São Paulo, quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

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JOSÉ ROBERTO TORERO

Carta aberta de amor despudorado


Volte, Róbson, que é tempo, volte a sorrir, a ouvir a torcida gritando seu nome, volte para o Santos, volte a ser Robinho!


POR QUE você não volta para mim? Por que você não volta para nós? Eu sei que você está infeliz nesta sua nova vida. Volta. Eu vou lhe receber de braços abertos.
Sim, você me abandonou, me trocou por outro mais rico, mais bonito, mas eu não tenho mágoa. O verdadeiro amor perdoa. O verdadeiro amor não tem orgulho. O verdadeiro amor não tem honra, decência nem pudor. O verdadeiro amor se ajoelha, agarra joelhos, chora e implora. Eu não quero dignidade, só quero você de volta. Só quero que você me faça chorar de vez em quando. De alegria ou de tristeza, tanto faz, desde que você esteja aqui. O que adianta você ficar aí na sua mansão, com seu carro importado, se você está triste? O que adianta ficar longe de mim se você não faz o que gosta, se não faz mais o que eu gostaria que você fizesse? Deixa de bobagem e volta para casa.
E daí que eu não sou rico? Aqui tem mar, aí não tem. Aqui você é amado, aí não é. Aqui eu e todos ficamos à sua volta, aí nem ligam para você. É melhor o meu copo de requeijão do que as taças de cristais daí. É melhor o meu fusca do que o Mercedes dele. É melhor o nosso sambinha em caixa de fósforo do que qualquer dessas sinfônicas que tem por essas bandas. Eu sei que você seria mais feliz do meu lado, do nosso lado.
Deixa de bobagem e volta para cá. Nas fotos que saem nos jornais, eu não vejo mais você sorrindo. E você sabia rir tão bem... Lembra de quantas risadas você dava aqui? Aposto que lembra. E também por se lembrar delas é que você é infeliz aí. Fala a verdade: você já teve momentos felizes aí como teve aqui? Fala! Diz para mim! Aposto que não. E a gente ainda pode ter muitos momentos como os que já tivemos. Muitos! Mas aí, com esse outro...
Duvido! Aí vai ser só cenho franzido e siso. Aqui é só gargalhada e riso. Pense bem: para que perder a sua juventude longe de mim? E depois eu vou lembrar de quê? Você vai se lembrar de quê? Eu sonhava com uma velhice em que nós dois lembraríamos os momentos maravilhosos que passamos juntos. Mas agora não teremos mais esses momentos. Você está jogando fora nosso futuro. Volta, antes que seja tarde.
Muita gente cochicha em seu ouvido que o certo é ficar longe de mim, porque eu sou pobre e moro numa cidadezinha à beira-mar. Mas essa gente não vai lembrar de você para sempre. Eu vou.
Deixa de ser bobo e volta, Róbson. Volta a ser Robinho.
Deixe esse Real Madrid e venha para o Santos, para os santistas, para os brasileiros. Sim, eu sei, você vai ter que se contentar com um salário menor, mas dá para viver com R$ 500 mil (eu imagino). É claro que nas europas você ganha mais que o dobro, mas e daí? Você nunca vai conseguir gastar tudo mesmo.
Lembra da torcida gritando seu nome quando você ainda estava no vestiário? Eu sei que lembra. Quando eu o entrevistei na Copa, seus olhos brilharam quando você me contou isso. Lembra dos dribles em cima do Rogério? Das vitórias sobre o Corinthians?
Aqui você foi campeão, foi levantado nos ombros da torcida, enrolou-se na bandeira do time, foi um deus. Aí, foi reserva. Um deus não pode se sentar no banco de reserva, mesmo que ele seja coberto com couro de antílope e forrado com penas de ganso. O seu lugar é correndo pelo gramado.
Você vai ter mais uns dez anos de carreira. E vai lembrar desses dez anos por toda a vida. E lembrarão, ou esquecerão, de você por conta destes dez anos. É a sua eternidade que está em jogo. Você foi para Madri porque queria ser o melhor do mundo. Aqui o pessoal já acha você o melhor do universo. Volta Róbson, volta a ser Robinho!

torero@uol.com.br


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