São Paulo, domingo, 18 de agosto de 1996
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Os pinotes de Oiticica

JOSÉ LINO GRUNEWALD

JOSÉ LINO GRÜNEWALD
ESPECIAL PARA A FOLHA

Quem foi visitar a primeira exposição nacional de arte concreta aqui em São Paulo, no Museu de Arte Moderna, no período entre 4 e 8 de dezembro de 1956 (quando, pela primeira vez, juntavam-se poetas e artistas plásticos), certamente não haveria de desconfiar que um jovem de 19 anos, aluno de Ivan Serpa, com sua geometria algo despretensiosa, simples e lavada, viria, em breve, a se transformar num dos mais radicais criadores brasileiros -ponta-de-lança, ao nível internacional, de uma estética dionisíaca e ambiental. Era Hélio Oiticica, de quem ninguém foi mais longe em sua vidarte ou artevida anti-sistema, antiburguesa ou antitudo que representasse anódino statu quo.
Pra frente em duas frentes. Assim, esse mesmo radicalismo de vanguarda, de inventor, ao lado daquele de engajamento. Não o mero engajamento político, cujas plumas, com o correr do tempo, se desfazem ou se descolorizam, segundo conveniências, novos eventos ou teorias, ordens do Partidão etc. Falamos do engajamento mais amplo -o civilizante, civilizatório. Aquele da plena liberdade existencial, sem medo, sem preconceitos. O intelectual aberto a tudo: numa vertente, o experimentalismo constante (tendas, bólidos, parangolés, capas, neoconcretismo, Cosmococa etc); noutra, o samba, ser passista, a Mangueira, Cara de Cavalo, Rose Matos. Ele sabia que vício é vida e que o que se entende por "arte", em termos acadêmicos-tradicionais, estava furado. Aliás, como há tempos dizia Décio Pignatari, "A arte é um preconceito cultural". Por isso, é mais amplo e eficaz o termo criação.
Talvez, ninguém melhor para desenhar Hélio Oiticica do que o também radical amigo, Waly Salomão, agora nesta série de "Perfis do Rio", da Editora Relume-Dumará. Ele já havia publicado um ensaio sobre HO no seu livro "Armarinho de Miudezas", com o bem sacado título, "HOmmage".
E diz na orelha Antônio Risério que Waly é "pensamento agudo, língua afiada, voz de trovão" em sua prosa montanha-russa. De fato, se a poesia do Waly já encerra um baú/barril de surpresas, sua prosa desliza, gostosa, estonteante, ou como ele mesmo, logo de saída afirma, tratar-se de "um estilo enviesado", ou "escrever tateando como se experimentasse saber das coisas que não se sabia ainda que se sabia". Enfim, "evitar a arapuca armada do folclore e destravar a armadilha preparada pelo esteticismo". Dir-se-ia: o ritmo rodeia entre o fugaz do esqui e a fluência do balão.
Prosa de montagem, dosagem, aceleração: "Berimbolou geral mas malandro pedra noventa não bobeia, pedra que rola não cria musgo. Rola e não cria limo. Era a hora do pinote e Hélio sempre se gabou de ser o Rei do Pinote. Também vivendo situações-limite que exigiam dele manter seus poros abertos na captura dos sinais, uma espécie de código de escoteiro contracultural sempre alerta para a possibilidade da barra sujar, da polícia chegar pedindo babulaque".
Hélio em Nova York. A intensificação das afinidades com Gertrude Stein, Marshall McLuhan, Buckminster Fuller e John Cage. Ali, Waly colocou nele o apelido de Sanitation Machine, "a máquina-vassoura-escovão que varre as ruas de NYC". E há ainda seu relato sobre a capa da revista "Art in America", janeiro de 1989, a exibir Mosquito vestindo Parangolé e com o crítico inglês, Guy Brett, escrevendo seu ensaio, "Hélio Oiticica: Reverie and Revolt".
HO -a "frase-estandarte": Seja marginal, seja herói. E, então, também a evocação de Rogério Duarte e suas expressões: "Apocalipopótese" (segundo explica Waly, "desvio de uma matriz conceitual quase senso comum obrigatório -participação do espectador- transformando-a em uma hipótese, aproximando-a mais da estrutura do jogo, afastando-a da rigidez do imperativo categórico"); a mais feliz de todas, "Evang'Hélio pagão". Com relação a isso, Hélio, em 1968, no MAM do Rio de Janeiro, numa mesa de debates, desfechou o escândalo, ao comparar um trecho de Cristo nos Evangelhos com uma imagem lisérgica, falando do ácido tranquilamente. São os "bien pensants" com seus tremeliques hipócritas. Nada impedia que ele fosse adiante e, por exemplo, sugerisse que a ceia de Cristo havia sido um "barato". Daí, quem sabe? Judas...
Pouco antes de sua morte -não sei se Waly sabe- tive o prazer de reencontrar Hélio na frente de um bar do Leblon. Quando lá chegou, já estávamos, Décio Pignatari, Ivan Cardoso e eu. Ivan tirou uma foto de nós três, que saiu publicada na revista "Vogue". Eu tinha com Hélio a afinidade de pessoas que fizeram nossas cabeças: Cassirer, Susanne Langer, Merleau-Ponty, Heidegger, Paul Klee, Mondrian, Kurt Schwitter e, "last but not least", as conversas enriquecedoras com Mário Pedrosa.
No final deste seu livro de suculenta instigação, Waly, na penúltima página, narra o enterro de Hélio Oiticica, ao som do surdo, enrolado na bandeira da Estação Primeira da Mangueira. Na última, vem o poema "Balada de um Vagabundo", começando por "eis o sol, eis o sol" e com esta passagem: "Um vício só somente só para mim não basta/ uma inflação de amor incontrolável por meu corpo alastra/ tá lotado, tá repleto de virtude e vício o meu céu/ um galo sozinho levanta a crista e cocorica seu escarcéu/ um vício só somente só é pura cascata". Valeu. Da vela à vala, da cama à maca, ele levou e lavou um sol.

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