São Paulo, domingo, 30 de janeiro de 2005

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ELIO GASPARI

Uma história brasileira de sucesso

Fica no Brasil uma das poucas cidades do mundo onde os habitantes têm acesso gratuito, veloz e ilimitado à internet. Chama-se Sud Menucci (sudeste de SP), com 7.500 moradores e 2.000 casas, 107 das quais conectadas à rede. A operação custa R$ 3.200 mensais à prefeitura e é possível que antes de junho ela incorpore a tecnologia WiFi, que dispensa os cabos. Se isso acontecer, como acredita o prefeito Celso Junqueira, a cidade americana de Filadélfia perde a corrida para Sud Menucci. (Que nome é esse? A explicação está no final da nota.)
A história da proeza mostra, como diria Lula, que a vontade de fazer associada à vontade de trabalhar consegue o impensável.
Em 2002, Sud Menucci estava no lixo da internet. Seus habitantes precisavam buscar a conexão discada num número interurbano. O chefe do serviço de informática da prefeitura (Sérgio Soares, 35 anos) recebeu do prefeito (Nelson Gonçalves de Assis) a tarefa de buscar uma solução. Essa mesma conversa deve ter acontecido em centenas de municípios do Brasil e quase sempre acabou em nada. Sérgio foi à luta. Hoje, graças à torre de transmissão da prefeitura, toda a cidade tem acesso à banda larga. Os moradores precisam apenas de uma antena, cujo preço varia de R$ 300 a R$ 500. Daí em diante, nada.
Sud Menucci não é nenhuma Filadélfia. Depende da cana, e seu Orçamento anual é de R$ 11 milhões, dinheiro que não paga a reforma que a plutocracia nacional faz no Palácio da Alvorada (R$ 16 milhões). Tem duas escolas com 40 computadores e uma biblioteca com três.
Sud Menucci foi um jornalista e professor, autor de "A Crise Brasileira da Educação". Morreu em 1948, aos 56 anos, tendo vivido para defender a qualidade do ensino público. E por que se chamava Sud? O pai dele gostava de dar nomes geográficos aos filhos.

O mapa do fracasso dos povos

Depois de "Armas, Germes e Aço", o professor americano Jared Diamond saiu-se com outro bom livro. É "Colllapse" (colapso), que acaba de sair nos Estados Unidos. Num ele contou como a sociedade européia deu certo. Pouco a ver com cultura e religião. Muito a ver com fatores ecológicos. Agora ele conta como outras sociedades deram errado. Por que os maias e o Império Khmer do Camboja foram à breca? Quase sempre por agressões ao meio ambiente, superpopulação e descaso.
"Colapso" antevê catástrofes na China e na Austrália. (Passa lotado pelo Brasil.) Na conta de Diamond, se o países subdesenvolvidos reduzirem a distância que os separa das nações ricas, o progresso custará ao meio ambiente uma agressão 17 vezes superior à que sofre hoje. Do jeito que a coisa vai, não dá.
Um bom momento do livro, sobretudo para os brasileiros, está no paralelo entre o Haiti e a República Dominicana. Dividem a mesma ilha. O Haiti já foi a colônia mais rica da América. Foram governados por ditadores (Papa Doc e Rafael Trujillo) e tinham tudo para serem parecidos. Um vai relativamente bem e o outro vai absolutamente mal. Segundo Diamond, isso aconteceu por conta do desmatamento do Haiti (99% do território) e pelo reflorestamento da República Dominicana, que tem 32% do território protegido e 28% de suas terras ocupadas por florestas em 74 parques. Para horror da esquerda sessentona, Diamond mostra que Trujillo foi um bom administrador do meio ambiente. Mais: o presidente Joaquín Balaguer (1906-2002), repulsivo personagem da "Festa do Bode", de Mario Vargas Llosa, foi um protetor das florestas. Usou a força armada para expulsar da mata posseiros (muitos) e milionários (poucos). Em termos relativos, a ajuda americana ao Haiti foi sete vezes maior que à Dominicana. Para nada.
Em todos os casos de colapso, os sábios do pedaço achavam que os sinais enviados pela natureza eram coisa passageira.

Boca-livre
O laboratório Merck informa que não está entre os patrocinadores da boca-livre de parlamentares brasileiros convidados para viajar aos Estados Unidos no entardecer do recesso. A viagem foi organizada pela PhRMA, entidade que representa a grande indústria farmacêutica americana, da qual o Merck é associado. Num convite que "muito nos honra", o Merck mostrará aos parlamentares seu laboratório de Nova Jersey, pertinho de Nova York. Entre os escolhidos pela PhRMA para a missão científica que passará pela Universidade de Georgetown estiveram o senador Ney Suassuna e o deputado Ronaldo Caiado.

Speak português
Para quem acha que a diplomacia brasileira precisa manter a exigência do inglês como matéria eliminatória (repetindo, eliminatória) no concurso de acesso (repetindo, acesso) ao Instituto Rio Branco: nos anos 50 um jovem de classe média de Barra do Piraí resolveu ser diplomata. Fez o exame e teve boas notas. Tirou 0,4 em inglês e foi ao pau. Largou o emprego de fiscal da Previdência e ralou um ano com discos do método Linguaphone, ouvindo a BBC. Na sua cidade ninguém falava inglês. Passou com 7,4, a segunda nota do concurso. Ovídio de Mello não precisava ter perdido um ano da sua vida para adquirir conhecimentos que o curso do Rio Branco oferecia. Ovídio foi um dos melhores diplomatas de sua geração. Grande encrenqueiro, orgulha-se de ter participado da virada da política externa brasileira na África, em 1975. O inglês eliminatório facilita o acesso de jovens de famílias com quatro sobrenomes e apelidos bissílabos. Em compensação, mantém o andar de baixo no seu lugar.

Lula viu a uva
Não é justo que o comissário José Genoino chame FFHH de "preconceituoso" porque pediu a Lula que lesse "um pouquinho" sobre história do Brasil. Lula orgulha-se do seu curso secundário incompleto. Estudar faz parte do serviço de presidente. Chamar Néstor Kirchner de "companheiro Menem" é coisa que pode acontecer a qualquer um, mas mesmo que Lula tivesse todos os diplomas do mundo, não deveria ter dito que Napoleão foi à China ou que Oswaldo Cruz descobriu a vacina da febre amarela. Há dezenas de livros sobre o companheiro, quase todos baseados em longas entrevistas. São raras as vezes em que conjugou o verbo ler. Atribui-se a Genoino a afirmação de que Lula é uma das pessoas que mais conhecem a história do Brasil. Para o comissário, a história do Brasil começou no dia 1 de janeiro de 2003.

Bolsa Família
O repórter Gerson Camarotti fez as contas: os dois candidatos petistas a presidente da Câmara já arrecadaram R$ 436 mil para suas campanhas. Pelo jeito, batem o meio milhão de reais. Noves fora casa, comida e roupa lavada, não se entende por que há tanta sede para tão pouco pote. A menos que haja mais pote nessa história.

Tucanos malvados
O presidente do PSDB, Eduardo Azeredo, promete uma ofensiva crítica às políticas sociais de Lula. Tudo bem. Poderia aproveitar o embalo e explicar por que os tucanos paulistas confiscaram o desconto que o Metrô dava a quem comprava dois bilhetes. Uma passagem custava R$ 1,90, e duas, R$ 3,60 (economia de R$ 0,10 por percurso). O doutor Geraldo Alckmin subiu a tarifa para R$ 2,10 e tungou o desconto.


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