talvez a criança que desenhou os anjos compreenda isso: que de algo terrível, pode surgir algo de bom.
Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
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