São Paulo, domingo, 27 de maio de 2001

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O Apagão da era Tucana

APRESENTAÇÃ0

Fernando de Barros e Silva
Editor de Brasil

O ensaio do filósofo Paulo Arantes que o Mais! publica pode ser lido como um epílogo. Seu assunto: a relação entre a autodestruição de uma tradição intelectual progressista que se consolidou na USP dos anos 60 em torno da figura central do sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o colapso do projeto de modernização conservadora do país articulado a partir de 94 sob a batuta do mesmo FHC.
Que se trata de um capítulo terminal (da inteligência crítica paulista e de sua experiência no poder) fica sugerido desde o título -"Extinção"-, de resto uma alusão ao último romance do austríaco Thomas Bernhard (1931-1989), publicado em 1986, cujo subtítulo é "Uma Derrocada". Bernhard mobilizou boa parte de sua energia e talento contra a estupidez da sociedade vienense pós-nazista. A estupidez de certa elite intelectual paulista também é o tema de Arantes, mas as semelhanças terminam por aí.
O filósofo vai buscar o mote da argumentação de sua extinção à brasileira em outro clássico maldito da língua alemã, a "Dialética do Esclarecimento" (1947), de Adorno e Horkheimer, dupla central da Escola de Frankfurt.
A simples comparação da barbárie nazista com o apagão à brasileira tem algo de escandaloso. O autor sabe disso e, mais de uma vez, faz as devidas ressalvas entre um caso e outro, o que não o impede de perguntar, parafraseando a abertura da "Dialética": "Como pode o Brasil totalmente esclarecido pelos "intelligenti" de nossa Escola ousar resplandecer sob o signo de uma calamidade triunfal?". O texto trata de mostrar como a "superioridade bem-informada" do tucanato se converteu na forma superior da estupidez nacional.
Diagnóstico de um país literalmente sem luzes (do qual não escapam a esquerda e o PT), o texto, concluído entre os dias 5 e 13 de maio, é um epílogo também na obra recente do autor.
Os capítulos que o antecedem estão reunidos em "O Fio da Meada" (Paz e Terra, 1996) e no "Diccionario de Bolso do Almanaque Philosophico Zero à Esquerda" (Vozes, 1997), livros em que Arantes já procurava medir e tirar as consequências da conversão do tucanato e do país à Restauração neoliberal.
O tom, no entanto, agora é outro. O humor e a sátira das obras anteriores cederam lugar à raiva de quem perdeu definitivamente a paciência.



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