Forças Armadas chinesas buscam "agitadores" casa por casa no Tibete
As Forças Armadas chinesas não confiam no resultado do ultimato dado aos "agitadores" no Tibete para que se entreguem antes da a 0h de segunda-feira (13h deste domingo em Brasília) e procura essas pessoas casa por casa em Lhasa (capital do Tibete), onde ao menos 30 pessoas podem ter morrido.
O prefeito de Lhasa, Doje Cezhug, disse hoje que a cidade "está calma" e que "a situação geral no Tibete é boa", após os graves distúrbios registrados na sexta-feira (14).
Cezhug atribuiu a violência a "um grupo de monges e arruaceiros que bateram, destruíram, saquearam e incendiaram escolas, hospitais e comércios, com o objetivo de perturbar a vida feliz e estável dos tibetanos".
Além disso, negou que tenha sido imposta a lei marcial e que seja proibido sair às ruas, principalmente aos estrangeiros.
Segundo uma fonte que pediu para não ser identificada, "o centro histórico de Lhasa continua isolado e poucas pessoas circulam, levando bolsas com objetos recuperados nos comércios destruídos".
A testemunha disse que foram ouvidos tiros isolados, mas os esforços se concentram em praticar detenções, com as ruas controladas militarmente.
Embora alguns habitantes se atrevam a sair para suprir suas necessidades, os estrangeiros não podem deixar os hotéis, disse um morador. Os poucos turistas que permaneciam em Lhasa foram "ajudados" a sair da cidade.
O bloqueio à informação continuou hoje, e a imprensa estrangeira não pôde verificar os números oficiais --"10 civis mortos e 12 policiais gravemente feridos"-- e os do exílio tibetano, que confirmou pelo menos 30 mortes.
Segundo fontes independentes, houve protestos pacíficos em outras áreas próximas ao Tibete, como a província fronteiriça de Gansu, onde centenas de monges e civis fizeram manifestações pacíficas.
Hoje, as autoridades divulgaram informações parciais, como imagens de monges jogando pedras e incendiando lojas e um comunicado do XI Panchen Lama "apoiando os esforços do Partido Comunista da China e do governo para garantir a segurança e a estabilidade".
Eleito pelo partido como sucessor do Dalai Lama, Gyaincain Norbu, de 17 anos, o "Buda vivo" educado por Pequim, apareceu pela última vez em fevereiro, quando fez uma doação aos desabrigados pelas fortes nevascas na província de Guizhou.
O Panchen Lama é, além de sucessor, o segundo em categoria após o Dalai Lama (líder espiritual e político), segundo a hierarquia da escola budista Gelugpa.
Após seu exílio na Índia, em 1959, após a ocupação do Tibete, o Dalai Lama escolheu em 1995 o menino de 6 anos, Gendun Choekyi Nyima, como o 11º Panchen Lama, mas o paradeiro dele é desconhecido e pode estar retido pelo governo chinês.
"Somos contra qualquer ação de dividir o país que prejudique a unidade étnica. Condenamos os crimes de um pequeno número de pessoas que destrói vidas e propriedades", disse hoje o Panchen Lama eleito pelo partido.
A rede de televisão "CFTV" também divulgou o protesto da Câmara Chinesa de Comerciantes na Rússia pelas "ações ilegais, organizadas, e premeditadas pelo 'bando' do Dalai para destruir a estabilidade e solidariedade no Tibete".
Durante a Assembléia Nacional Popular --com a presença do presidente chinês, Hu Jintao--, o governador do Tibete, Qiangba Puncog, classificou os protestos de complô destinado ao fracasso.
"Trataremos os criminosos com dureza. Atacar, destruir, saquear e queimar. Condenamos taxativamente esse comportamento destinado ao fracasso", disse Qiangba.
Os distúrbios da sexta-feira foram o apogeu dos protestos que ocorrem desde segunda-feira em Lhasa, quando 500 monges do mosteiro de Deprung comemoravam pacificamente o 49º aniversário da rebelião de 1959 contra o domínio chinês.
Estes fatos se transformaram na primeira grande crise para um país envolvido nos preparativos dos Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim, por meio dos quais quer se apresentar como um país unido e próspero.
O Dalai Lama, figura venerada pelos tibetanos e Prêmio Nobel da Paz de 1989, pediu do exílio ao Governo chinês que não utilize "a força bruta" na repressão, e considerou ridícula a acusação de ser o organizador dos protestos.
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