São Paulo, domingo, 27 de janeiro de 2002

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FEMINISMO MUÇULMANO

Tratamento dispensado à mulher em países islâmicos não tem fundamento no texto religioso

Alcorão não autoriza a discriminação

FREE-LANCE PARA A FOLHA, NO CAIRO

"Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu. O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque ele é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem. Porque também o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem." Ao contrário do que se pode imaginar, os versos acima não foram tirados do Alcorão, mas do Novo Testamento (1 Cor 11:6-9). Se, na prática, o islã parece retrógrado e discriminatório contra a mulher, na teoria, em vários aspectos, ele está muito à frente do judaísmo e do cristianismo.
Entre os estudiosos das três religiões monoteístas, e entre feministas que interpretam os textos religiosos, é quase unânime a conclusão de que, no que diz respeito ao tratamento dispensado às mulheres, o Alcorão é mais avançado e menos preconceituoso do que o Antigo e o Novo Testamento. O problema é que nem os muçulmanos parecem saber disso.
O machismo que se encontra em países árabes, ou mesmo os maus-tratos às mulheres, tem muito pouco a ver com o Alcorão. Às vezes, o contrário é verdade. Apesar do Alcorão, certos países árabes tratam as mulheres em total desrespeito às leis recitadas pelo profeta Muhammad. Um exemplo disso são os homicídios para "lavar a honra", como os que acontecem na Jordânia, com respaldo da lei. O Alcorão não prega a morte contra o adultério. E a punição se aplica tanto a mulheres quanto a homens: "O adúltero e a adúltera devem ser chicoteados cem vezes cada um."
O problema é que as autoridades que interpretam o Alcorão são invariavelmente homens. Ou, mesmo quando o texto dá margem a mudanças, fica a critério dos homens a vontade de mudar. É esse o caso do verso contra a "obscenidade". Mulheres culpadas de obscenidade em ato atestado por quatro testemunhas devem ser trancadas em casa "até que a morte as leve ou até que Deus indique a elas outro fim [por meio de nova lei"". Segundo os parlamentares jordanianos, Deus ainda não indicou uma nova lei.
O véu é outro caso emblemático. Em verso algum o Alcorão diz que a mulher deve cobrir a cabeça, muito menos o rosto. A única parte a ser coberta, de acordo com o Alcorão, são os seios. E não existe nenhuma punição para quem não os cobre. Mesmo assim, é comum encontrar entre os muçulmanos quem acredite que o Alcorão expressamente recomende que a mulher cubra a cabeça.
O Alcorão de fato prega a "modéstia" no vestir, mas a recomendação é feita tanto para homens como mulheres. Assim como também prega a castidade e recrimina a fornicação para homens e mulheres.
Segundo a organização muçulmana Submission, com sede nos EUA, o verso que trata da vestimenta da mulher é propositalmente vago. Segundo o texto, Deus recomendou que as mulheres muçulmanas (e não todas as mulheres, como é a ordem na Arábia Saudita) "mostrem somente aquilo que é aparente", para que diferenças regionais e pessoais sejam respeitadas.

