São Paulo, sábado, 11 de dezembro de 2004

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RETÓRICA OFICIAL

Presidente nega que seu governo seja a continuação da gestão FHC

Lula ataca antecessores e diz que chegou a hora da colheita

Evaristo Sá/France Presse
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (centro) discursa na abertura da 8 reunião ministerial de seu governo, na Granja do Torto


EDUARDO SCOLESE
JULIA DUAILIBI
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Na abertura da oitava reunião ministerial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva atacou seus antecessores, elogiou suas políticas econômica e externa e, em tom triunfalista, disse que "a hora do Brasil chegou": "Temos mais dois anos pela frente. Hora da colheita do muito que plantamos; hora de afirmar com mais ênfase as nossas disposições de continuar persistindo criativamente em nossas políticas econômica e social".
O presidente não citou os antecessores nominalmente, mas falou em décadas de "marasmo": "Este país necessita, depois de décadas de marasmo e desencanto, de desenvolvimento. Essa palavra, por tantos anos esquecida, ocupa hoje e ocupará sempre o centro de nossas preocupações".
Para uma platéia de 35 ministros e líderes da base aliada no Congresso, Lula, que falou por 20 minutos, mandou um recado para os críticos: disse que a política econômica de seu governo colocou o país num rumo certo e pediu que não haja ilusões diante de suas prioridades de governo: "Que não se confunda paciência e cordialidade com passividade".
"Que ninguém se iluda sobre as prioridades deste governo. Elas vão na direção de uma grande transformação econômica e social do país. Que ninguém se iluda sobre a minha fidelidade a minhas origens", declarou. A reunião prossegue hoje, quando o presidente e os ministros definirão formas de remanejar verbas para os programas apontados ontem como prioritários em 2005.
Lula fez breve improviso no início: cumprimentou os ministros, agradeceu o "sacrifício" da primeira-dama Marisa Letícia nestes dois anos "árduos", convidou os críticos para o "diálogo" e elogiou o Congresso, o Judiciário e as Forças Armadas. "Disse que iríamos, primeiro, fazer o necessário; faríamos, depois, o possível, para enfrentar, mais tarde, o impossível. Penso que fizemos o necessário, parte do possível e, talvez, mesmo algo do impossível", afirmou.

Mudanças
Lula disse que, ao contrário do que pregam seus opositores e até setores da base aliada, seu governo não é uma "continuidade" da administração de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002): "Não demos continuidade às políticas do governo anterior, fizemos o que deixou de ser feito".
"Nestes 24 meses, vivemos intensamente a dramática situação do país, principalmente o desaparelhamento do Estado. Herdamos uma máquina administrativa ineficiente, desprovida, em boa parte, do sentido republicano, sem vocação para realizar políticas em proveito da maioria." Sua gestão, disse, impediu uma "catástrofe anunciada": "Revertemos um processo que nos conduzia ao abismo. A catástrofe anunciada por alguns, aqui e lá fora, não se produziu. Fomos capazes, governo e sociedade, de impedi-la".
Lula justificou a política econômica. "Em lugar de vultosos déficits nas contas externas, hoje exibimos significativos superávits." E prosseguiu: "As medidas de política econômica adotadas, algumas amargas, outras incompreendidas ou criticadas, permitiram pôr o país no rumo certo".
Diante do anúncio do avanço de 5,3% do PIB entre janeiro e setembro deste ano, Lula rebateu os críticos: "Não se trata de uma bolha, de um espasmo. Anuncia-se um processo consistente e duradouro, posto que o investimento cresce e a inflação vai sendo controlada". Na reunião, discutiu-se ainda a tensão social e o reconhecimento de que alguns programas terão de ser priorizados em razão da insuficiência de recursos.
Lula classificou a área social de "obsessão" de seu governo e criticou os antecessores. "Recessões ou crescimentos medíocres aprofundaram, sobretudo, a enorme brecha social que marca nosso país." Disse que o Fome Zero tem papel fundamental para atenuar a crise social que vivemos: "Elas [políticas sociais] contribuem para a aceleração do crescimento econômico com distribuição de renda. Não podem ser assim confundidas com medidas compensatórias ou apenas filantrópicas".
Reconheceu falhas na fiscalização do Bolsa-Família. "O governo está zelando para que os problemas que o Bolsa Família teve em sua implementação sejam corrigidos de forma exemplar." Encerrou o discurso enaltecendo sua equipe e dizendo que a hora do Brasil chegou. "Este é um governo de homens e mulheres probos, capazes e dedicados. Todos estamos imbuídos do sentimento de que a hora do Brasil chegou. Esta hora é a hora do desenvolvimento, do crescimento econômico com geração de empregos, distribuição de renda e inclusão social."


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