São Paulo, domingo, 23 de outubro de 2005

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FUTEBOL

Morte e Vida Futebol

JUCA KFOURI
COLUNISTA DA FOLHA

"É claro que o futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais do que isso", disse certa vez o gerente do Liverpool, Bill Shankly.
"O futebol é assassino. O futebol é desonesto. O futebol é dinheiro e violência, é cobiça e ódio", escreveu José Roberto Torero neste espaço, na última quinta-feira.
Ambos têm razão.
E ambos correm o risco das interpretações simplórias.
O escocês Shankly certamente não quis dizer que o futebol está acima da vida e da morte, do bem e do mal.
Usou de uma metáfora para exprimir, no plano simbólico, o quanto o futebol representa no cotidiano da sociedade.
O nosso Torero expressou um sentimento circunstancial, mais que justificável diante de três mortes estúpidas.
Optou por um corte, absolutamente verdadeiro, que revela o que o futebol tem de pior, de mais sombrio.
Como a medicina, por incrível que pareça, também tem.
Na verdade, estamos falando do ser humano, este projeto inviável, como cada século demonstra à exaustão.
O homem e suas atividades, suas ambições, seus sonhos, suas guerras, religiões, sua capacidade de ser intolerante.
Definitivamente, não vale a pena morrer por causa de um time de futebol.
E morrem muitos aqui e em países ditos mais avançados, mais civilizados.
A pergunta talvez seja, nestes dias de puro ceticismo: há alguma idéia que valha uma vida?
As respostas são muitas, cínicas até.
Alguém dirá que, como a vida não anda valendo mesmo nada, qualquer motivo, por mais pueril que seja, justifica sacrificá-la. Por dinheiro, pelo poder, por quaisquer dos diversos deuses que infernizam a humanidade.
É exatamente por isso que se morre por futebol.
Pelo Palmeiras, pelo São Paulo, pelo Corinthians, pela Gaviões, pela Independente, pela Mancha Alviverde.
Só que o show não pode parar. E não parará, é óbvio.
Muitos que se horrorizam a cada morte no futebol a estimulam ao dar vez e voz aos que apregoam a violência.
E como a representação política caiu em absoluto descrédito, a representação sindical não soube se renovar, o sistema educacional é o caos que é, ficamos todos desnorteados, incapazes de encontrar as soluções, por mais que haja leis que, em tese, as contemplem.
O artigo 17 do Estatuto do Torcedor é uma delas, ao obrigar que as entidades do futebol apresentem planos de ação para cada evento, algo que virou letra morta e que o Ministério Público tem falhado ao não fiscalizar e exigir aplicação.
A luta para que se encontre a saída, por idealista, utópico e paradoxal que pareça, também não pode parar.
Porque, em meio à tamanha barbárie, ainda existem aqueles que lutam a vida inteira, os tais imprescindíveis, um dia citados por Bertold Brecht.

Amanhã e depois
Esfalfados ao pagar o preço de jogar a tal Sul-Americana, os jogadores do Fluminense praticamente se despediram do título brasileiro. Não menos cansados, os corintianos devem à má partida do Paraná e a um milagre de Fábio Costa, além do gol logo aos 13 minutos de Tevez, a manutenção da folga na liderança, com só o Goiás, descansado, e Inter em seu encalço. Porque o Inter também pagou em Caxias pelo esforço diante do Boca. Amanhã e depois, com os jogos do Morumbi e do Serra Dourada, o Brasileirão pode perder mais de sua graça. Ou ressuscitar pelos pés do São Paulo se não der empate em Goiânia.

Kirrata
Onde você leu, na coluna passada, que Tevez apanhava por causa "do ciúmes", leia, por favor, dos ciúmes ou, ainda melhor, do ciúme.


@ - blogdojuca@uol.com.br



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