São Paulo, domingo, 24 de setembro de 2006

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JUCA KFOURI

Que tal filosofar em português?


Será que o verdadeiro sentido do esporte é este a que estamos acostumados a celebrar não é de hoje?


CONHECI um marciano. E descobri que os marcianos falam português. Com sotaque, é verdade, mas português da melhor qualidade. "Ah, e somos nós que temos sotaque?", perguntará o português com razão, pais da língua que aqui castigamos sem perdão. Sim, o marciano em questão é um português. Dos bons. Um filósofo português.
Um filósofo português que resolveu filosofar sobre o esporte. E filosofa como se fosse em alemão, como diria Caetano Veloso. Manuel Sérgio é o seu nome, simples assim, sem sobrenome, como os filósofos de antigamente. É autor de 22 livros, quatro deles de poesia.
Só podia mesmo ser um filósofo poeta. E de vanguarda. Retiro do livro que me deu, "Algumas Teses sobre o Desporto", de apenas 91 páginas, da editora Compediun, situada no Alto dos Moinhos, 6-A, 1500 Lisboa (sim, 1500), a seguinte frase, mágica, óbvia, utópica, provocadora, profunda e certamente causadora de náuseas e arrepios horrorizados em 110% dos dirigentes do esporte pelo mundo afora, em português de Portugal: "Chegou a altura de pôr em causa a todos os níveis, o desporto inteiramente submetido ao império da competição, da medida, do rendimento e do recorde".
Manoel Sérgio pensa o esporte como o esporte certamente será pensado um dia, talvez somente no século 22. Não importa. Importa que ele incomoda.
Ele pensa o esporte não como uma atividade que faz do corpo mera mercadoria. E desmistifica falsidades que, de tão repetidas na sociedade do espetáculo, acabam por se transformar em verdades que não resistem a uma simples pergunta, que ele mesmo faz: "E não é o atleta de alta competição um trabalhador que vende ao clube a que pertence a sua força de trabalho? E não é, ele também, humilhado e ofendido, quando se põe em risco a sua saúde, através de anestesias locais, que escondem, por poucas horas, lesões ósseas e musculares, de alguma gravidade? Quando se proclama, por aí, com muita irresponsabilidade à mistura, que o desporto dá saúde -importa salientar a que desporto nos referimos, pois as vedetas do desporto de alta competição findam, quase sempre, as suas carreiras desportivas com deficiências físicas, decorrentes de uma prática que os instrumentalizou. Ninguém faz desporto para ter saúde: fá-lo porque tem saúde". Desmenti-lo, quem há de?

Taça tricolor
A cada rodada do Campeonato Brasileiro fica mais claro que a taça será tricolor. Resta saber se do paulista ou do gaúcho.
O São Paulo volta a ser o favorito mais destacado, confortável que é sua vantagem de quatro pontos (na verdade, virtualmente, sete, se vencer o jogo que tem a menos que seu concorrente). Mesmo que tenha hoje um claro problema no seu ataque, às voltas com a procura, nessas alturas inútil, de alguém que substitua Ricardo Oliveira.
Mas, no mínimo, o São Paulo dá a sensação de ter reencontrado sua estabilidade, coisa que deverá confirmar hoje, diante do Palmeiras, no clássico que, por absurdo, será jogado em Presidente Prudente.
Absurdo, apenas mais um, da novamente desorientada direção do Palmeiras, incapaz até de resolver de maneira civilizada a saída de um técnico, como comprova o episódio da demissão de Tite. Aliás, ruim com ele, pior sem ele.
O outro tricolor, o Grêmio, é simplesmente a equipe que está jogando o melhor futebol no país neste momento e em franco progresso, como hoje o Goiás poderá ver.

blogdojuca@uol.com.br


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