São Paulo, segunda-feira, 04 de setembro de 2006

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ENTREVISTA DA 2/JORGE BORNHAUSEN

Após a eleição, PFL e PSDB devem cuidar das suas vidas

Presidente do PFL dá mostras de que já vislumbra a vitória de Lula e põe em dúvida a manutenção da aliança com os tucanos

A oposição não pediu o impeachment do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em agosto de 2005, quando o publicitário Duda Mendonça admitiu ter recebido pelo caixa dois pela campanha presidencial de 2002, porque tinha medo de ser derrotada na Câmara e, assim, dar um "documento, indevido e injusto, de honorabilidade" ao petista. É o que diz o presidente do PFL, Jorge Bornhausen, 68, que, assim, descarta a explicação predominante à época, de que faltava "respaldo da sociedade" para tentar impedir Lula.

VERA MAGALHÃES
DO PAINEL, EM BRASÍLIA

SILVIO NAVARRO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Um ano depois, Bornhausen diz acreditar que a "memória" do eleitor possa ser "sacudida" pelas denúncias que atingiram membros do governo, volta a responsabilizar Lula, mas, em vários momentos de uma entrevista concedida à Folha na última quarta-feira, dá mostras de que já vislumbra a vitória do petista e a possibilidade de o PFL ficar na oposição. Tanto que põe em dúvida a manutenção da aliança com o PSDB, dizendo que, a partir de 2007, cada um deve "cuidar da sua vida". Leia a seguir os principais trechos da entrevista:  

FOLHA - Qual o caminho que o sr. vislumbra para o PFL a partir do ano que vem?
JORGE BORNHAUSEN
- Em primeiro lugar, precisamos verificar quais os partidos que vão superar a cláusula de desempenho. De maneira concreta, hoje, só podemos afirmar que quatro partidos têm permanência assegurada na vida política nacional -PFL, PMDB, PT e PSDB. Teremos seis ou sete partidos. Aí você vai ter um novo quadro partidário. Será uma grande contribuição para que se complete a reforma política. Dentro desse quadro, o PFL tem de imaginar seu futuro. Se o resultado eleitoral for favorável a nós, como eu espero, temos de ter o cuidado de ser seletivos na entrada daqueles que vão ficar sem partido e que procuram o pólo vencedor. Temos de ser seletivos sobretudo no campo ético. Se não tivermos sucesso, temos de ter também uma postura firme, para não viver os problemas que vivemos nessa fase. Logo de cara, quem quiser aderir ao governo será convidado a sair.

FOLHA - Nos primeiros anos do governo Lula, o fato de ter ido para a oposição desidratou o PFL. Isso pode se repetir num segundo mandato?
BORNHAUSEN
- O PFL sofreu uma lipoaspiração pelo mensalão. Tanto é que nesses casos de mensalão e sanguessugas tem muitos daqueles que foram cooptados pelo governo quando estavam no PFL. Para nossa felicidade e para a desgraça do Brasil, o governo optou pela corrupção e pelo mensalão. Mas isso foi bom por ter feito uma purificação no PFL. Pode não ter sido completa, eu reconheço, mas o partido melhorou na sua unidade, na qualidade dos quadros, na obrigação de fazer oposição fiscalizadora e permanente.

FOLHA - O partido adquiriu "experiência" para ser oposição?
BORNHAUSEN
- Sem dúvida. A verdade é que o PFL precisava passar pela oposição. E o fez de forma correta. Fomos governo sempre que ganhamos a eleição. O PFL nunca foi um partido adesista. Fomos governo com Fernando Henrique porque demos o vice na chapa, nas duas ocasiões. No governo Sarney, idem. No governo Collor, apoiamos no segundo turno. Não aderimos em momento algum, sempre participamos do processo eleitoral.

FOLHA - A oposição do PFL foi gradativa. No primeiro momento houve focos de aproximação com o governo e, no fim, chegou quase a pedir o impeachment do presidente. Como o sr. responde aos que os acusam de fazer oposição estridente, ou até golpista?
BORNHAUSEN
- Eu acho que o PFL cumpriu o papel que tinha de desempenhar. Se foi mais estridente foi porque o governo exigia essa ressonância, essa vocalização, face à desgraça de corrupção que Lula e o PT trouxeram para a administração pública. Foi o período mais triste em termos éticos da história da República brasileira.

FOLHA - No auge da CPI dos Correios, quando houve o depoimento de Duda Mendonça, a oposição optou por não pedir o impeachment. Foi a estratégia correta?
BORNHAUSEN
- A análise tem de levar em conta o exame do processo legislativo. Qualquer pedido de impeachment pode ser arquivado pelo presidente da Câmara de forma monocrática. Para ser desarquivado, precisa da assinatura de 10% dos deputados. Temos esse número. Acontece que ele precisa de dois terços da Câmara para sua admissibilidade, e nunca tivemos esses dois terços. Prova é que na sucessão de Severino Cavalcanti, que renunciou, o vencedor foi Aldo Rebelo. Nunca tivemos maioria, quanto mais dois terços. Se tivéssemos ingressado naquele momento e a admissibilidade tivesse sido negada, a Câmara estaria dando um documento, indevido e injusto, de honorabilidade ao presidente Lula, que tem responsabilidade por culpa e dolo por tudo que ocorreu.

FOLHA - Mas a explicação dada à época foi que faltava respaldo na sociedade.
BORNHAUSEN
- Eu nunca me preocupei com respaldo na sociedade. O que me preocupava era dar um atestado de boa conduta a quem não merecia, a quem era o responsável direto pela má conduta dos negócios escusos.

