São Paulo, sexta-feira, 03 de junho de 2005

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MÚSICA

Dupla de Detroit improvisa show fora do teatro Amazonas; Jack White e modelo inglesa casam em cerimônia com padre e pajé

O dia em que o White Stripes abalou Manaus

THIAGO NEY
ENVIADO ESPECIAL A MANAUS

"Hoje está sendo um grande dia para mim, Jack White", disse o multiinstrumentista e vocalista do White Stripes a certa altura do show da dupla em Manaus, anteontem à noite. Não era exagero: além de protagonizar o primeiro show de rock no centenário teatro Amazonas, Jack White, aos 29 anos, havia se casado horas antes.
Mais: não contentes em se apresentar "apenas" no palco, Jack e Meg White interromperam o show, saíram do teatro e tocaram, de forma improvisada, sem microfone ou caixas de som, uma canção para a multidão que se aglomerava na praça em frente.
Havia, segundo a Polícia Militar, cerca de 4.000 pessoas do lado de fora, assistindo à apresentação da dupla de Detroit por meio de dois telões. Quando Jack, empunhando um violão, e Meg, segurando um bongô, chegaram à parte de cima das escadarias do teatro, a multidão correu para lá.
Como os músicos haviam decidido aquilo na hora, nenhum esquema de segurança havia sido preparado. Jack tentava cantar, mas a histeria era tamanha que nada se ouvia. Houve empurra-empurra e, após alguns minutos, os dois, escoltados, retornaram ao teatro. Meg foi carregada nos ombros de um segurança.
Muita gente tentou entrar e até o coordenador da turnê da banda, John Baker, chegou a ser barrado na porta. A organização do evento temeu algo pior, mas a situação foi controlada. "Foi o melhor show da minha vida", entusiasmou-se o estudante Augusto Rodrigues, 17. "Nunca nenhum artista internacional toca aqui."
A aventura do White Stripes, que já passou por ruínas na Guatemala, por Misiones, na Argentina, e que chega hoje ao Rio e amanhã a São Paulo, começou no dia anterior. Após a entrevista coletiva, na terça, Jack e Meg, mais as 15 pessoas que viajam com a dupla, embarcaram em um passeio pelo rio Negro. Foram até uma aldeia indígena, compraram artesanato (três pequenas estátuas de madeira foram colocadas no palco durante o show) e brincaram com filhotes de jacarés.
Anteontem, às 8h30, saíram do hotel e pegaram novamente o barco. Desta vez, foram ao encontro das águas dos rios Negro e Solimões. Lá, em cerimônia que teve a presença de um padre e de um pajé, Jack casou-se com a top model inglesa Karen Elson, 26.
À noite aconteceu o primeiro show brasileiro da turnê que promove o lançamento do quinto disco da banda, "Get Behind Me Satan", que chega às lojas brasileiras amanhã, de acordo com a gravadora Sum Records, dois dias antes do lançamento mundial.
Inaugurado em 31 de dezembro de 1896, o teatro Amazonas, acostumado a eruditos como Wagner, teve todos os seus 701 lugares ocupados por fãs do White Stripes -e por curiosos. "Comecei a me interessar por eles quando fiquei sabendo que eles viriam", disse a advogada Priscila Mendonça, 24.
Jack White subiu ao palco vestindo casaco e camiseta pretos e calça vermelha; Meg usava uma camiseta branca e calça de couro preto. A primeira música foi "Blue Orchid", do novo disco.
"Vamos preservar o nosso teatro", anunciara uma locutora pouco antes do início do show. Nem era preciso o aviso. O público se comportou e, sem levantar das cadeiras (de jacarandá, forradas com veludo vermelho), balançava a cabeça e batia os pés.
O volume do som, abaixo do utilizado normalmente pela banda, não incomodou -a acústica do teatro Amazonas é irrepreensível, e tanto a voz de Jack quanto os instrumentos surgiam límpidos.
Além de "Blue Orchid", quatro músicas do álbum novo apareceram: "Little Ghost", "The Nurse", "My Doorbell" e "Passive Manipulation" -esta última, de menos de um minuto e cantada por Meg White, veio em três momentos: em andamento normal no piano, um pouco mais acelerada e, depois, com Jack na guitarra.
Não há setlist prévio -em vários momentos, Jack aponta para Meg e diz o que ela deve fazer, se inicia batidas na bateria ou se vai para um bumbo. A apresentação é imprevisível, toda diferente do visto no Tim Festival de 2003, no Rio. "Dead Leaves and the Dirty Ground" e "Hotel Yorba" arrancam gritos, e "Love Sick", cover de Bob Dylan, é reverenciada com respeito. Em vários momentos, Jack e Meg "duelam", ele na guitarra e num microfone postado em frente à bateria.
Após a quinta música, Jack não se aguenta: "Vocês não vão se levantar, não?". O público, claro, se levantou. Em "Fell in Love with a Girl", foi a primeira vez que o teatro Amazonas e suas colunas ocas (para ajudar a acústica) de ferro presenciaram pessoas pulando.
Um já tradicional cover de Burt Bacharach, "I Just Don't Know What to Do with Myself", é tocado, mas é interrompido. Jack White, então, vai ao piano, canta alguns versos de "(I'll Be with You) in Apple Blossom Time", de Barry Manilow, e dedica para Karen Elson ("Que lindo dia de casamento (...) / Que lindo dia para você e para mim"). Depois, retorna com "I Just Don't Know...".
E aí, passados pouco mais de uma hora, eles se despedem. E aí eles voltam logo depois, e Jack diz: "Esperem um pouco, porque eu e minha irmã vamos lá para fora". E os dois saem do teatro, seguidos pela maioria do público.
Retornam ao palco alguns minutos depois e encerram a apresentação com o hit "Seven Nation Army". Muitos pularam, muitos gritaram, alguns choraram. E, numa autêntica beatlemania, terminou a aventura amazônica do White Stripes.


O repórter Thiago Ney viajou a convite a produtora Mondo

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