São Paulo, quarta-feira, 30 de maio de 2007

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GILBERTO DIMENSTEIN

Não por acaso

No filme, Philippe Barcinski fez da cidade, e, em especial, de seu trânsito, um misto de cenário e protagonista

AS AULAS DE dinâmica de fluidos na faculdade de física tiveram uma utilidade inesperada na vida de Philippe Barcinski: construir o roteiro de seu filme "Não por Acaso", lançado comercialmente nesta semana.
Isso porque seu professor explicava a teoria usando o trânsito de automóveis -os veículos eram apresentados como os fluidos em movimento.
"Disso surgiu a idéia de criar um personagem que fosse engenheiro de trânsito, tentando controlar a realidade", conta. Na engenharia de tráfego, usam-se fórmulas matemáticas para tentar dar alguma previsibilidade ao fluxo humano. Mas, provavelmente, os conhecimentos de física não teriam essa inspiração se ele próprio não se movimentasse tão radicalmente. Deixou o curso de física na PUC do Rio para estudar cinema na USP. "Não é fácil trocar aquela beleza tão explícita por uma cidade tão tumultuada como São Paulo."
Os primeiros tempos foram de tristeza, de lembrança dos amigos, da informalidade, das praias. Imaginava o que voltaria. "Eu morava no Jardim Botânico, e o Rio era a extensão da minha casa", conta. Sua paixão por filmes foi cultivada, como se deu com muitos de sua geração, no Cine Estação Botafogo.

 

Assim como, ao deixar a física, teve de aprender uma nova carreira, precisou descobrir os códigos de uma nova cidade -e, nisso, se completou o aprendizado para fazer "Não por Acaso", seu primeiro longa-metragem. Ele foi percebendo que, ao contrário do Rio, São Paulo não tem uma beleza óbvia, "na cara". "A beleza aqui precisa ser descoberta e necessita de imaginação."
Revelado esse código, ensina, o indivíduo deixa de se sentir estranho.
No filme, Barcinski fez da cidade, e, em especial, de seu trânsito, um misto de cenário e protagonista, no qual se vive a sensação de perda de controle, contra a qual brigam os personagens -um deles, o engenheiro da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego); outro, um jogador de bilhar (Rodrigo Santoro), mais um a tentar gerenciar os movimentos.
Fora das telas, o esforço de Santoro foi perder o sotaque carioca. "Em São Paulo, existe a vontade coletiva de planejar as saídas; as escolhas dependem quase sempre da geografia. Escolhe-se a escola, o médico, o dentista, o terapeuta, tudo perto de casa."
Nessa dinâmica de desencontros, ele tentou contar uma história de amor, ou seja, da busca de um encontro, na qual aparecem algumas das mais conhecidas paisagens paulistanas, especialmente as do Bexiga.
 

Nessa conjunção de aprendizados, dentro e fora da tarefa, Barcinski acredita que já "enquadrou" São Paulo. Em "Palíndromo", um de seus curtas, o cenário é a avenida Paulista. Para o próximo filme, ainda em estudo, deve ser o bairro de Higienópolis. "São Paulo virou a minha cidade; não tenho mais planos de voltar para o Rio." Nem precisou, como Santoro, perder o sotaque para se sentir em casa.

gdimen@uol.com.br

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