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08/10/2001 - 03h30

Análise: Novo espetáculo tem novo protagonista, Al Jazeera

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NELSON DE SÁ
da Folha de S.Paulo

George W. Bush e assessores anunciaram, desde os primeiros dias após os atentados, que esta guerra não seria como as outras. Não seria um espetáculo de TV, por exemplo, como a Guerra do Golfo.

Pelo que se viu no primeiro ataque ao Afeganistão, porém, o que não vai faltar é espetáculo. A CNN entrou desde logo com cenas ao vivo de Cabul. Com imagens bem ruins, noturnas, mas imagens de guerra não muito diversas daquelas da Guerra do Golfo.

A diferença foi o estabelecimento de um novo protagonista na cobertura mundial, o canal do Qatar, Al Jazeera. Um protagonista ao qual a CNN se juntou sem constrangimento. O novo âncora estrela do canal americano, Aaron Brown, declarou logo ao assumir a transmissão:

- Nós temos um relacionamento interessante e exclusivo com o Al Jazeera.
E assim o melhor ou o mais espetacular da CNN -e dos outros canais pelo mundo- foi gerado do Qatar. A cobertura vinha toda ela sob controle, sincronizada, até os discursos de Bush e Tony Blair. Mas aí o Al Jazeera surgiu com o atordoante outro lado.

A gravação com Bin Laden, de uniforme e pose de guerrilheiro, metralhadora ao lado, deixou Aaron Brown sem fôlego, dizendo ter sido "arrepiante". Feitas antes do ataque de ontem, mas depois do dia 11, as imagens foram aparentemente preparadas para divulgação logo após uma reação americana.

Entre as frases de Bin Laden, coisas como "(os EUA) receberam o que fizeram por merecer". Faltou bem pouco para afirmar que os atentados de Nova York foram obra sua.

O tal "relacionamento interessante e exclusivo" da CNN era o direito de usar as imagens do Al Jazeera por seis horas, até serem liberadas para outras emissoras, que haviam sido avisadas do embargo anteontem.

Mas as cenas eram fortes demais para serem tratadas assim -e as concorrentes diretas da CNN, Fox News e MSNBC, além de redes como a ABC não demoraram a jogar Bin Laden no ar. Do porta-voz da ABC:

- Mostrar essas imagens ao povo americano pesou mais do que qualquer interesse comercial que a CNN estivesse tentando tirar desta crise.

As imagens de Bin Laden foram tão teatralmente chocantes que horas depois o âncora da CNN ainda se sentia na obrigação de comentar a reação que haviam provocado e defender o registro do outro lado.

Não pararam aí as transmissões do Al Jazeera, reproduzidas na CNN e no resto. Foi ouvido o vice-ministro da defesa do Taleban, dizendo desafiador que não iria "contar os segredos". Um correspondente em Cabul relatou, sempre em árabe, com tradução, como as bombas explodiam perto de onde estava.

E o ministro do exterior do Taleban disse, ao vivo:
- Nós é que somos precisos. Nós é que derrubamos um dos aviões deles. Que Deus nos ajude a derrubar outro avião.

A cobertura ligada ao canal do Qatar se concentrou no meio da tarde. Depois voltaram a imperar na "guerra de propaganda", expressão usada na própria TV, as vozes pró-americanas, de Jacques Chirac a Henry Kissinger. Mas o estrago já estava feito.

Osama bin Laden conseguiu se sobrepor, como espetáculo, até mesmo a George W. Bush -ele que desta vez se preparou bem, falou da Casa Branca, cortinas das janelas abertas, num discurso perfeito, capaz de agradar ao mundo inteiro.


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