São Paulo, domingo, 29 de junho de 2008

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ELIO GASPARI

O comissariado está destruindo o Ipea


O esquadrão petista trabalha com duas patrulhas: a ideológica esconde números e a funcional esconde pessoas

O COMISSARIADO petista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, está destruindo uma instituição sacrossanta surgida em 1964 e respeitada até mesmo pelas bruxas da ditadura. Fazem isso com a grosseria dos bolcheviques e os instintos manipuladores dos economistas de Néstor Kirchner. O último golpe da moçada foi a alteração da periodicidade da divulgação de projeções pela Carta de Conjuntura, uma publicação trimestral do instituto, criada em 1986.
Mais: embargaram a divulgação de projeções macroeconômicas que já haviam sido mandadas para a próxima publicação. Pior: mantiveram um cenário de previsão do aumento do consumo entre 3,3% e 5%, quando cálculos já fechados indicam que a expansão poderá ficar entre 6% e 8%. Esse texto foi reescrito por pessoas que se julgam detentoras da visão genial do problema. Isso tudo acontece sob o guarda-chuva do ministro Mangabeira Unger, que até bem pouco tempo trabalhava em Harvard, e do professor Márcio Pochmann, vindo da Unicamp.
Segundo o companheiro Miguel Bruno, que dirige a Carta, "o Ipea não quer alimentar especulações do mercado". Falso, o negócio é não provocar expectativas ruins na sociedade. Felizmente Bruno nunca operou no mercado, pois teria quebrado se esperasse dados do Ipea para fechar seus negócios. A turma do papelório dos bancos lida com projeções diárias muito mais refinadas. Além disso, o Banco Central produz e divulga análises de boa qualidade. O que o comissariado quer é brincar de felicidade.
Desse jeito, acabarão querendo orientar as pesquisas do IBGE. O mercado, ao contrário da roubalheira e do aparelhamento do Estado, é uma coisa essencialmente boa. Os países que seguiram sua dinâmica prosperaram. Os que tiveram idéia melhor, arruinaram-se.
Bruno foi além e disse que, "antes, o Ipea atuava em dobradinha com o mercado financeiro". O comissário precisa definir "antes", "Ipea" , "atuava" e "dobradinha". Até lá, fica no ar a desprimorosa suspeita de que o instituto esteve dominado por uma cáfila de especuladores.
Havendo "antes", há de haver "quem". Está acontecendo no Ipea algo mais grave e primitivo do que o velho e bom disfarce das notícias ruins. Estão encostados ex-diretores recentes e pesquisadores de renome internacional, como Ricardo Paes de Barros. Foi ele quem fez as contas que puseram de pé o Bolsa Família.
PB, como é conhecido, continua no Ipea por amor à camisa da Seleção, pois teve vários convites para saltar. Um deles, da Universidade de Yale. Num astucioso episódio, o economista Fábio Giambiagi foi defenestrado e devolvido ao BNDES. O Grupo de Conjuntura, onde se discutem tendências da economia, foi expurgado. Isso no campo do patrulhamento intelectual.
Há também patrulhas funcionais. Já ocorreu caso de transferência, pelo telefone, de um economista que tinha mais de 20 anos de experiência num setor. O diretor de estudos macroeconômicos, doutor João Sicsu, jamais pôs os pés num seminário (exceção para uma homenagem a Maria da Conceição Tavares). Ele pode estar certo ao não usar o sistema de mensagens eletrônicas do instituto, mas isso não ajuda o bom andamento dos trabalhos.
Com 300 economistas, o Ipea tornou-se uma instituição desorganizada, convertida em orquestra e platéia do egocentrismo de seu presidente que, do pódio, oferece refogados de pesquisas velhas com farofas novas, ao gosto do Planalto. Falta aos comissários a generosidade profissional de chefes recentes, como Roberto Martins, que contribuiu para o reconhecimento de Paes de Barros. Caso o doutor Pochmann queira seguir um exemplo, pode prestar atenção na conduta do presidente do IBGE, Eduardo Nunes.
Se as práticas do comissariado petista estivessem em vigor ao tempo da ditadura, teriam sido afogadas as carreiras de economistas como Pedro Malan, Edmar Bacha, Regis Bonelli e Claudio Moura Castro. Foi graças a eles que os futuros petistas aprenderam (se é que aprenderam) de onde viria a crise da economia do Milagre Brasileiro.

PROTOCOLO LEMANN
Um episódio reconfortante para quem padece com pessoas que atendem chamadas de seus celulares durante almoços, jantares e reuniões:
Na manhã do dia 12, um cidadão com uma mochila Swiss Army chegou à sala onde ia-se reunir o conselho do escritório brasileiro do David Rockefeller Center for Latin American Studies, da Universidade Harvard. Durante três horas ele participou de uma agenda corriqueira. Ouviu os relatos de seis estudantes americanos que passam temporadas no Brasil. Um deles vestia uma camisa vermelha, com a estampa de Che Guevara. O cidadão manteve um aparelho Blackberry e um celular ao alcance da mão e nenhum dos dois fez ruídos, nem ele atendeu qualquer chamada.
Quando a reunião terminou, Jorge Paulo Lemann foi embora e fez um rápido comentário: "Lá vou eu, porque meu mundo está pegando fogo". Na véspera , tornara-se pública a oferta da InBev de 46,3 bilhões de dólares pelo controle da indústria cervejeira Anheuser-Busch, a maior dos Estados Unidos.

LERO-LERO
Lula voltou a defender a reforma política. Ele faz isso sempre que não quer falar de coisa séria, nem se meter na campanha eleitoral ou, melhor dizendo, meter as mãos na campanha. Quando acontece a mesma coisa com a economia, Nosso Guia relança o tema da reforma tributária.

ELETRICIDADE
Não são boas as relações do Nosso Guia com Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal. E podem piorar. Como dizia Mario Henrique Simonsen a respeito do choque de egos de Placido Domingo e Luciano Pavarotti: há lugar para os dois na cidade.

E-MAIL
De Manuel Bandeira, para FHC: Quando minha irmã morreu, (Devia ter sido assim)
Um anjo moreno, violento e bom - brasileiro
Veio ficar ao pé de mim.
O meu anjo da guarda sorriu
E voltou para junto do senhor.

UMA SÓ VAGA
O senador Cristovam Buarque já mostrou que sonha com a possibilidade de ser eleito diretor-geral da Unesco. A escolha ocorrerá em outubro de 2009. Desde 1946 nenhum latino-americano foi escolhido para a função, o que fortalece a candidatura de um brasileiro, se ela estiver amparada numa rede de apoios.
Para emplacar Koïchiro Matsuura, o governo japonês começou a trabalhar a vaga com dois anos de antecedência.
Se o Itamaraty for à luta, Cristovam tem chances. Do contrário, convém desestimulá-lo.
Caso o chanceler Celso Amorim tenha no forno outra candidatura brasileira para a direção de um organismo internacional, a diplomacia de Nosso Guia recuperará a inhaca de fominha e o senador derrapará.

ERRO
Estava errada a informação publicada aqui segundo a qual Clésio Andrade, presidente da Confederação Nacional dos Transportes, está entre os candidatos à compra da VarigLog.
Foi injusta a associação de Andrade com o mensalão mineiro. Ele foi sócio do publicitário Marcos Valério e vice-governador de Minas Gerais ao tempo de Eduardo Azeredo, mas o Supremo Tribunal Federal, instância legítima para julgar coisas desse tipo, não o colocou entre os réus do processo.


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