São Paulo, segunda, 7 de dezembro de 1998

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CAPITALIZAÇÃO
Em situação pré-falimentar, empresa não resgata títulos vencidos e deixa de entregar prêmios de sorteios
Papa-Tudo dá calote de R$ 218 milhões

CLÁUDIA TREVISAN
da Reportagem Local

O Papa-Tudo, que viveu dias áureos quando Xuxa era sua garota-propaganda, está em situação pré-falimentar: deve R$ 168 milhões em títulos de capitalização já vencidos e R$ 50 milhões a fornecedores de bens e serviços. Um total de R$ 218 milhões. Essa dívida deve crescer ainda mais com os R$ 70 milhões em títulos a vencer.
Perto disso, o calote nos vencedores de prêmios parece irrisório. O Papa-Tudo já deixou de entregar 1.200 televisores e 125 ambulâncias ganhas em sorteios por detentores de seus títulos.
Os títulos de capitalização do Papa-Tudo, assim como os da Telesena, custam R$ 3,00. Metade desse valor pode ser resgatada, com correção, um ano depois da compra. A outra metade é utilizada na administração da empresa, em publicidade e na compra de prêmios a que os consumidores têm direito.
A dívida de R$ 168 milhões é relativa apenas à parte do resgate dos títulos vencidos.
As informações são do advogado João Ferreira, sócio de uma empresa especializada em administração de massas falidas que está no comando do Papa-Tudo há dois meses.
Ou pelo menos tenta estar no comando. Além dos problemas financeiros, o Papa-Tudo vive uma disputa interna de poder. Arthur Falk, que está na empresa desde sua criação, conseguiu na Justiça liminar que anula a nomeação de João Ferreira como diretor-presidente do Papa-Tudo. Enquanto isso, Ferreira e o restante dos sócios tentam encontrar uma forma de afastar Falk da empresa.
Formalmente, a maior parte das ações do Papa-Tudo (64%) está com a BBC Serviços, da qual Ferreira é sócio. O empresário Gilberto Bomeny, do grupo World Trade Center, detém 2% do capital. O restante está com Falk.
Susep
O Papa-Tudo chegou a uma situação pré-falimentar apesar de estar sob direção fiscal da Susep (Superintendência de Seguros Privados) há dois anos. Segundo a assessoria de imprensa do órgão fiscalizador, esse regime equivale a uma "intervenção branca", que dá à Susep o controle sobre as contas e pagamentos realizados, para evitar gastos desnecessários.
As dificuldades de pagamento do Papa-Tudo começaram pouco antes de ser decretada a direção fiscal, há dois anos, mas a Susep só proibiu a empresa de emitir novos títulos em julho de 1998.
A origem da inadimplência é óbvia: o Papa-Tudo não tem reservas suficientes para quitar os resgates de títulos e a entrega de prêmios.
Pela legislação, toda a empresa de capitalização deve ter uma reserva técnica para garantir o interesse do público que compra seus títulos. Cabe à Susep fiscalizar a qualidade dessas reservas.
Ferreira afirma que o Papa-Tudo deveria ter uma reserva de R$ 200 milhões. Mas o valor, segundo ele, é "muito inferior" a esse. Diz que, desde 96, há "defasagem" entre o valor declarado das reservas e o valor real. Na época, Falk era o acionista controlador do Papa-Tudo.
Parte das garantias têm liquidez e é considerada "boa". Entram nesse bolo ações da Varig no valor R$ 40 milhões de propriedade da empresa. Mas há também garantias "podres", sem liquidez ou superavaliadas. Por isso, Ferreira diz que é impossível definir o real valor das reserva técnicas.
A assessoria de imprensa da Susep disse que o Papa-Tudo tem cumprido os compromissos assumidos com o órgão e que está realizando os pagamentos de títulos, ao contrário do que diz Ferreira.
Arthur Falk disse ontem à Folha que os novos controladores do Papa-Tudo fizeram uma auditoria na empresa durante um mês antes de fechar o negócio e não constataram problemas.
Falk defende a sua gestão na empresa: "Não atrasei o pagamento de títulos, a entrega de prêmios ou o salário dos funcionários".
A Folha tentou por três dias entrevistar Gilberto Bomeny. Sua secretária disse que ele estava viajando, mas que havia dado o recado.



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