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06/10/2001 - 04h35

Crítica: "Mídia precisa recuperar objetividade"

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MARCIO AITH
da Folha de S.Paulo, em Washington

Mesmo tendo chorado ao noticiar o assassinato de John Kennedy e quase perdido a fala ao narrar, com emoção, a chegada de Neil Armstrong à Lua, o veterano Walther Cronkite, que completa 85 anos em novembro, acha que "já está mais do que na hora" de os jornalistas norte-americanos recuperarem sua objetividade na cobertura dos atentados terroristas do último dia 11.

Segundo ele, embora a emoção seja inevitável em alguns momentos, a fase atual exige frieza e independência. "Os que se dizem patriotas devem entender que esse sentimento não implica necessariamente elogiar todas
as decisões oficiais. Também pode ser expresso com divergência."

Cronkite soube dos atentados do último dia 11 quando voltava ao hotel de
uma palestra sobre objetividade jornalística que fizera em Florença, na Itália. Demorou seis dias para voltar a Nova York. Ele falou à Folha por telefone de seu escritório na cidade.

Folha - O sr. foi duramente criticado por se opor à maioria das propostas do pacote do governo dos EUA para conter o terrorismo. Pesquisas mostram um apoio maciço a medidas de segurança, mesmo que elas afetem liberdades civis...
Walther Cronkite -
Todas as ações de órgãos governamentais, incluindo os policiais e os militares, são influenciadas por interesses localizados. Autoridades querem fortalecer seus instrumentos de poder específicos e, em tempos como esse, vêem uma boa oportunidade para agir. Faz parte da natureza humana. Autoridades divulgam apenas fatos e circunstâncias que beneficiam seus pleitos. Isso ocorre não só nos EUA como no resto do mundo. Numa democracia, temos que vigiar o poder de forma permanente.

Folha - Mas o sr. não concorda que o combate ao terrorismo requer instrumentos de investigação mais rígidos e modernos?
Cronkite -
Reconheço que teremos que enfrentar restrições, como documentos de identificação obrigatórios e a checagem de bolsas e malas em prédios públicos e privados. No entanto, sugestões como a da prisão de imigrantes por tempo indeterminado, uma idéia que, felizmente, está sendo rejeitada pelo Congresso, é uma aberração típica desse momento.

Folha - Qual é a maneira mais democrática de instituir restrições?
Cronkite -
Se o momento é extraordinário, precisamos lidar com o assunto de forma extraordinária. Seria fundamental que o pacote fosse submetido a um conselho externo, talvez formado por jornalistas, historiadores ou juizes da Suprema Corte.

Folha - Como o sr. avalia a cobertura dos atentados feita pelas TVs e pelos jornais?
Cronkite -
Em geral, fizeram um bom trabalho, com uma abordagem ampla. Nos primeiros dias, houve uma chuva de indignação e de emoção manifestada por jornalistas. Todos expressaram simpatia com as vítimas e um desejo de unir os norte-americanos num período de crise. Houve um show aberto de patriotismo, compreensível no início. Eu mesmo não contive minha emoção ao relatar a morte do presidente Kennedy, em 1963. Felizmente, a imprensa está voltando agora ao seu papel tradicional e necessário de observadora imparcial.

Folha - O sr. acha que a cobertura internacional das TVs norte-americanas retrata de forma fidedigna o que ocorre fora dos EUA?
Cronkite -
O problema não é o tipo de cobertura, mas a falta de cobertura. Nos últimos anos, as três grandes TVs abertas nos EUA -ABC, NBC e CBS- cortaram correspondentes e fecharam escritórios internacionais para economizar dinheiro. Fizeram isso com tal violência que, na minha opinião, o público não está obtendo informações suficientes sobre assuntos globais. A população neste país não consegue entender, de forma inteligente, os complexos problemas internacionais.

Folha - O sr. concorda com a afirmação de George W. Bush de que a guerra contra o terrorismo é uma guerra entre o bem e o mal?
Cronkite -
É claro que os atos de 11 de setembro são maus. Todos concordam com isso, inclusive os países muçulmanos. No entanto, temo expressões que possam sugerir, mesmo que de forma distante, a existência de um conflito entre civilizações.

Folha - O Pentágono anunciou que vai fazer censura prévia de matérias e fotos enviadas por jornalistas autorizados a acompanhar tropas militares em operações. Além disso, vários editores começam a cogitar a implementação de uma autocensura para não comprometer segredos militares. Como a mídia deve agir nesse momento?
Cronkite -
A maior referência para todos os jornalistas da minha geração é o famoso caso do "New York Times" durante a invasão da Baia dos Porcos (1961), em Cuba. O jornal tinha informação prévia de que a operação ocorreria, mas, de forma relutante, decidiu não publicá-la devido a um pedido pessoal do presidente Kennedy. Mais tarde, o próprio presidente reconheceu que esse pedido ao jornal foi seu maior erro político. Se o Times tivesse publicado a informação, talvez o país pudesse ter evitado esse desastre embaraçoso. Na publicação de informações secretas e sensíveis, deve-se usar o bom senso. Mas o nosso bom senso, e não o do governo.

Folha - Como o sr. avalia o fato de Bush ser hoje o presidente mais popular da história dos EUA?
Cronkite -
Esses índices resultam de circunstâncias extraordinárias. Vai começar a declinar, particularmente se entrarmos em operações militares e começarmos a perder pessoas. A oposição à guerra tende a crescer dentro do país. Além disso, o fervor patriótico vai começar a diminuir. As pessoas vão entender que o patriotismo é um sentimento dirigido ao país, não às ações do governo. Patriotismo não implica necessariamente aprovar todas as decisões oficiais. Ele também pode ser expresso com divergência.

Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
 

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