Governos chinês e tibetano dão versões diferentes sobre Tibete
Os governos chinês e tibetano no exílio continuaram a trocar acusações nesta quarta-feira sobre a onda de violência que tomou conta do Tibete e de várias Províncias chinesas nas últimas duas semanas, territórios que continuam isolados da imprensa estrangeira e independente.
As manifestações, que começaram em Lhasa, foram organizadas para lembrar o aniversário da fracassada rebelião tibetana contra o domínio chinês em 1959 --que resultou no exílio do líder espiritual dalai-lama--, e se espalharam por outras regiões da China.
| Rick Rycroft/AP |
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| Manifestantes reivindicam o fim da repressão chinesa no Tibete em frente ao Consulado da China em Sydney, Austrália |
Outros protestos pró-Tibete têm ocorrido em frente a Embaixadas da China em diversos países como Reino Unido, EUA, Bélgica, Portugal e Austrália.
Enquanto o regime comunista afirma que a região tibetana volta pouco a pouco à normalidade após as revoltas que arrasaram Lhasa, o governo tibetano se esforça para desmentir a versão oficial chinesa, e diz que é cada vez mais difícil obter informações independentes.
A agência de notícias oficial chinesa Xinhua anunciou nesta quarta que 105 tibetanos se entregaram à Justiça chinesa durante as operações feitas na capital tibetana, e disse que todos os rendidos admitiram ter participado de saques e incêndios e lamentaram terem se "contagiado" com a multidão enfurecida.
Versão oficial
Essas "rendições voluntárias" foram chamadas pela Administração Central Tibetana, o governo no exílio em Dharamsala, norte da Índia, de "detenções arbitrárias efetuadas casa a casa com base em fotos e imagens feitas durante os distúrbios pelas câmeras de segurança instaladas na capital".
Os meios de comunicação oficiais chineses também tentam transmitir uma imagem de tranqüilidade da conturbada região autônoma.
Nas páginas da imprensa oficial do país desta quarta, figuram estabelecimentos comerciais voltando a abrir suas portas, escolas cheias de alunos e idosas tibetanas que completam 117 anos graças ao "desenvolvimento econômico e à melhoria da saúde que a China levou à região".
| Arte Folha Online |
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Diante de uma fotografia da Xinhua na qual vários jovens chineses com uniformes médicos e roupas de enfermeiras atendem camponeses tibetanos, o dalai-lama afirmou nesta quarta, em entrevista ao jornal italiano "La Repubblica", que "muitos tibetanos feridos não recebem assistência nos hospitais".
O papa Bento 16 expressou hoje sua "dor e tristeza diante do sofrimento de tantas pessoas no Tibete", e fez votos para que "o caminho do diálogo e da tolerância seja escolhido, já que os problemas não são resolvidos com violência".
Enquanto Pequim afirma ter Lhasa sob controle, os grupos de direitos humanos e tibetanos no exílio confirmaram que as revoltas se estenderam às Províncias de Sichuan e Qinghai (limítrofes com o Tibete) e Gansu (ao norte das duas), com grande população tibetana.
Segundo a ONG Centro Tibetano para os Direitos Humanos e a Democracia, as manifestações de ontem em Gansu deixaram vários mortos, baixas que o governo chinês se nega a reconhecer. Segundo Dharamsala, o número total de mortos já chega a quase cem.
A China afirma que cerca de 16 pessoas morreram nas manifestações, e que as forças de segurança não são responsáveis pelas mortes.
Imprensa
Apesar de a censura à imprensa estrangeira ter aumentado e apenas a internet estar funcionando, alguns canais internacionais como a CNN e a BBC deixaram de sofrer cortes em suas transmissões ao mencionarem o Tibete.
Os chineses com acesso a esses canais puderam ver nesta quarta as revoltas registradas na sexta-feira em Lhasa graças ao vídeo gravado por um turista de um hotel, no qual se percebe claramente a entrada de vários tanques nas ruas da capital e a manifestação de uma multidão de civis e de monges.
A população chinesa também pôde ver o ataque de dezenas de tibetanos montados a cavalo e em bicicletas contra um edifício governamental de Hezuo, cidade de Gansu, no qual os civis conseguiram tirar a bandeira chinesa, rasgá-la e levantar um emblema tibetano antes da chegada do destacamento antidistúrbios.
O secretário do Partido Comunista Chinês na região, Zhang Qingli, afirmou ao jornal oficial "Tibet Daily" que a China está "no meio de uma feroz luta com sangue e fogo, vida e morte, contra o inimigo".
Segundo Zhang, o dalai-lama é "um lobo em pele de cordeiro, um monstro com face humana e coração de animal".
O premiê chinês, Wen Jiabao, disse na terça-feira que dalai-lama organizou os protestos, os mais violentos no Tibete desde 1989. Dalai-lama afirmou que a acusação é totalmente sem fundamentos.
Pequim também tentou minimizar os efeitos da crise nos próximos Jogos Olímpicos, e afirmou que dentro de semanas a tocha olímpica passará pelo Tibete e subirá o monte Everest apesar dos distúrbios.
O governo reiterou seus pedidos para que política e esporte não sejam misturados.
Dalai-lama
O dalai-lama declarou na terça que renunciará ao cargo de líder tibetano no exílio se a medida ajudar a conter a violência em seu país.
"Se as coisas ficarem fora de controle, então minha única opção é renunciar", disse o dalai-lama, o líder espiritual exilado do Tibete, em uma entrevista coletiva na cidade de Dharamsala (norte da Índia), onde fica a sede do governo tibetano exilado.
O dalai-lama, exilado na Índia, negou as acusações chinesas que ele estava planejando os protestos e disse que ele é contra a violência. "Mesmo que mil tibetanos sacrifiquem suas vidas, não ajuda muito", disse aos repórteres. "Por favor, ajudem a parar a violência do lado chinês e também do lado tibetano."
Com Efe
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