Superioridade
Entre aqueles que interpretam as Escrituras, um dos exemplos mais citados para atestar o avanço do Alcorão é a maneira como Eva é representada. No Gênesis, dependendo da tradução, Deus se dá conta de que Adão precisa de uma "auxiliar".
Eva é descrita como vinda do homem, e é responsável pelo pecado original. Deus então pune a mulher não só com as dores do parto, mas com a paixão que a fará "arrastar-se pelo marido" e por ele "ser dominada". A Adão, Deus explica que vai castigá-lo porque, entre outras coisas, ele deu ouvidos à "voz da mulher".
O Alcorão, por sua vez, em momento algum diz que a mulher veio do homem. Em todos os versos em que descreve a Criação, o Alcorão de fato diz que um veio do outro, mas sempre usando um nome sem gênero ("nafs", que, segundo Ahmed Ali, tradutor do Alcorão, significa, entre mais de cem outras coisas, alma, ser, célula). A culpa pelo pecado original também nunca é atribuída a Eva somente.
Arbitrariedades, como a ordem imposta pelo Taleban proibindo as mulheres de trabalhar, mesmo como professoras de primário, não têm no Alcorão o suporte que encontram na Bíblia, no Livro 1 de Timóteo: "Que a mulher aprenda em silêncio com toda submissão. Eu não permito que nenhuma mulher ensine ou tenha autoridade sobre o homem; ela deve se manter calada. Pois Adão foi criado primeiro, e depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher se enganou e transgrediu".
As feministas muçulmanas em geral se referem à historia da Península Arábica para provar que o Alcorão veio como libertador das mulheres, mesmo que hoje ele seja usado como instrumento de opressão. Naquela época, o tratamento dispensado às mulheres era tão degradante que o Alcorão, examinado à luz do seu tempo, foi um grande passo dado em direção à igualdade em um curto espaço de tempo.
Segundo a tradição, a sociedade tribal e patriarcal do século 7 na Península Arábica vivia o que ficou conhecido por Era da Ignorância. Naquela época, por exemplo, era comum o assassinato de bebês do sexo feminino. Isso porque as mulheres corriam o risco de virar espólio de guerra entre as tribos, manchando assim para sempre a honra das famílias. Capturadas pelas tribos inimigas, as mulheres se tornavam propriedade dos vencedores e eram escravizadas, vendidas ou "alugadas".
Diante disso, não era raro que, ao saber ter tido uma filha, o pai enterrasse o bebê, muitas vezes ainda vivo. Na época em que o Alcorão foi recitado o costume já não era tão comum porque as mulheres passaram a ser "vendidas" de uma família para outra em troca do dote. O advento do dote, que hoje impede casamentos no Egito e é de fato razão para o infanticídio de meninas na Índia, foi durante a Era da Ignorância uma das coisas que ajudaram a manter as mulheres vivas. O Alcorão foi outra. Um dos versos descreve o dilema do pai ao saber que teve uma filha: matar o bebê ou criá-lo com desgosto.
Para o Alcorão, ambas as opções são odiosas: "Quando chegam notícias a um deles sobre o nascimento de uma menina, o rosto dele escurece e ele se toma de uma dor silenciosa. Com vergonha ele se esconde do seu povo, por causa da má noticia que recebeu, sem saber se mantém a criança com desprezo ou se deve enterra-la no chão. Oh, odioso é o seu julgamento [decisão"".
A sobrevivência no deserto era tão difícil, e bens primordiais, como a água, tão escassos, que às vezes a vida de uma tribo dependia do que ela conseguia tomar de outra. Na rota dos mercadores, Meca era também palco de assaltos a caravanas, razão pela qual a inimizade entre clãs se tornava eterna.
Com as guerras matando os homens, restavam abandonados as viúvas e os órfãos. E não eram poucos. Séculos antes, a Bíblia (Levítico 19:9-10) aconselhava os sumérios a não colher tudo o que plantavam a fim de deixar restos para aqueles que não tinham outro meio de sustento.
A grande incidência de morte prematura de maridos com filhos é uma das explicações mais comuns para a autorização, no Alcorão, de que o homem se case com até quatro mulheres simultaneamente, com o intuito de ajudá-las e protegê-las.
Para os muçulmanos que não aceitam a poligamia nem mesmo sob a justificativa de se estar fazendo um bem à sociedade, Deus teria "permitido" a poligamia com uma adendo que, de fato, impossibilita tal prática.
Ao permitir que o homem se case com até quatro mulheres sob a condição de que seja igualmente justo com cada uma, Deus estaria praticamente proibindo a situação, já que tamanha justiça é quase sobre-humana. "Case com as mulheres que lhe pareçam boas, duas, três ou quatro; e, se teme não poder ser justo [com elas", então [case com" uma, ou tenha uma concubina, ou uma escrava. Assim é mais provável que não cometerá injustiça".

Pé de igualdade
Em princípios gerais, o Alcorão coloca em pé de igualdade homens e mulheres e a importância de cada um sob os olhos de Deus: "Eu não permito que qualquer gesto de bondade de qualquer um seja perdido, seja ele homem ou mulher: um de vocês é do outro."
Um verso em particular tornou-se o mantra das feministas para mostrar que homens e mulheres têm o mesmo valor no islã: "Em verdade, homens e mulheres que se submeteram [a Deus", homens que acreditam e mulheres que acreditam, homens que são devotos e mulheres que são devotas, homens que resistem e mulheres que resistem, homens que são modestos e mulheres que são modestas, homens que dão esmolas de caridade e mulheres que dão esmolas, homens que jejuam e mulheres que jejuam, homens que são castos e mulheres que são castas, e aqueles homens e mulheres que se lembram bastante de Deus, para eles Deus tem perdão e uma grande recompensa". (PAULA SCHMITT)


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