São Paulo, terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

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Biografia amiga agrada a Saramago

Livro lançado em Portugal, sem previsão de sair no Brasil, examina vida e obra de escritor e ganha elogio do biografado

Admirador do Nobel, autor João Marques Lopes pinta um retrato positivo de seu personagem ao abordar polêmicas políticas históricas

FABIO VICTOR
DA REPORTAGEM LOCAL

Anunciada em Portugal como "a primeira biografia" do escritor José Saramago, a obra de João Marques Lopes lançada em 21 de janeiro naquele país não teve por base nenhuma entrevista com o biografado, que alegou falta de tempo. O autor, doutorando em literatura brasileira, examinou toda a produção de Saramago (de 1947 até hoje) e o que já foi escrito sobre ele. Também diz ter entrevistado pessoas próximas ao Nobel, sem nominá-las.
Pouco após o lançamento, Saramago emitiu nota definindo a obra como "um trabalho honesto, sério, sem especulações gratuitas". A chave para entender por que abonou um trabalho com o qual ele não topou contribuir está na imagem positiva que emerge da leitura.
Não que João Marques Lopes omita as polêmicas em torno do escritor. As mais notórias estão todas lá. Mas invariavelmente a avaliação do autor é que Saramago tinha razão.
"Eu revejo-me na obra literária e na produção política e cívica de Saramago, e é evidente que isso aparece no livro. É legítimo", disse Lopes à Folha. No rastro da Revolução dos Cravos, que derrubou a ditadura salazarista em Portugal, Saramago, já um militante ativo do PCP (Partido Comunista Português), foi nomeado em abril de 1975 diretor-adjunto do "Diário de Notícias". Em agosto, alguns jornalistas fizeram um abaixo-assinado contra o aparelhamento do jornal pelo PCP. Foram demitidos.
Saramago sempre foi acusado pela direita portuguesa de ter arquitetado a degola. Já seu biógrafo conta que a demissão não foi definida pela direção, mas em assembleia -Saramago votou a favor da medida.
"De resto", escreve Lopes, "o extremismo era moeda corrente na época, e quando a correlação de forças se tornou favorável ao PS [Partido Socialista] e à direita depois do golpe de 25 de novembro, Saramago e [o diretor] Luís Barros foram automaticamente expulsos (...)".
Sobre o relato de Lopes, Saramago escreveu: "Ao cabo de 35 anos, pela primeira vez, o caso dos despedimentos (...) é corretamente descrito".
A biografia conta que Saramago, em carta a Jorge de Sena em 1963, revelou que pensou em se mudar para o Brasil. Era uma época em que estava aturdido por "uma experiência de ordem sentimental" (palavras de Saramago numa entrevista).
O biografado negou informação do livro de que recusou proposta milionária dos EUA para adaptar "Memorial do Convento" ao cinema. Mas revelou ter recusado oferta da TV Globo para transformar o romance em série. "A minha resposta foi que não queria ver a cara das minha personagens..."


BIOGRAFIA JOSÉ SARAMAGO
Autor: João Marques Lopes
Editoras: Guerra & Paz e Pluma
Quanto: 16,50 (R$ 41, 178 págs.)



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