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São Paulo, quinta-feira, 12 de junho de 2003

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TEATRO

Segunda parte da encenação de "Os Sertões" ganha ensaios nos dias dedicados a santo Antônio, são João e são Pedro

Oficina atravessa fogueiras com "O Homem"

Lenise Pinheiro/Folha Imagem
Cena de "O Homem", a segunda parte da trilogia "Os Sertões", de Euclydes da Cunha, encenada pelo grupo Oficina Uzyna Uzona


VALMIR SANTOS
DA REPORTAGEM LOCAL

O mês é junino, mas o grupo Oficina Uzyna Uzona dá conta de outro arraial: o de Canudos, o que não quer dizer abrir mão do caráter festivo de suas peças.
Não à toa, foram escolhidas as fogueiras de santo Antônio (amanhã), são João (terça) e são Pedro (domingo 29) para os primeiros ensaios abertos de "Os Sertões - Segunda Parte - O Homem", no teatro Oficina, em São Paulo.
É a sequência do projeto de adaptação do clássico de Euclydes da Cunha (1866-1909), que começou no ano passado, centenário de lançamento da obra, com a primeira parte, "A Terra", e culminará, provavelmente em 2004, com a terceira, "A Luta".
"Os Sertões", o livro, é o relato da campanha da Guerra de Canudos (1896-97), embate do Exército da República recém-proclamada contra os seguidores do líder espiritual e político Antônio Conselheiro (1830-97), que criou um "país" à parte, com suas próprias leis, no sertão baiano. O confronto resultou na morte de milhares de sertanejos e soldados.
Depois de teatralizar o capítulo tido como o mais difícil de ser transposto, inclusive pelos leitores, por causa da rica descrição geológica e climática da região do semi-árido baiano, o encenador e ator José Celso Martinez Corrêa conduz seu grupo ao miolo do épico euclydiano, aquele em que o escritor e jornalista se atém mais aos personagens de carne e osso dessa história, os seguidores de Antônio Conselheiro.
A segunda parte trata das origens do homem americano, a formação racial do sertanejo e a evolução da mestiçagem, como o cruzamento de índios com brancos (mamelucos) ou de negros com índios (cafuzos).
De acordo com o pesquisador euclydiano Roberto Ventura (1957-2002), Cunha "elevou o sertanejo, vítima do ataque das forças republicanas, à altura dos grandes heróis dos poemas épicos e dos romances de cavalaria". À sua maneira, Zé Celso evoca essa gênese do brasileiro para interpretar o país.
Naquela que é possivelmente a passagem mais citada do livro, justamente em "O Homem", quando Cunha afirma que "o sertanejo é, antes de tudo, um forte", os atores-cantores falam o texto em concomitância com movimentos suaves que lembram o tai-chi-chuan, ou "taitá", como prefere e explica: "O taitá no sentido do estar presente, do tô aqui tá, pés plantados no teatro Oficina". A cena alude à mutação do sertanejo, cujo aparente estado de relaxamento, a posição costumeira de cócoras quando em situação de perigo, evolui para a condição de um titã de cabeça e olhos erguidos; o corpo preparado para enfrentamentos.
Tal qual a primeira parte, essa segunda também é concebida como uma peça-coral, um musical. "Ele pode encontrar resistência para ser reconhecido como tal, porque não é como os musicais americanos ou a ópera, que já vêm feitos, você contrata os músicos, dá a partitura, os instrumentos. Aqui não, temos a criação de uma ópera de Carnaval ao vivo", afirma Zé Celso.
São cerca de 40 pessoas em cena, entre músicos e atores que também cantam e dançam. Uma atriz grávida e a participação de crianças ajudam a ilustrar ainda mais a dimensão de excluídos que o projeto abarca.
Tommy Pietra, Catherine Hirsch e Zé Celso trabalharam na dramaturgia do espetáculo. "Pelos menos 90% é fruto da criação ao vivo, da rigorosa dedicação de todos na hora do texto, do verso, do ritmo, do canto, da dança etc. Teatralizamos tudo, mas "O Homem" está lá, não falta nada. Quero que o ator passe por esse processo e consiga esculpir o que lhe é essência", afirma o diretor.
Segundo o diretor, esses três ensaios programados são "ensaios com o público". Não é como a maioria dos ensaios abertos que estão afinando os últimos detalhes. "A gente aprendeu muito fazendo isso com "A Terra"."
Apesar do Prêmio Shell 2002 (melhor direção e música), por "A Terra", o Oficina não obteve patrocínio para a segunda parte. O projeto conta apenas com o Programa de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo (R$ 322 mil em três parcelas). "A recessão está pesando em nosso trabalho", diz o encenador.

OS SERTÕES - SEGUNDA PARTE - O HOMEM. De: José Celso Martinez Corrêa, Tommy Pietra e Catherine Hirsch. Com: grupo Oficina Uzyna Uzona (Adriana Caparelli, Aury Porto, Camila Mota, Fransérgio Araújo, Letícia Coura, Luciana Domscke, Marcelo Drummond, Ricardo Bittencourt, Sylvia Prado, Wolfgang Pannek, Renné Gumiel e outros). Onde: teatro Oficina (r. Jaceguai, 520, SP, tel. 0/xx/ 11/3106-2818). Quando: ensaios abertos amanhã, às 19h; dia 24, às 19h; e dia 29, às 18h. Quanto: R$ 10.


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