São Paulo, quarta, 2 de abril de 1997.

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MÁQUINAS AGRÍCOLAS
Desvalorização de preços dos produtos impede renovação tecnológica, conclui pesquisa do IEA
Agricultura mantém frota sucateada

ROBERTO DE OLIVEIRA
da Reportagem Local

A maioria dos agricultores brasileiros trabalha com uma frota sucateada de máquinas agrícolas (tratores e colheitadeiras).
A desvalorização de preços dos produtos agrícolas é um entrave para a renovação tecnológica no campo (veja quadro ao lado).
Sem condições de adquirir novos equipamentos, produtores estão reformando ou comprando máquinas agrícolas usadas de grandes agricultores.
As conclusões constam de uma pesquisa realizada pelos engenheiros agrônomos Celso Luiz Vegro, Célia Regina Ferreira e Flávio Condé de Carvalho, pesquisadores do IEA (Instituto de Economia Agrícola) de São Paulo.
O índice de mecanização em 1993 no mundo foi de 52,2 ha por trator, metade do índice brasileiro em 95, de acordo com a pesquisa.
Também em 93, a média mundial de colheitadeiras foi de 349 ha por máquina. No Brasil, esse índice subiu para 834 ha.
Após dez anos de uso, a colheitadeira apresenta perdas de 8% na colheita, segundo a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).
Sucateamento, problemas de regulagem e velocidade, entre outros, são responsáveis pela perda de 4% da safra 96/97 de milho e 4,3% da de soja. Representa um desperdício de US$ 388 milhões.
O valor corresponde a 43% de todo o dinheiro que o Brasil investirá em ciência e tecnologia agropecuária este ano, segundo Alberto Duque Portugal, presidente da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).
De acordo com Portugal, o Ministério da Agricultura irá montar um programa de avaliação e testes de máquinas e equipamentos agrícolas ainda este ano.
O programa, segundo Portugal, vai contar com a ajuda de universidades e da própria Embrapa. ``Hoje o governo não tem estrutura para fazer esse tipo de avaliação.''
Indústria ociosa
``Nossa frota é obsoleta. E é ainda perigosa, porque o setor agrícola precisa competir num mercado aberto'', afirma Persio Luiz Pastre, vice-presidente da Anfavea.
Na opinião de Pastre, pelo menos metade da frota de colheitadeiras em operação no Brasil deveria ser substituída.
A indústria brasileira de máquinas agrícolas operou no ano passado com 75% de ociosidade, índice recorde de inatividade.
Enquanto o segmento assistia ao pior desempenho de vendas de máquinas agrícolas na história do país, o restante do mundo trabalhava em ritmo máximo para atender aos pedidos de vendas.
``Precisamos de um plano para modernizar a agricultura brasileira. Caso contrário, vamos chegar ao ano 2005 como um dos maiores importadores de máquinas'', diz.
Até fevereiro último, a indústria mantinha 9.760 funcionários, número inferior à média histórica de 87, quando havia 28.628 trabalhadores empregados no setor. Entre 86 e 95, segundo o IEA, a indústria demitiu 13 mil pessoas.

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