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São Paulo, domingo, 19 de outubro de 2003

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TÚNEL DO TEMPO

ONG divulga fita em que o então pré-candidato à Presidência agradava aos agricultores atacando multinacionais

Lula achava "burrice" liberar transgênicos

DA REPORTAGEM LOCAL

Uma fita de vídeo gravada por uma ONG antitransgênica mostra o tamanho da divergência entre o hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o então pré-candidato à Presidência Lula de julho de 2001 no que se refere à liberação dos transgênicos. Na gravação, ao responder a uma pergunta de um repórter da Folha, Lula afirma que era "no mínimo burrice", sob o aspecto comercial, a liberação da soja transgênica.
"Do ponto de vista comercial, é no mínimo burrice de quem pensa que a soja transgênica vai abrir algum mercado para o Brasil", diz Lula na entrevista que concedeu em 30 de julho de 2001 num sítio de São Mateus do Sul (PR), durante a Caravana da Agricultura Familiar, organizada pelo Instituto da Cidadania, entidade ligada ao PT, e pela CUT (Central Única dos Trabalhadores).
Na fita, gravada pela AS-PTA (Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa), Lula comenta a decisão do então presidente, Fernando Henrique Cardoso, de assinar um decreto que fixava regras para a rotulagem de alimentos que contivessem OGMs (organismos geneticamente modificados).
"Agora, eu sou radicalmente contra [a liberação dos transgênicos] e acho um retrocesso o governo fazer isso. Isso, na verdade, está acontecendo porque mais uma vez a elite política desse país se rende ao fascínio de uma multinacional", disse o petista.
A pedido de Lula, o vice-presidente da República, José Alencar, baixou uma medida provisória há três semanas para liberar o plantio e a comercialização de soja transgênica no país.
Numa entrevista concedida em 17 de agosto último ao programa "Fantástico", da Rede Globo, Lula disse que estava mudando de idéia a respeito dos transgênicos: "Já fui politicamente muito contrário; hoje, cientificamente, tenho dúvidas". Mas, na entrevista concedida durante a caravana do Paraná, Lula mostra que também levava em conta razões objetivas econômicas, e não apenas científicas, para ser contrário à liberação da soja transgênica.
"Nem sei se o meu partido tem uma posição coletiva, uma decisão. Eu, particularmente, sou contra." Para justificar sua posição, Lula citou quatro motivos. O primeiro, "não está provado cientificamente que é a melhor soja ou que tenha as melhores qualidades [do que] a soja orgânica"; o segundo, "você fica dependente de semente que a [empresa multinacional] Monsanto é detentora da patente"; e o terceiro, o suposto erro de se achar que a soja transgênica abriria mercados ao país.
O quarto motivo, também de natureza comercial, foi o mais explicado por Lula em sua entrevista. "Em vez de o Brasil ficar tentando disputar mercado com os Estados Unidos, seria muito melhor que o Brasil aprimorasse a nossa produção de soja não-transgênica e tentasse fazer com que a nossa soja tivesse mais penetração no mercado europeu e no mercado japonês".
Segundo o pré-candidato, "o Brasil precisaria pensar enquanto nação e definir o que o Brasil deseja primeiro, antes de ficar aceitando as imposições de empresas multinacionais".

"Esperança"
Para o Lula de 2001, a opção de o governo investir na soja não-transgênica seria boa para o governo: "Na minha opinião, seria até uma questão de inteligência de marketing do governo brasileiro e seria uma agressiva política de comércio exterior, colocando para competir a soja transgênica da Monsanto com a soja não-transgênica que o agricultor brasileiro tão bem já sabe produzir".
A gravação mostra que as palavras de Lula tiveram grande aceitação entre os agricultores que assistiam à entrevista. Os aplausos tiveram de ser contidos pela apresentadora, que pediu silêncio nos seguintes termos: "Eu sei que vocês todos ficam faceiros com essas respostas do Lula. A gente vibra de saber que a esperança está no ar, mas a gente precisa deixar os jornalistas trabalharem".
A entrevista então continuou. Um jornalista de "O Estado de S. Paulo" tocou novamente no tema, perguntando se Lula, eleito presidente da República, proibiria os transgênicos. Lula se mostrou contrariado com o fato de o repórter voltar ao mesmo assunto e com a especulação sobre a definição do processo eleitoral: "É muito difícil você dar resposta para uma coisa que vai acontecer daqui a um ano e meio. O que eu acho é que o Brasil não precisa de soja transgênica. Para bom entendedor, meia palavra basta. O que vai acontecer depois do dia 1 de janeiro de 2003, você vai ficar sabendo no momento".
Durante a campanha eleitoral, Lula tornou a se manifestar contrariamente aos transgênicos levando em conta aspectos econômicos e ambientais. Mas, dessa vez, no papel. O texto explicativo do projeto Fome Zero diz, na página 87, que os transgênicos "não resolverão" o problema da fome no país e acrescenta: "Pelo contrário, o cultivo de produtos transgênicos poderá prejudicar o acesso aos mercados externos importantes para o Brasil, que exigem áreas livres de transgênicos, e pode promover uma poluição genética com resultados imprevisíveis".
O texto do projeto, que teve a coordenação geral do próprio Lula, continua, no capítulo que trata da agricultura familiar: "O projeto Fome Zero apóia as propostas da Campanha Nacional Por um Brasil Livre de Transgênicos, que envolve diversas entidades e ONGs".
A AS-PTA, que fez a gravação da visita de Lula ao Paraná, integra a campanha citada no texto.
(RUBENS VALENTE)


Colaborou PLÍNIO FRAGA, da Reportagem Local


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