FOLHA - PSDB e PFL recompuseram a aliança depois de um afastamento em 2002. Ela continuará em 2007?
BORNHAUSEN
- Se vitoriosos, evidentemente a participação no governo nos manterá dentro de uma aliança, de uma concertação. Se perdedores, só posso garantir uma coisa: o PFL fará oposição.

FOLHA - O sr. diz isso porque teme que o PSDB seja levado a se aproximar do governo, que advoga a tese da concertação?
BORNHAUSEN
- Eu acredito que o PSDB também será oposição, mas sempre em situação mais difícil, em razão das prováveis vitórias em São Paulo e em Minas Gerais.

FOLHA - Por que isso dificulta?
BORNHAUSEN
- Porque evidentemente os governadores querem ter bom relacionamento com o governo federal. E, no caso dos dois, por serem potenciais candidatos a presidente, querem que o partido fique mais contido.

FOLHA - Nesses dois Estados, o cargo de vice já não é do PFL. Pode ser mais uma razão de afastamento?
BORNHAUSEN
- Eu entendo com muita clareza que a nova composição partidária, com menos partidos, será um fator inibidor de próximas coligações. Os partidos que não disputarem as eleições majoritárias com candidatos próprios a tendência é caírem e, amanhã, não alcançarem a cláusula de desempenho. Então, cada um vai ter de tratar da sua vida. PFL e PSDB também.

FOLHA - O PFL passará a priorizar o Executivo? Terá tempo de lançar um nome para 2010?
BORNHAUSEN
- Sim. Os partidos passarão a ter como prioridade disputar o Executivo com candidaturas próprias. Temos tempo para que um candidato se imponha. Os nomes sairão depois da eleição, a partir do desempenho de cada um. O partido já atualizou seu programa partidário, fez sua refundação, fez uma limpeza interna, muitas vezes por iniciativa própria, e outras pela cooptação desonesta do governo Lula. Agora estamos prontos. Aliás, no meu entendimento, já deveríamos ter concorrido agora com candidatura própria.

FOLHA - O sr. se arrepende da aliança?
BORNHAUSEN
- Eu achava que deveríamos ter candidato, mas a maioria achou que era melhor fazer a aliança para não dispersar forças. Eu, como presidente do partido, nada pude fazer senão acatar. Não sou dono do partido, e sim representante que segue a idéia majoritária do partido. Agora não adianta olhar para trás. Estamos no meio de uma corrida. Temos de superar as dificuldades e procurar chegar ao segundo turno, porque aí é outra eleição.

FOLHA - Qual seria a proposta do PFL para postular a Presidência? O partido tem base social para isso?
BORNHAUSEN
- Nossa agenda demonstrou claramente que somos um partido de centro-reformista, porque nós entendemos que o Brasil precisa crescer e gerar empregos. Então, tem de dar prioridade às ações da iniciativa privada. O governo tem a obrigação de fazer a fiscalização. Aí o papel de fiscalização, pela sociedade, por meio das agências. Claro que temos base social. A maior ambição de cidadania é emprego e educação. Isso é possível se investirmos em educação e criarmos condições de a iniciativa privada crescer -com menos impostos e mais empregos- e se o governo não atrapalhar como faz agora.

FOLHA - Lula aparece consolidado na liderança das pesquisas, com possibilidade de vencer no primeiro turno. A que o sr. atribui esse favoritismo?
BORNHAUSEN
- Não posso me convencer que o brasileiro vá, nesse plebiscito de 1 de outubro, optar pela desonestidade e pela mentira. Temos um mês para que a memória dos nossos eleitores seja sacudida, e que uma reflexão mais profunda nos permita nos ver livres desse governo incompetente e corrupto, evitando o desastre que seria um segundo mandato. Eu fui ministro da Casa Civil. Posso afirmar com muita segurança que não existe ninguém mais informado no país que o presidente da República. Portanto, a afirmação de que Lula não sabia do mensalão, do valerioduto, da cooptação, do dinheiro público pago a Duda Mendonça é mentirosa, própria de quem não tem dignidade para governar o país.

FOLHA - O PT acusa o PFL de fazer oposição golpista. E declarações suas, como a de que o país ficaria livre da "raça" petista por pelo menos 30 anos são usadas para avalizar essa análise.
BORNHAUSEN
- Quando afirmei, numa reunião de empresários, que entendia que o Brasil ficaria livre dessa raça por 30 anos, o fiz na direção dos corruptos do governo do PT. Não generalizei em momento algum. Os que procuraram generalizar foram justamente aqueles que resolveram avalizar os corruptos do governo do PT. Os que tentaram me caracterizar como fascista eu interpelei judicialmente. O ministro Luiz Marinho, em sua resposta, deu uma explicação evasiva, própria dos que não têm caráter para manter suas posições.

FOLHA - O sr. também insinuou uma relação entre o PT e os ataques atribuídos ao PCC em São Paulo.
BORNHAUSEN
- É evidente que existem indícios. O membro da Executiva estadual do PT de São Paulo Jilmar Tatto está sendo investigado por um inquérito policial em Santo André, em razão da questão das vans, que têm frotas comandadas pelo PCC. Isso deixa claro por que existem vans e ônibus incendiados. A revista "Veja" divulgou diálogos de membros do PCC pedindo votos para o [José] Genoino para governador. Agora, a Folha publicou diálogos em que integrantes do PCC pedem que matem políticos, menos os do PT. O que posso dizer é que há indícios desse conluio. Cabe às autoridades investigar essa questão.


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